Mensagens extraídas pela Polícia Federal do aparelho celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelaram uma fotografia na qual o procurador-geral da República, Paulo Gonet, aparece sentado próximo ao empresário durante uma confraternização em Londres. No registro, Gonet segura um charuto e há copos de uísque dispostos sobre a mesa diante de ambos. As informações foram publicadas pelos jornalistas Eduardo Gonçalves e Thiago Bronzatto, do jornal O Globo.
O arquivo visual foi repassado a Vorcaro pelo advogado Ciro Soares, ex-defensor da instituição financeira, em 19 de junho de 2025. O envio continha o texto “PG me mandou”, expressão que, segundo as investigações, refere-se às iniciais do chefe do Ministério Público da União.
A Procuradoria-Geral da República atestou a autenticidade da imagem, mas comunicou que não comentaria seu teor. Interlocutores ligados a Gonet afirmaram que o encontro ocorreu em abril de 2024 e sustentaram que o registro não evidencia proximidade íntima entre as partes. Conforme a apuração, a presença simultânea na ocasião atesta apenas que ambos dividiram o mesmo espaço, sem configurar amizade, concessão de vantagens ou conduta ilícita.
Paulo Gonet declarou ter participado de uma única reunião presencial com Vorcaro, justamente em abril de 2024, durante um congresso jurídico que contava com diversas outras autoridades na capital britânica. O procurador-geral rejeitou qualquer vínculo de amizade com o ex-banqueiro e qualificou suspeitas sobre desvios de conduta como “leviandades”.
Os diálogos entre Soares e Vorcaro que mencionam o chefe da PGR vieram a público após determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que retirou o sigilo de relatório da PF contendo menções também ao ministro Alexandre de Moraes. O material foi remetido ao presidente da Corte, Edson Fachin, e chegou ao plenário antes da suspensão do julgamento provocada por pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Citado formalmente no relatório, Gonet defendeu a nulidade da apuração. A argumentação sustenta que o documento foi ordenado monocraticamente por Mendonça sem provocação do Ministério Público ou da autoridade policial, frisando que medidas investigativas voltadas a integrantes do STF exigem crivo do plenário do tribunal.
As trocas de mensagens citam ainda planos para uma segunda etapa do simpósio jurídico financiado pelo Banco Master em Londres, inicialmente prevista para 2025 e cancelada depois. Em um trecho repassado a Vorcaro, Soares atribui a Gonet a frase “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”, além da declaração “saudades dele”. No ano anterior, Vorcaro havia promovido uma degustação da mesma marca de uísque no George Club, na capital inglesa, com a participação de Gonet, Moraes e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.