Em ação de 196 páginas, campanha de Flávio Bolsonaro denuncia uma operação digital com milhões de visualizações, pede suspensão de perfis e até a cassação da chapa Lula-Alckmin. O episódio revela como o medo de perder direitos sociais entrou no centro da disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro decidiu levar à Justiça Eleitoral uma das disputas mais sensíveis deste segundo turno: a tentativa de convencer o brasileiro de que uma eventual vitória do adversário poderá colocar em risco aquilo que ele já conquistou. Na noite de quinta-feira (8), a campanha do senador apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma ação de investigação judicial eleitoral acusando uma rede de perfis ligados à militância pró-Lula de promover uma operação coordenada de desinformação nas redes sociais.
A dimensão da denúncia chama a atenção. Em uma petição de 196 páginas, os advogados afirmam ter analisado 2.856 publicações de 146 perfis do Instagram, entre os dias 5 e 7 de outubro. Desse levantamento, identificaram 218 publicações consideradas problemáticas, sendo 24 classificadas como falsas e outras 194 como descontextualizadas ou sem confirmação. Segundo a própria ação, o material acumulou aproximadamente 11,6 milhões de visualizações e 2,5 milhões de interações em pouco mais de dois dias.
O mecanismo apontado pela defesa é relativamente simples, mas potencialmente poderoso. Por meio da ferramenta de colaboração do Instagram, conhecida como collab, diferentes contas publicam simultaneamente o mesmo conteúdo, reunindo suas audiências e multiplicando a circulação da mensagem. A campanha afirma que 80% das publicações questionadas utilizaram esse recurso e sustenta que não se trata de manifestações espontâneas isoladas, mas de uma estrutura organizada para espalhar informações prejudiciais ao candidato.
Entre as mensagens contestadas estão afirmações de que Flávio pretende privatizar o SUS, extinguir o Bolsa Família, acabar com o décimo terceiro salário, congelar aposentadorias e impor jornadas de trabalho de até 16 horas diárias. Algumas publicações avançam para acusações ainda mais graves, sugerindo que o senador promoveria um golpe de Estado ou implantaria uma ditadura caso chegasse à Presidência.
A reação jurídica é proporcional à gravidade que a defesa atribui aos fatos. Além de solicitar a retirada de 221 publicações e a suspensão de 32 perfis, a campanha pede restrições às publicações colaborativas entre 48 contas, identificação de responsáveis por perfis anônimos e multas por descumprimento de eventuais ordens judiciais. O pedido mais contundente é a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin, medida que dependeria da comprovação de abuso eleitoral grave.
Mas existe um aspecto político importante por trás dessa movimentação. Flávio tenta construir sua campanha em torno da ideia de renovação, enquanto Lula procura deslocar a discussão para os riscos de uma mudança de governo. É uma disputa entre a expectativa de transformar o país e o receio de perder benefícios ou direitos existentes. Para milhões de brasileiros que dependem de serviços públicos e programas sociais, a segunda questão tem consequências concretas na vida cotidiana.
A estratégia petista, entretanto, não surgiu inteiramente do nada. A equipe econômica de Flávio discute medidas de ajuste fiscal que poderiam alcançar R$ 250 bilhões, incluindo mudanças nas regras de reajuste de benefícios previdenciários e nos pisos de saúde e educação. A campanha nega que essas hipóteses representem propostas oficiais, enquanto o próprio candidato afirma que pretende preservar os programas sociais. Há, portanto, uma diferença fundamental entre questionar os efeitos de medidas econômicas discutidas nos bastidores e apresentar como decisão tomada algo que o candidato não anunciou.
Essa fronteira será um dos grandes desafios do TSE. A crítica política, inclusive a mais dura, faz parte da democracia. Transformar suspeitas em certezas ou atribuir deliberadamente propostas inexistentes a um adversário é outra questão. Ao mesmo tempo, o uso de publicações colaborativas, por si só, não comprova uma operação ilegal. Caberá à Justiça examinar a autenticidade dos conteúdos, a existência de coordenação e a eventual participação da campanha adversária.
A ofensiva de Flávio também alcançou outras figuras do campo governista. Em quatro ações apresentadas na quinta-feira, sua equipe questionou publicações da primeira-dama Janja e dos deputados André Janones e Lindbergh Farias. Até a noite de quinta-feira, a campanha de Lula informou que ainda não havia sido notificada da principal investigação e, por isso, não comentaria as acusações.
O embate possui ainda uma circunstância reveladora. No mesmo dia, o TSE determinou a remoção de três publicações feitas pelo próprio Flávio Bolsonaro, incluindo conteúdo produzido com inteligência artificial sem a identificação exigida pela legislação eleitoral e postagens que associavam Lula a organizações criminosas. Também existem denúncias contra estruturas digitais bolsonaristas, o que demonstra que a discussão sobre desinformação não se limita a um único campo político.
Talvez o elemento mais importante dessa história esteja no que ela revela sobre a natureza da campanha. Em vez de concentrar toda a atenção nas propostas para os próximos quatro anos, as duas candidaturas dedicam parte considerável de seus esforços a apresentar ao eleitor os possíveis perigos de uma vitória adversária.
A ação de Flávio ainda precisará superar o exame jurídico, mas já coloca uma questão relevante no centro do segundo turno: até onde uma campanha pode explorar os receios legítimos da população sem transformar a insegurança das pessoas em instrumento de desinformação?
Essa distinção importa especialmente quando o assunto é aposentadoria, saúde, salário ou comida na mesa. Para o eleitor que depende desses direitos, não se trata de uma simples discussão entre militantes na internet. Trata-se de saber em quem acreditar quando o que está em jogo é a segurança de sua própria família.