Candidato tinha um caminho relativamente simples para encerrar a falsa história sobre Nossa Senhora Aparecida, mas ampliou o conflito ao envolver a principal representação do episcopado católico brasileiro — justamente quando pesquisas mostram dificuldade maior de sua candidatura entre católicos
Há um problema recorrente na estratégia de Flávio Bolsonaro nesta campanha: em momentos nos quais precisa reduzir uma crise, frequentemente sua reação acrescenta uma nova camada ao problema.
Foi exatamente o que aconteceu no episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A história de que Flávio, caso eleito presidente, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil era falsa. Não existe proposta de sua autoria nesse sentido. O candidato, portanto, tinha não apenas o direito, mas uma razão política evidente para reagir, desmentir a informação e cobrar responsabilidade de quem a divulgou.
O problema estratégico começou depois.
Durante agenda em Goiânia, Flávio afirmou que o PT teria conseguido disseminar a informação com a ajuda de “gente de dentro da CNBB”. Não apresentou publicamente provas que sustentassem a acusação.
Horas depois, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reagiu oficialmente. A entidade afirmou que não produziu, autorizou nem participou da divulgação de informações falsas durante o processo eleitoral, declarou não integrar estruturas partidárias e respondeu que atribuir esse tipo de atuação à instituição sem fatos ou provas a atingia injustamente.
Nesse momento, a natureza da crise mudou.
Até então, Flávio era o candidato atingido por uma informação falsa. Ao envolver a CNBB, passou também a ter de explicar uma acusação feita por ele próprio.
É uma diferença enorme em comunicação política.
O adversário deixou de ser apenas o PT
Atacar Lula, o PT ou qualquer adversário eleitoral faz parte da lógica de uma campanha competitiva. Eleitores sabem que candidatos disputam versões, responsabilizam adversários e utilizam contraste.
A CNBB ocupa outro espaço.
Ela não é um partido, não disputa a Presidência e representa institucionalmente o episcopado de uma Igreja que continua profundamente inserida na sociedade brasileira. Em junho, ao publicar sua mensagem oficial para as eleições, a própria Conferência afirmou não apoiar candidaturas e defendeu participação política, democracia, bem comum e liberdade de consciência.
Isso não significa que a CNBB esteja acima de críticas. Instituições religiosas podem e devem ser questionadas quando entram no debate público.
A questão aqui é outra: qual era o ganho eleitoral de transformar uma fake news contra Flávio em um enfrentamento com a CNBB?
Esse cálculo fica ainda mais delicado quando se observa a fotografia do eleitorado.
O Brasil tinha, no Censo de 2022, aproximadamente 100,2 milhões de pessoas com 10 anos ou mais declaradamente católicas, equivalentes a 56,7% dessa população. Apesar do crescimento evangélico e da redução proporcional do catolicismo nas últimas décadas, nenhum candidato competitivo à Presidência pode tratar o universo católico como um segmento lateral da sociedade brasileira.
E para Flávio Bolsonaro esse ponto é ainda mais importante.
Na pesquisa Datafolha realizada em 22 e 23 de setembro, portanto antes da acusação contra a CNBB, Lula registrava 45% das intenções de voto entre católicos e Flávio, 33%. Entre evangélicos, o quadro se invertia: Flávio tinha 47%, contra 27% de Lula.
O dado não permite afirmar que a polêmica com a CNBB tenha provocado perda de votos — a pesquisa antecede o episódio. Mas revela onde estava a vulnerabilidade.
Flávio já chegava à reta final muito mais forte entre evangélicos do que entre católicos.
Abrir um conflito com a principal representação episcopal do país, portanto, toca justamente em um segmento no qual sua candidatura tinha mais terreno a conquistar.
A campanha precisava encerrar o assunto. Acabou aumentando sua duração
Esse talvez seja o ponto mais importante do episódio.
Quando surge uma informação falsa contra um candidato, há uma resposta clássica de gerenciamento de crise: negar objetivamente, apresentar os fatos, utilizar os instrumentos jurídicos disponíveis e retirar o assunto do centro da campanha.
Flávio fez as primeiras partes.
A campanha contestou a informação e levou a questão à Justiça Eleitoral. O conflito chegou inclusive ao Supremo, onde decisões passaram a discutir os limites entre desinformação, liberdade de expressão e liberdade religiosa.
Mas então o próprio candidato adicionou a CNBB ao episódio.
A consequência comunicacional é quase matemática: quanto mais personagens entram em uma crise, maior sua capacidade de sobreviver ao ciclo de notícias.
O que poderia terminar como “Flávio desmente fake news sobre Nossa Senhora” tornou-se uma discussão envolvendo Flávio, PT, CNBB, TSE, STF, liberdade religiosa, católicos e evangélicos.
Em vez de reduzir o campo de batalha, a campanha o ampliou.
E isso aconteceu a poucos dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Um candidato presidencial não comunica apenas para sua base
Existe ainda uma tensão mais profunda na estratégia de Flávio Bolsonaro.
O discurso religioso evangélico é uma de suas principais fontes de identidade política e eleitoral. Isso está refletido nos números: sua vantagem sobre Lula nesse segmento é expressiva.
O desafio de uma candidatura presidencial, porém, é diferente daquele de uma liderança de nicho.
Presidente é eleito formando maioria.
Isso exige preservar a identidade da base sem transformar grupos externos a ela em antagonistas desnecessários.
É justamente aí que o episódio da CNBB merece atenção.
A afirmação de que o Brasil seria “decretado ao Senhor Jesus Cristo”, feita anteriormente por Flávio e posteriormente apresentada por ele como um gesto simbólico de oração, conversa naturalmente com parte importante do eleitorado evangélico. Mas, quando o debate migra de uma profissão pessoal de fé para uma disputa envolvendo Nossa Senhora Aparecida e a CNBB, entra-se em território muito mais sensível.
Aparecida não é apenas um elemento doutrinário do catolicismo. É um dos símbolos religiosos e culturais mais reconhecíveis do país.
Ao reagir agressivamente à crise, a candidatura corre o risco de transformar uma discussão política em uma discussão de pertencimento religioso.
E campanhas presidenciais normalmente têm pouco a ganhar quando fazem o eleitor sentir que sua própria identidade entrou no campo de batalha.
A correção veio rapidamente, e isso também diz alguma coisa
No dia seguinte ao confronto, o tom mudou.
Flávio passou a elogiar a nota da própria CNBB, afirmou que ela ajudava a confirmar que a história sobre Nossa Senhora era falsa e apareceu publicamente segurando uma imagem da santa. Também procurou reforçar sua mensagem de respeito ao catolicismo.
Isso pode ser interpretado como uma tentativa de baixar a temperatura e recolocar o candidato na posição original: a de vítima de uma informação falsa.
Mas também evidencia o problema criado no dia anterior.
Se a prioridade era construir uma ponte com o eleitor católico, a campanha precisou gastar tempo reconstruindo uma ponte que não precisava ter sido tensionada.
Esse é o ponto central.
Flávio Bolsonaro não precisava aceitar a fake news. Não precisava deixar de atacar o PT. Não precisava abandonar seu discurso religioso nem sua identidade evangélica.
Precisava apenas escolher com precisão contra quem estava lutando.
Na política, especialmente numa eleição presidencial apertada, escolher adversários é tão importante quanto escolher aliados.
Ao transformar uma informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida em confronto com a CNBB, Flávio ampliou voluntariamente o número de atores envolvidos na crise e deslocou a discussão para um terreno no qual os números já mostravam maior dificuldade de sua candidatura.
Não sabemos ainda qual será o efeito eleitoral do episódio.
Mas a sequência revela uma contradição estratégica clara: uma candidatura que precisa ampliar sua coalizão eleitoral continua produzindo conflitos capazes de falar intensamente com quem já está perto dela, enquanto torna mais difícil a aproximação justamente com quem ainda precisa conquistar.