Zema declarou voto no candidato do PL, Caiado prepara anúncio em Goiânia nesta terça, enquanto Augusto Cury e Renan Santos mantêm distância dos dois finalistas
O segundo turno presidencial começou a ganhar forma política nesta segunda-feira, 5 de outubro, e as primeiras movimentações mostram estratégias bastante diferentes dos dois lados.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram aproximadamente 56,1 milhões de votos para o candidato do PL e 53,9 milhões para o presidente, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. A nova votação será realizada em 25 de outubro.
A vantagem é pequena o suficiente para manter a disputa aberta, mas o primeiro movimento político depois das urnas partiu principalmente do campo de Flávio. Enquanto Lula passou a segunda-feira reunido com aliados para entender o que deu errado no primeiro turno, o candidato do PL começou a transformar afinidades políticas em declarações formais de apoio.
Zema saiu do “contra o PT” e declarou voto em Flávio
Romeu Zema foi o primeiro dos candidatos derrotados a abandonar qualquer ambiguidade.
Na noite da eleição, o ex-governador de Minas havia afirmado apenas que estaria do lado oposto ao PT onde o partido estivesse no segundo turno. Nesta segunda-feira, foi além e declarou publicamente voto em Flávio Bolsonaro.
“Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro”, afirmou Zema em vídeo divulgado nas redes sociais.
Politicamente, a adesão ajuda Flávio a construir uma imagem de unificação da direita, mas é preciso colocar seu peso eleitoral em perspectiva. Zema terminou a eleição com apenas 0,27% dos votos válidos no país e teve 0,82% em Minas Gerais, estado que governou por mais de sete anos. No próprio estado, Flávio já havia vencido Lula por 48,24% a 43,33%.
Portanto, o apoio de Zema tem neste momento um valor político e simbólico provavelmente maior do que uma capacidade demonstrável de transferir uma grande quantidade de votos.
Caiado decidiu apoiar Flávio, mas o PSD não vai junto
A novidade mais importante desta terça-feira deve acontecer em Goiânia.
Ronaldo Caiado decidiu apoiar Flávio Bolsonaro e marcou para esta terça, dia 6, um encontro com o candidato do PL na capital goiana. O anúncio público está previsto para a tarde e também deve contar com Daniel Vilela, governador eleito de Goiás.
Caiado informou ainda que pretende entregar a Flávio um documento reunindo propostas nas quais identifica convergência entre os dois programas, principalmente nas áreas de segurança pública, saúde e inteligência artificial.
Existe, porém, uma diferença importante entre o apoio de Caiado e o apoio do PSD.
Gilberto Kassab decidiu manter o partido nacionalmente neutro e liberou diretórios estaduais, parlamentares e lideranças para fazerem suas próprias escolhas no segundo turno. Isso permite que Caiado caminhe com Flávio enquanto outras lideranças do PSD permaneçam com Lula ou simplesmente não entrem na campanha presidencial.
Caiado recebeu aproximadamente 2,6 milhões de votos, equivalentes a 2,18% dos votos válidos. Mesmo em Goiás, entretanto, terminou atrás dos dois finalistas. Flávio teve 53,60% no estado, Lula 31,06% e Caiado 12,33%.
Ou seja, também aqui não existe uma transferência automática de votos. O eleitor de Caiado não pertence ao candidato derrotado e terá de ser convencido novamente.
Cury e Renan escolheram não escolher
Augusto Cury, terceiro colocado no primeiro turno, tomou uma posição completamente diferente.
O candidato do Avante afirmou que não apoiará Lula nem Flávio Bolsonaro e disse que pretende permanecer em silêncio durante o segundo turno. Cury também deixou claro que ninguém está autorizado a utilizar seu nome ou o de seu vice para anunciar apoio a qualquer uma das candidaturas. Suas propostas, segundo ele, estarão disponíveis para quem vencer a eleição.
Cury ainda sinalizou que não pretende continuar na política depois da experiência presidencial e descartou assumir cargo ministerial em um eventual governo.
Renan Santos adotou uma postura ainda mais dura. O candidato do Missão, que recebeu cerca de 2,67 milhões de votos e terminou com 2,24% dos válidos, disse que não apoiará nenhum dos dois concorrentes e liberou seus eleitores para decidirem por conta própria. Também fez críticas pesadas tanto a Lula quanto a Flávio.
Essa neutralidade de Cury e Renan torna seus eleitores especialmente interessantes para o segundo turno. Diferentemente de Zema e Caiado, não haverá orientação direta de seus candidatos tentando conduzir esse voto para um dos lados.
Flávio amplia a fotografia dos apoios
Além de Zema e da adesão programada de Caiado, Flávio recebeu nesta segunda-feira o apoio pessoal do ex-presidente Michel Temer.
Temer publicou um vídeo declarando voto no candidato do PL. É importante observar que se trata de uma manifestação pessoal do ex-presidente e não de uma decisão nacional do MDB.
Também declarou apoio o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas, reeleito no primeiro turno, deve participar mais diretamente da campanha e ajudar na articulação política e nas agendas pelo país.
PP e União Brasil entram agora no radar imediato. As duas legendas têm reunião prevista para esta terça-feira, e lideranças nacionais já sinalizaram aproximação com Flávio, embora existam diretórios estaduais com alianças diferentes.
O movimento indica que a campanha do PL tentará utilizar o resultado do primeiro turno para produzir uma sensação de ampliação política ao redor da candidatura.
Lula olha para quem nem chegou às urnas
Do outro lado, Lula passou a segunda-feira fazendo uma revisão da própria campanha.
O presidente reuniu aliados em Brasília para discutir os erros do primeiro turno, especialmente problemas de comunicação e o desempenho abaixo do esperado em grandes colégios eleitorais. Minas Gerais e São Paulo estão entre as maiores preocupações da campanha petista.
Mas há um número ainda maior no radar do PT: a abstenção.
Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, cerca de 21% do eleitorado. Esse contingente é muitas vezes superior aos aproximadamente 2,2 milhões de votos que hoje separam Flávio e Lula.
Lula deixou claro nesta segunda que pretende entender quem são essas pessoas e por que não votaram. A campanha também discute aumentar o contraste com Flávio, reorganizar a comunicação e buscar lideranças de centro que possam ajudar a ampliar sua votação.
Houve ainda uma mudança política relevante no discurso presidencial. Lula criticou publicamente o Supremo Tribunal Federal e afirmou que sua campanha estaria carregando o desgaste provocado pelas denúncias envolvendo a Corte. O movimento acontece em meio às repercussões políticas do caso Banco Master e indica uma tentativa de evitar que a insatisfação com o STF seja automaticamente incorporada ao discurso eleitoral de Flávio.
O segundo turno começa de verdade agora
As primeiras 24 horas depois da eleição mostram que os pouco mais de 9 milhões de votos dados aos demais candidatos são apenas uma parte da disputa.
Zema já fechou com Flávio. Caiado fará o mesmo nesta terça. Cury não quer participar da escolha e Renan recusou os dois candidatos.
Mas nenhum deles possui controle sobre os votos que recebeu.
Ao mesmo tempo, partidos como PSD, MDB, PP e União Brasil têm interesses diferentes de estado para estado, enquanto mais de 33 milhões de brasileiros que poderiam votar simplesmente não apareceram no primeiro turno.
É nesse eleitorado, e não apenas nas fotografias dos apoios políticos, que Lula e Flávio terão de buscar os votos capazes de alterar o resultado de 4 de outubro.
A campanha que terminou no domingo acabou.
A disputa de 25 de outubro já começou.