A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi recebida com atenção na Europa. O motivo vai muito além da política brasileira. O próximo presidente terá nas mãos parte da Amazônia, algumas das maiores reservas de terras raras do planeta e a possibilidade de reposicionar o Brasil na disputa entre Estados Unidos, China e União Europeia.
Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno brasileiro. Mas o resultado de domingo também abriu uma eleição que interessa diretamente à Europa.
Até esta terça-feira, 6 de outubro, não houve uma reação institucional de confronto por parte da União Europeia, França ou Alemanha. A repercussão europeia tem sido mais cautelosa.
A cobertura política destacou a surpresa provocada pelos 47,03% de Flávio, a força conquistada pela direita no Congresso e a possibilidade de retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, voltou ao centro do debate europeu uma pergunta que praticamente desapareceu durante os anos Lula.
O que acontecerá com a política ambiental e internacional brasileira se Flávio Bolsonaro chegar à Presidência?
O primeiro problema é conhecido: a Amazônia
A Europa passou os últimos anos tratando a preservação da Amazônia não apenas como questão ambiental, mas também econômica.
Durante o atual governo, o desmatamento na Amazônia caiu para o menor nível em uma década. Entre agosto de 2025 e julho deste ano, foram destruídos aproximadamente 2.874 quilômetros quadrados de floresta, queda de 37% em relação ao período anterior.
Flávio promete zerar o desmatamento ilegal até 2029.
Ao mesmo tempo, porém, defende uma política ambiental significativamente mais flexível.
O candidato já criticou o que chama de “amarras ambientais”, defendeu aceleração de licenciamentos e maior exploração econômica de recursos naturais. Sua plataforma também abre espaço para regulamentação da mineração em terras indígenas e para uma estrutura ambiental menos restritiva à produção.
É essa combinação que provoca atenção no exterior.
Organizações ambientais e indígenas alertaram depois das eleições que a nova composição do Congresso poderá facilitar projetos relacionados à mineração em áreas protegidas e enfraquecer salvaguardas ambientais, independentemente de quem vença o segundo turno.
Para a Europa, porém, a questão ambiental está conectada a algo muito mais concreto.
Comércio.
O acordo com a Europa agora também depende do clima político
O acordo entre União Europeia e Mercosul começou a ser aplicado provisoriamente em maio deste ano, depois de mais de duas décadas de negociação.
Ele cria uma área econômica que reúne cerca de 700 milhões de pessoas e estabelece compromissos comerciais, regulatórios e ambientais entre os dois blocos.
A parte comercial já está funcionando.
Mas a relação política ainda importa muito.
Questões ambientais foram durante anos um dos principais obstáculos europeus ao acordo. Agricultores e partidos de diferentes países continuam pressionando contra sua implementação definitiva, enquanto o Parlamento Europeu ainda participa do processo institucional relacionado ao tratado.
Uma eventual mudança radical da política brasileira para a Amazônia poderia entregar novos argumentos aos grupos europeus contrários ao acordo.
Ou seja, a floresta deixou de ser apenas uma discussão climática.
Pode virar novamente uma discussão comercial.
Mas existe outra Amazônia que interessa à Europa
Debaixo do solo.
O Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, a segunda maior reserva conhecida do mundo, atrás apenas da China. Apesar disso, a produção brasileira ainda é muito pequena perto desse potencial.
Esses minerais são essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas, chips, inteligência artificial, equipamentos militares, radares, baterias e inúmeras tecnologias avançadas.
E a Europa tem um problema.
Depende fortemente da China.
A própria União Europeia reconhece dependência superior a 80% da China em diversas matérias-primas críticas e próxima de 90% para alguns elementos de terras raras.
Por isso, o Brasil virou prioridade estratégica.
Em junho, o comissário europeu responsável pelas Parcerias Internacionais veio ao país justamente para discutir investimentos em minerais críticos. Visitou inclusive uma instalação relacionada a terras raras em Minas Gerais.
Os projetos europeus atualmente incluem investimentos conjuntos no Brasil em lítio, níquel e terras raras.
É aqui que Flávio Bolsonaro entra diretamente na disputa.
Flávio já ofereceu o Brasil como alternativa aos Estados Unidos
Em março, durante um evento conservador nos Estados Unidos, Flávio afirmou que o Brasil poderia ser a solução para reduzir a dependência americana da China em minerais críticos, principalmente terras raras.
A frase teve repercussão política porque minerais estratégicos não são simplesmente mais uma commodity.
São componentes de segurança nacional.
Quem controla mineração, processamento e tecnologia controla parte importante das cadeias industriais do futuro.
A preocupação europeia, portanto, não precisa ser interpretada apenas como medo de que o Brasil explore seus minerais.
A Europa também quer acesso a eles.
A questão é quem terá preferência.
Estados Unidos?
Europa?
China?
Ou uma política brasileira capaz de negociar simultaneamente com os três?
Flávio é mais complexo nesse ponto do que o discurso sugere
Existe uma diferença importante entre algumas declarações feitas pelo candidato e aquilo que aparece formalmente em seu programa.
Flávio defende forte aproximação com os Estados Unidos e mantém relação política evidente com Donald Trump.
Mas seu plano de governo afirma que pretende atrair capital e tecnologia estrangeiros de diferentes países e, ao mesmo tempo, evitar que o Brasil permaneça simplesmente exportando matéria-prima.
A proposta é ampliar o processamento dos minerais dentro do próprio território brasileiro e agregar valor antes da exportação.
Portanto, afirmar que Flávio simplesmente pretende “entregar as terras raras aos Estados Unidos” iria além do que está documentado.
O que existe de concreto é uma orientação muito mais próxima de Washington e uma disposição pública de apresentar os recursos brasileiros como solução para interesses estratégicos americanos.
Para Bruxelas, isso é suficiente para ligar o sinal de atenção.
Porque a disputa não é mais apenas ambiental
Há alguns anos, quando a Europa discutia Brasil e Amazônia, a preocupação principal era desmatamento.
Em 2026, a situação é diferente.
A floresta continua central.
Mas agora existem também minerais críticos, inteligência artificial, indústria de defesa, carros elétricos, segurança energética e competição com a China.
O Brasil passou a ocupar uma posição extraordinariamente valiosa nesse novo mapa mundial.
Estados Unidos e União Europeia querem diminuir sua dependência chinesa.
A China quer preservar sua influência sobre cadeias minerais.
E o Brasil possui recursos que todos procuram.
É por isso que o resultado do primeiro turno brasileiro interessa tanto fora do país.
A Europa ainda observa
Não existe, neste momento, uma crise diplomática entre Flávio Bolsonaro e a Europa.
Também seria precipitado afirmar que Bruxelas já trabalha contra sua eleição.
O movimento até agora é de observação.
Mas as perguntas começaram.
Qual será a política para a Amazônia?
O Brasil manterá os compromissos ambientais associados à relação com a União Europeia?
Quem terá acesso aos minerais críticos?
Flávio privilegiará Washington?
Qual espaço continuará existindo para investimentos europeus?
E qual será a posição brasileira na disputa cada vez mais aberta entre Estados Unidos e China?
São perguntas enormes para uma eleição separada por apenas 1,87 ponto percentual.
Porque em 25 de outubro o brasileiro escolherá o próximo presidente.
Mas o resultado também ajudará a determinar com quem o Brasil pretende negociar algumas das riquezas mais disputadas do planeta.