O Banco Master realizou operações financeiras que totalizaram ao menos R$ 1,112 bilhão em empréstimos concedidos a empresas ligadas ao investidor Nelson Tanure. Essas transações, que se estenderam de 2022 a 2025, envolviam o repasse rápido dos créditos para fundos com beneficiários finais desconhecidos, muitas vezes no mesmo dia da concessão do empréstimo. A Polícia Federal e o liquidante do banco apontam que esse tipo de operação era utilizado para movimentar recursos de forma questionável.
O padrão das operações consistia em o Banco Master declarar um empréstimo de dezenas de milhões de reais a uma empresa de Tanure e, em seguida, receber um valor equivalente de um fundo, dando a dívida como quitada perante o Banco Central. A obrigação, então, migrava para o fundo, fora da supervisão bancária direta que permitiria aos órgãos de controle acompanhar o devedor original. Investigadores suspeitam que Nelson Tanure pudesse ser um sócio oculto do banco, uma hipótese que ele sempre negou, enquanto o liquidante acusa Daniel Vorcaro de usar o expediente para repassar dinheiro ao seu pai, Henrique Vorcaro.
As operações “bate-volta” com empresas de Tanure foram registradas desde 2022. Naquele ano, o Banco Master emprestou R$ 15,2 milhões à Gafisa e, no mesmo dia, cedeu o crédito para a Lermont Participações, veículo de investimentos de Tanure. Em junho de 2022, a própria Lermont recebeu R$ 86 milhões em empréstimo do banco, com os créditos sendo vendidos logo depois para o fundo Mingard, criado para concentrar dívidas de Tanure. Ao todo, em 2022, o Master registrou R$ 159 milhões em carteiras relativas a empréstimos tomados por Gafisa, Milos Participações e Lormont.
A prática se intensificou em 2024, quando o Banco Master registrou R$ 774 milhões em operações do tipo apenas com a Lormont. Desse montante, R$ 463 milhões foram comprados no mesmo dia pelo Genicart, um fundo FIDC administrado pela Reag, criado especificamente para adquirir essas dívidas. Em maio de 2025, o fundo Yvrac, também administrado pela Reag, adquiriu R$ 115 milhões em dívidas de três empresas de Tanure com o Master, incluindo a Lormont. Quatro meses depois, o Master repassou o fundo Yvrac ao BRB como compensação por carteiras problemáticas vendidas anteriormente pelo banco de Daniel Vorcaro, expondo o BRB a ações ligadas a Tanure sem aparecer como beneficiário final.
No auge da crise financeira do Banco Master, as operações começaram a gerar prejuízos diretos. Em setembro de 2025, o banco emprestou R$ 64,8 milhões à Gafisa e quitou a dívida por R$ 43,7 milhões recebidos do Yvrac, resultando em deságio. Situação similar ocorreu com a Sercomtel, que recebeu R$ 66,2 milhões em empréstimo e teve o crédito cedido por R$ 47,1 milhões. Entre 5 e 25 de setembro de 2025, o Master emprestou R$ 179 milhões a empresas de Tanure em dez operações, vendendo os créditos ao Yvrac sempre com deságio, o que gerou um prejuízo de R$ 41 milhões em apenas um mês, período em que o banco buscava capital e liquidez. Auditorias independentes, como a da RSM Brasil, também encontraram problemas, abstendo-se de emitir opinião sobre o Ravena FIDC em 2024 e 2025 por falta de evidências suficientes para avaliar o valor justo e a recuperabilidade de seus ativos.