Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam de forma reservada que a crise institucional na Corte deve se prolongar sem uma solução consensual a curto prazo. O desgaste interno foi intensificado pelo início da discussão sobre uma eventual apuração contra o ministro Alexandre de Moraes, cenário com potencial de impactar o andamento de julgamentos e travar propostas da presidência de Edson Fachin, como o Código de Ética para os magistrados.
A tensão ultrapassou os plenários e atingiu as relações pessoais. Durante as discussões sobre o caso de Moraes, o ministro Kassio Nunes Marques bloqueou o número telefônico do ministro Gilmar Mendes após desentendimentos ocorridos na semana anterior. Integrantes da Corte também apontam receio de que novos vazamentos de mensagens do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ampliem a instabilidade.
No âmbito processual, há incerteza quanto à manutenção do impedimento declarado por Nunes Marques quando o caso relativo ao extinto Banco Master voltar à Segunda Turma. O relator, André Mendonça, contava com o apoio de Nunes Marques e de Luiz Fux no colegiado. Nunes Marques havia se afastado após mensagens apreendidas mencionarem repasses de R$ 500 mil a seu filho — suspeita negada por ambos. Contudo, o magistrado, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), indicou a interlocutores que a restrição visava debates eleitorais ligados a Moraes e não necessariamente abrangeria todos os desdobramentos, abrindo margem para retornar à análise do caso Master.
Em razão do clima conflagrado, a proposta de código de conduta prevista para avançar após o período eleitoral corre o risco de ser paralisada. A ala insatisfeita com a condução da crise por Fachin tende a criar entraves à votação de regras disciplinares para a Corte.
Na terça-feira (15), o plenário realizou sessão extraordinária sobre o relatório da Polícia Federal a respeito de mensagens entre Vorcaro e Moraes, solicitado originalmente por Mendonça. O mérito não chegou a ser votado. Por 4 votos a 3, os ministros decidiram manter separadas as apurações sobre Moraes e Mendonça, rejeitando a questão de ordem de Gilmar Mendes e Flávio Dino para unificar os procedimentos, redistribuir a relatoria por sorteio e consultar a Procuradoria-Geral da República (PGR). O julgamento foi suspenso por pedido de vista de Dino, que dispõe de até 90 dias para devolução, com prazo final em dezembro.
A crise teve início após Mendonça retirar o sigilo de relatórios da PF que registraram 52 mensagens entre Vorcaro e Moraes, além de encontros e um contrato de R$ 130 milhões do banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Moraes acusou o colega de liberação “seletiva” de dados, enquanto Mendonça afirmou ter resguardado apenas investigações em curso e informações de terceiros. A PF disponibilizou o acervo integral do material pericial aos gabinetes de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes após autorização judicial e parecer favorável da PGR. Fachin designou para 23 de setembro a análise das contestações de Moraes contra Mendonça.