A interrupção do transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz já gera reflexos diretos na produção agrícola, com riscos de queda na produtividade do campo e encarecimento dos alimentos. O alerta foi emitido pelo presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), Álvaro Lario, em declaração à Reuters na quinta-feira (15).
“A passagem resultante do bloqueio inicial do Estreito de Ormuz… começa agora a ser visível”, afirmou Lario à agência de notícias.
Segundo o representante da ONU, a cadeia global de abastecimento de alimentos enfrenta uma pressão generalizada de custos. A situação decorre da restrição na oferta de fertilizantes ligada às interrupções na rota marítima, do encarecimento dos fretes e combustíveis, de perdas provocadas pelo fenômeno El Niño e de gargalos no envio de trigo a partir do Mar Negro.
Conforme o relato, o Irã busca reforçar o controle sobre o Estreito de Ormuz para pressionar os Estados Unidos, enquanto o governo norte-americano tem intensificado o bloqueio naval a portos iranianos. Embora reservas prévias de fertilizantes e combustíveis tenham amortecido o choque no início, a incerteza gerou cautela nas etapas de plantio, corte na aplicação de insumos e dificuldades na colheita mecanizada em razão dos combustíveis mais caros.
De acordo com Lario, as cotações das commodities agrícolas avançaram 13% no terceiro trimestre, e há expectativa de novas altas para o quarto trimestre deste ano e o primeiro trimestre do ano seguinte. Países dependentes de importações desses insumos e de alimentos básicos encontram-se mais expostos, com destaque para a vulnerabilidade do Sudeste Asiático em combustíveis e da região do Golfo em produtos alimentícios.
Um funcionário vinculado ao projeto da ONU informou à Reuters, na quarta-feira, que partes da Ásia e da África podem enfrentar uma crise de segurança alimentar caso Estados Unidos e Irã não alcancem um acordo, em questão de poucas semanas, para permitir o fluxo de fertilizantes pelo estreito.
Lario acrescentou ainda que o cenário incerto pode incentivar pequenos produtores rurais a abandonarem lavouras de maior valor agregado e ciclo longo, optando por cultivos que gerem retorno financeiro imediato.