Mais de 50 mil pessoas morreram em áreas urbanas da Europa em decorrência de ondas intensas de calor durante o verão, segundo conclusões de dois artigos científicos revisados por pares e publicados na revista Nature Health. De acordo com os pesquisadores, mais de 32.600 desses óbitos são atribuídos diretamente às mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis.
Para chegar a esses números, os cientistas avaliaram temperaturas registradas em 854 cidades distribuídas por 30 países europeus, comparando os dados térmicos observados com modelos estatísticos que simulam um cenário sem interferência humana no clima. O levantamento abrangeu localidades que concentram cerca de 40% da população dos países estudados entre o começo de junho e o encerramento de agosto.
Ao todo, os autores estimaram 50.391 óbitos associados ao estresse térmico no período, o patamar mais elevado registrado nos últimos 26 anos. A cifra supera os registros de verões históricos como os de 2003 e 2022. As regiões sul e oeste do continente apresentaram os cenários mais graves, embora o norte e áreas do Reino Unido também tenham registrado impactos expressivos.
A pesquisa identificou que as maiores taxas de mortalidade incidiram sobre idosos a partir de 85 anos. Contudo, os efeitos atingiram diferentes faixas etárias, contabilizando mais de 800 mortes de adultos entre 20 e 44 anos, além de milhares de vítimas com menos de 65 anos.
O documento aponta que a Europa Ocidental registrou anomalias térmicas de aproximadamente 2,9 °C acima da média observada entre 1991 e 2020, com picos diários pontuais que superaram a média habitual em mais de 12 °C em determinadas regiões. Os dados indicam que a proporção de óbitos por calor vinculados a combustíveis fósseis subiu de 40%, no início do século, para cerca de dois terços na análise recente.
“Estamos muito longe de conseguir limitar as piores consequências das mudanças climáticas, e os governos precisam se dar conta de que, sem uma ação mais rápida e coordenação, a situação só vai piorar”, advertiu Clair Barnes, pesquisadora de eventos climáticos extremos no Imperial College London e coautora das publicações.
Especialistas externos ressaltam a necessidade de cautela metodológica. Lasse Vestergaard, médico-chefe da Rede Europeia de Monitoramento da Mortalidade, pontuou que estimativas geradas por modelos analíticos trazem margens de incerteza, ainda que estejam alinhadas às informações apuradas pelos sistemas nacionais de saúde.