Às vésperas da sessão que pode autorizar investigação contra Alexandre de Moraes, presidente defende apuração “doa a quem doer”, critica vazamentos seletivos e tenta impedir que crise no Supremo seja colada à sua campanha
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à histórica sessão do Supremo Tribunal Federal desta terça-feira, 15 de setembro, adotando uma postura cuidadosamente calculada: não pretende assumir a defesa de Alexandre de Moraes, mas também evita transformar o ministro em adversário político.
A posição que vem sendo construída pelo Palácio do Planalto e pela campanha petista pode ser resumida em uma frase repetida pelo próprio presidente nos últimos dias: investigar todos, sem blindagem, “doa a quem doer”.
A sessão marcada para as 10h desta terça-feira decidirá se existem elementos para a abertura de uma investigação formal sobre a relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Trata-se de uma situação inédita no STF e que ocorre a poucas semanas do primeiro turno da eleição presidencial.
Lula prepara resposta para depois do julgamento
A informação mais recente sobre a estratégia do presidente surgiu na noite desta segunda-feira.
Segundo o Poder360, a equipe de comunicação de Lula discutiu como o presidente deverá reagir ao julgamento. Uma das possibilidades é a gravação de um vídeo após a sessão, mas a decisão dependerá diretamente do resultado produzido pelo Supremo.
Lula tem ainda uma reunião marcada para as 16h desta terça-feira, no Palácio da Alvorada, com o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e o secretário de Imprensa, Laércio Portela.
O movimento mostra que o Planalto não pretende antecipar uma defesa de Moraes antes de saber como o próprio STF tratará o caso.
Nos bastidores da campanha, a orientação predominante é ainda mais clara: Lula deve defender a investigação sem assumir a defesa pessoal do ministro.
Existe, porém, uma preocupação dentro do entorno presidencial. Parte dos aliados avalia que Lula também não deveria romper politicamente com Moraes, com quem manteve proximidade institucional principalmente depois dos ataques de 8 de Janeiro.
É um equilíbrio delicado.
De aliado institucional a distância calculada
A relação entre Lula e Moraes ganhou força durante a reação institucional aos ataques de 8 de Janeiro e ao longo dos processos relacionados à tentativa de golpe.
Essa proximidade tornou-se agora um problema eleitoral.
A campanha de Flávio Bolsonaro tenta explorar justamente essa associação, apresentando Lula e Moraes como integrantes de um mesmo campo político. Nos bastidores da campanha bolsonarista, a avaliação é de que qualquer resultado desta terça-feira pode ser explorado eleitoralmente: se Moraes for investigado, a direita poderá reivindicar uma vitória; se não for, poderá acusar o Supremo de proteger um de seus integrantes.
Lula percebeu o risco.
Quando se manifestou publicamente sobre o escândalo do Banco Master, em 3 de setembro, o presidente evitou citar Moraes nominalmente e afirmou que era necessário investigar “todo mundo, sem blindagem de ninguém”.
Desde então, o discurso ficou mais duro.
No dia 9, Lula passou a defender a quebra completa do sigilo das investigações e cobrou que todo o material do caso Master fosse conhecido pelo público.
Em entrevista ao SBT, reforçou a posição: investigações envolvendo o Judiciário ou a política deveriam ser tornadas públicas, com apuração de todos os envolvidos. A Reuters registrou que a postura tinha justamente o objetivo de afastar Lula da crise interna do Supremo.
Lula foi além: ministros também devem ser investigados
O sinal mais forte veio no último sábado, durante ato de campanha em Curitiba.
Ao falar das investigações envolvendo inclusive seu filho Fábio Luís Lula da Silva, Lula declarou que ninguém deveria ser protegido e estendeu explicitamente o raciocínio aos integrantes do STF.
“Ninguém pode ser ministro da Suprema Corte para ficar rico”, afirmou, acrescentando que o cargo exige um padrão de comportamento elevado.
Politicamente, foi uma mudança importante.
Lula deixou de apenas defender genericamente uma investigação do Banco Master e passou a admitir publicamente que um ministro do Supremo também deve responder caso existam irregularidades comprovadas.
A declaração praticamente inviabiliza uma defesa incondicional de Moraes agora.
O alvo de Lula tem sido André Mendonça
Isso não significa, porém, que Lula tenha adotado a narrativa dos adversários de Moraes.
O presidente passou a atacar principalmente a maneira como André Mendonça conduziu as investigações.
Em Curitiba, Lula acusou Mendonça de divulgar informações de maneira seletiva — aquilo que chamou de materiais “pinçados” — e disse ter levado a reclamação pessoalmente ao presidente do STF, Edson Fachin.
Segundo a CNN Brasil, Lula conversou por telefone três vezes com Fachin e, nas três ocasiões, cobrou a retirada dos sigilos relacionados ao caso Master.
Essa é a linha política que o presidente tenta estabelecer:
não defender Moraes, mas questionar uma investigação que considere seletiva; não pedir o arquivamento, mas a divulgação de tudo.
A estratégia permite ao petista responder às acusações contra Moraes enquanto desloca o debate para outros personagens relacionados a Daniel Vorcaro — entre eles integrantes do Congresso, do Judiciário e o próprio Flávio Bolsonaro.
Eleição explica parte da cautela
A postura também precisa ser compreendida dentro do cenário eleitoral.
Pesquisas divulgadas nesta segunda-feira mostram Lula e Flávio Bolsonaro em uma corrida apertada. Na Quaest, Flávio aparece numericamente à frente do presidente em um eventual segundo turno, por 42% a 40%, diferença dentro da margem de erro. Já a BTG/Nexus aponta Lula com 47% e Flávio com 46%, também em empate técnico.
Nesse ambiente, transformar a eleição em um plebiscito sobre Alexandre de Moraes seria especialmente arriscado para Lula.
A crise no STF oferece ao bolsonarismo uma oportunidade de retomar uma de suas principais bandeiras políticas dos últimos anos: o confronto com Moraes.
Por isso, a campanha petista tenta retirar Lula dessa equação.
O que Lula fará se Moraes for investigado?
Essa é justamente a decisão que ficou para depois da sessão.
A preparação de uma eventual manifestação presidencial indica que Lula pretende reagir rapidamente, mas somente depois de conhecer o resultado.
Se o Supremo autorizar uma investigação, a tendência, considerando todas as manifestações recentes do presidente, é que Lula sustente que as instituições funcionaram e que ninguém está acima de uma apuração.
Se a investigação for rejeitada, o cenário torna-se politicamente mais complexo: uma defesa enfática da decisão poderia recolocar Lula ao lado de Moraes justamente quando sua campanha trabalha para afastar essa associação.
Existe ainda a possibilidade de o Supremo não produzir uma conclusão nesta terça-feira. Ministros discutem nos bastidores um eventual pedido de vista, que poderia interromper o julgamento. Fachin será o primeiro a votar e há articulações para que outros integrantes da Corte antecipem suas posições antes de eventual suspensão.
Lula escolheu a investigação, não a blindagem
Até a véspera da votação, portanto, a posição de Lula é significativamente diferente daquela que seus adversários tentam atribuir a ele.
O presidente não pediu o arquivamento das acusações contra Alexandre de Moraes. Não afirmou que o ministro é inocente. Não defendeu que o STF impeça uma investigação.
Ao contrário: repetiu que todos devem ser investigados, cobrou a abertura dos documentos e chegou a dizer publicamente que ministros do Supremo também precisam responder por eventuais irregularidades.
Ao mesmo tempo, Lula contesta o modo como André Mendonça conduziu parte das apurações e tenta impedir que vazamentos seletivos influenciem a eleição.
É uma posição simultaneamente institucional e eleitoral.
Nesta terça-feira, o STF decidirá sobre Alexandre de Moraes.
E Lula estará observando não apenas o placar do Supremo, mas também os efeitos dele sobre outro placar que, a menos de três semanas da eleição, tornou-se igualmente imprevisível: o das urnas.