Com cerca de três milhões de eleitores a mais nas urnas, votação presidencial registra redução expressiva das ausências; votos brancos e nulos também diminuem.
O segundo turno presidencial de 2026 apresentou um comportamento diferente daquele observado nas eleições brasileiras recentes. Em vez de aumentar, a abstenção diminuiu entre a primeira e a segunda votação, ampliando o número de cidadãos que participaram da escolha do presidente da República.
Com 99,89% das urnas apuradas, a taxa de abstenção estava em 19,21%, contra 21,08% no primeiro turno.
A diferença de 1,87 ponto percentual representa uma mudança importante no comparecimento eleitoral. Aproximadamente três milhões de eleitores a mais participaram da votação de domingo (25), embora o número total de ausentes ainda tenha permanecido próximo de 30,4 milhões.
O percentual registrado foi o menor para um segundo turno presidencial desde 2006.
Os números chamam atenção porque o segundo turno costuma apresentar dificuldades adicionais de mobilização. Parte do eleitorado que participou da primeira etapa pode perder interesse na disputa, especialmente quando seu candidato preferido foi eliminado.
Em 2026, entretanto, o comportamento agregado foi diferente.
O que mudou entre os turnos
O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, havia registrado uma abstenção elevada, com aproximadamente 33,4 milhões de eleitores ausentes.
O resultado provocou discussões sobre o desinteresse político, a insatisfação com as candidaturas e as dificuldades materiais enfrentadas por cidadãos que precisam se deslocar até seus locais de votação.
Três semanas depois, o número de ausentes diminuiu.
A mudança ocorreu durante uma campanha presidencial marcada por intensa mobilização política, disputas nas redes sociais e uma competição entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
Os dados permitem afirmar que houve maior participação no segundo turno. Não permitem, isoladamente, determinar quais acontecimentos motivaram o comparecimento adicional.
Para compreender esse comportamento, será necessário examinar a distribuição regional das ausências e comparar os resultados com o perfil dos eleitores de cada localidade.
Bahia, Pernambuco e São Paulo registraram reduções
A queda da abstenção não ocorreu de maneira uniforme.
A Bahia apresentou a maior redução proporcional entre os turnos, seguida por Pernambuco e São Paulo.
No conjunto do país, 18 unidades da Federação registraram diminuição da abstenção, enquanto nove apresentaram aumento.
Amapá, Roraima e Acre estiveram entre os estados com maior crescimento das ausências.
Essas diferenças regionais são importantes porque o eleitorado brasileiro enfrenta condições bastante distintas de deslocamento e acesso aos locais de votação.
Nas grandes cidades, a disponibilidade de ônibus e outros meios de transporte pode influenciar o comparecimento.
Em áreas rurais, comunidades ribeirinhas e localidades afastadas, a distância e a infraestrutura disponível podem representar obstáculos adicionais.
A redução nacional da abstenção, portanto, não significa que todos os problemas de acesso tenham sido superados.
Brancos e nulos também diminuíram
Outro dado relevante foi a redução dos votos brancos e nulos.
No primeiro turno, eles representaram aproximadamente 4,77% dos votos depositados. No segundo, a proporção caiu para cerca de 3,23%.
Foi o menor percentual registrado em uma eleição presidencial brasileira neste século.
A diminuição indica que uma parcela maior dos eleitores que compareceram às urnas escolheu efetivamente um dos dois candidatos.
Isso não significa, necessariamente, uma adesão integral aos programas de governo apresentados.
O voto em segundo turno pode resultar de diferentes motivações: identificação com uma candidatura, rejeição à alternativa disponível, avaliação da administração em exercício ou preferência por propostas específicas.
Sem pesquisas capazes de identificar essas razões, não é possível atribuir um significado único ao comportamento dos eleitores.
O impacto sobre a disputa presidencial
A ampliação do comparecimento ocorreu em uma eleição decidida por uma diferença relativamente pequena entre os candidatos.
Lula venceu Flávio Bolsonaro depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar.
A maior participação integrou o contexto dessa mudança, mas seria incorreto afirmar que todos os eleitores adicionais votaram no presidente.
Para estabelecer o efeito específico do comparecimento, seria necessário analisar dados por município, zona eleitoral e seção, além de considerar a transferência de votos entre as candidaturas.
Mesmo essas comparações exigem cautela, porque resultados agregados não revelam automaticamente as decisões individuais dos eleitores.
O desafio de ampliar a participação
A redução da abstenção representa um dado relevante para a compreensão da eleição, mas também evidencia que milhões de brasileiros continuam sem participar da escolha presidencial.
O voto obrigatório não elimina obstáculos de transporte, dificuldades pessoais ou decisões individuais de não comparecimento.
O episódio envolvendo a prorrogação do horário de votação neste domingo reforçou a importância de discutir as condições concretas de acesso às urnas.
A participação eleitoral depende de instituições capazes de organizar a votação e de condições que permitam aos cidadãos exercer seus direitos.
A eleição de 2026 encerra-se com um comparecimento maior no segundo turno e uma redução dos votos inválidos.
Os números não explicam, sozinhos, a vitória presidencial. Mas demonstram que a mobilização do eleitorado foi uma característica relevante da disputa e deverá integrar qualquer análise consistente sobre o resultado.