Levantamento das últimas seis eleições presidenciais revela um fenômeno curioso: enquanto Lula e Flávio concentraram mais de 92% dos votos válidos, a abstenção chegou ao maior patamar desde 1998. Estaria o país dividido entre dois grupos políticos ou parte dos brasileiros simplesmente deixou de participar dessa disputa?
Se os brasileiros que não compareceram às urnas no último domingo formassem uma candidatura presidencial, teriam conquistado o terceiro lugar com uma votação impressionante: 33,4 milhões de eleitores. O número representa 21,08% das pessoas aptas a votar e revela uma das contradições mais interessantes da eleição de 2026. Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro disputam intensamente cada voto, milhões de brasileiros sequer participaram da escolha.
O fenômeno fica ainda mais intrigante quando observamos o resultado. Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Juntos, concentraram 92,19% da votação, deixando menos de 8% para todos os demais candidatos. Augusto Cury, terceiro colocado, recebeu apenas 2,89%.
Na prática, o primeiro turno funcionou quase como uma eleição entre dois nomes, apesar da existência de outras candidaturas. Mas se a disputa está tão concentrada, por que uma parcela crescente do eleitorado continua deixando de votar?
Um levantamento das últimas seis eleições presidenciais mostra que a abstenção vem aumentando continuamente desde 2006. Naquele ano, 16,75% dos brasileiros não compareceram às urnas. O índice passou para 18,12% em 2010, chegou a 19,39% em 2014, alcançou 20,33% em 2018 e subiu para 20,95% em 2022. Agora, atingiu 21,08%, o maior percentual desde 1998, quando 21,49% dos eleitores ficaram ausentes.
O crescimento acumulado é de 4,33 pontos percentuais em duas décadas. Em números absolutos, o país passou de aproximadamente 21 milhões de ausentes em 2006 para mais de 33 milhões neste ano. Parte desse aumento acompanha a expansão do eleitorado, mas a elevação proporcional demonstra que o fenômeno não pode ser explicado apenas pelo crescimento populacional.
A hipótese mais imediata seria associar esse afastamento à polarização política. Afinal, há anos o debate nacional gira em torno de petismo e bolsonarismo, com disputas marcadas por rejeição, conflitos institucionais e uma dificuldade crescente de construir alternativas com força eleitoral.
Entretanto, os próprios números recomendam cautela com essa explicação.
Em 2006, Lula e Geraldo Alckmin concentraram 90,25% dos votos válidos, praticamente o mesmo nível observado agora. Apesar disso, a abstenção era de apenas 16,75%. Já em 2014, quando Dilma Rousseff e Aécio Neves somaram 75,14% da votação, deixando espaço considerável para Marina Silva, a abstenção havia aumentado para 19,39%.
Em outras palavras, a concentração de votos em duas candidaturas não provoca necessariamente um crescimento equivalente da ausência nas urnas. Há outros fatores envolvidos.
A diferença mais perceptível nos últimos anos está no enfraquecimento das alternativas eleitorais. Em 2010, Marina Silva conquistou 19,33% dos votos válidos. Quatro anos depois, recebeu 21,32%. Em 2018, Ciro Gomes alcançou 12,47%. Eram candidaturas capazes de disputar uma parcela expressiva do eleitorado fora dos dois principais campos políticos.
Em 2022, Lula e Jair Bolsonaro concentraram 91,63% dos votos válidos. Em 2026, Lula e Flávio chegaram a 92,19%. O espaço eleitoral ocupado pelas outras opções tornou-se significativamente menor.
Isso permite levantar uma hipótese interessante: talvez a polarização esteja produzindo movimentos diferentes entre os brasileiros. Uma parte se mobiliza intensamente em torno dos principais candidatos, enquanto outra pode encontrar dificuldades para se identificar com qualquer um deles. Mas seria precipitado concluir que os milhões de ausentes pertencem a esse segundo grupo.
Uma pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (9) ajuda a entender por quê.
Entre os entrevistados que disseram não ter votado no primeiro turno, 19% afirmaram que estavam viajando ou fora de sua cidade, 18% mencionaram problemas de saúde e 13% apontaram desinteresse pela eleição, pelos candidatos ou ausência de uma opção satisfatória. Outros 9% citaram compromissos de trabalho, enquanto 7% disseram não possuir os documentos necessários.
O levantamento possui uma margem de erro elevada para esse grupo específico, de aproximadamente dez pontos percentuais, mas oferece uma advertência importante: nem todo brasileiro que deixa de votar está fazendo uma manifestação de protesto político. Existem obstáculos financeiros, profissionais, geográficos e de saúde que também interferem no comparecimento.
Há outro elemento que torna essa discussão ainda mais complexa. Em 2018, votos brancos e nulos representaram 8,79% dos votos depositados para presidente. Em 2022, essa proporção caiu para 4,41% e, neste ano, ficou em 4,77%. Portanto, enquanto a abstenção crescia, a parcela de eleitores que compareciam para votar em branco ou anular o voto diminuía em relação a 2018.
O contraste sugere que a insatisfação política não se manifesta de uma única maneira. Alguns eleitores podem deixar de comparecer, outros votam sem entusiasmo em um dos principais candidatos e há quem mantenha uma identificação política intensa, apesar da rejeição ao campo adversário.
Para Lula e Flávio, essa realidade acrescenta uma dimensão importante ao segundo turno. Além de conquistar eleitores das candidaturas derrotadas, será necessário considerar os milhões que não participaram da primeira votação. E não existe garantia de que esse contingente favoreça automaticamente um dos lados.
A discussão, entretanto, vai além de quem ocupará a Presidência pelos próximos quatro anos.
Uma democracia pode continuar realizando eleições competitivas e, simultaneamente, enfrentar dificuldades para oferecer alternativas capazes de despertar interesse e participação. Quando quase todos os votos válidos se concentram em duas candidaturas, a diversidade de opiniões da sociedade não desaparece. Ela apenas deixa de encontrar a mesma expressão nas urnas presidenciais.
Talvez a pergunta mais importante não seja se o Brasil está dividido entre Lula e Bolsonaro. Os resultados mostram que esses dois campos concentram a preferência de quem vota validamente.
O que ainda precisamos compreender é quanto dessa concentração representa identificação política genuína, quanto resulta da rejeição ao adversário e quantos brasileiros gostariam de encontrar uma opção diferente.
Porque existe uma diferença considerável entre um país que escolhe majoritariamente dois projetos políticos e outro em que parte da população sente que só existem duas escolhas possíveis. E os 33,4 milhões de ausentes, embora não expliquem sozinhos essa diferença, tornam impossível ignorá-la.