Estudo divulgado nesta quinta mostra forte desejo de mudança entre eleitores de Cury, Renan Santos e Caiado, além de elevada insatisfação entre quem não votou. Os números criam um ambiente difícil para Lula, mas também mostram que Flávio Bolsonaro não recebe automaticamente esse eleitorado.
A nova pesquisa da Real Time Big Data ajuda a responder uma das perguntas mais importantes do segundo turno presidencial.
O que pensam agora os brasileiros que não escolheram nem Lula nem Flávio Bolsonaro no primeiro turno?
O instituto foi atrás justamente de quatro grupos: eleitores de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado, além daqueles que não compareceram às urnas.
Juntos, apenas Cury, Renan e Caiado receberam aproximadamente 8,7 milhões de votos no domingo. É quase quatro vezes a diferença de 2,2 milhões que separou Flávio de Lula no primeiro turno.
Não significa que esses votos estejam disponíveis como um pacote.
Mas significa que entender esse eleitor pode ser muito mais importante do que simplesmente acompanhar novas declarações de apoio político.
O primeiro recado é ruim para a continuidade
O dado mais forte do levantamento não está numa pergunta sobre candidatos.
Está na percepção sobre o país.
Entre os eleitores de Renan Santos, 84% desaprovam o governo Lula. Entre os de Ronaldo Caiado, são 78%. Mesmo entre os eleitores de Augusto Cury, grupo mais moderado dos três, a desaprovação chega a 56%.
Até entre quem não votou, 63% desaprovam o governo.
Quando a pergunta muda para a direção do Brasil, o problema continua.
Entre os eleitores de Renan, 74% acreditam que o país está no caminho errado. Entre os de Caiado, 68%. Entre os abstencionistas, novamente 74%. O eleitor de Cury é menos negativo, mas ainda apresenta 49% dizendo que o caminho está errado.
Isso produz uma conclusão difícil de ignorar.
Lula chega ao segundo turno precisando buscar votos justamente em grupos que, em sua maioria, estão insatisfeitos com o governo que ele representa.
Só que eles também não estão pedindo para destruir tudo
Aqui aparece uma das informações mais interessantes da pesquisa.
Quando os entrevistados são perguntados sobre o que o Brasil precisa nos próximos quatro anos, a resposta majoritária não é continuidade.
Mas também não é ruptura completa.
Entre os eleitores de Cury, 67% querem “mudanças importantes, preservando algumas coisas que funcionaram”. O número chega a 80% entre os de Renan, 81% entre os de Caiado e 76% entre os abstencionistas.
Já a ideia de uma mudança completa de rumo aparece com apenas 11%, 13%, 10% e 9%, respectivamente.
Esse talvez seja o retrato mais importante do estudo.
O eleitor analisado pela Real Time quer mudança.
Mas não necessariamente quer uma revolução política.
E isso cria uma disputa interessante para os dois candidatos.
Lula carrega o peso da continuidade em um ambiente que pede correções.
Flávio pode representar a mudança para parte desse público, mas precisa lidar com eleitores que não estão dizendo que querem simplesmente desmontar tudo que existe.
O eleitor de Caiado parece o terreno mais favorável a Flávio
Ronaldo Caiado já anunciou apoio a Flávio Bolsonaro.
E os dados mostram um eleitorado bastante compatível com uma candidatura de oposição ao governo.
Setenta e oito por cento desaprovam Lula. Sessenta e oito por cento dizem que o país está no caminho errado. Oitenta e um por cento querem mudanças importantes.
Além disso, esse é o grupo com maior disposição para comparecer novamente.
74% dizem que certamente votarão no segundo turno e outros 16% afirmam que provavelmente irão.
São 90% entre as duas categorias.
Mas há um detalhe importante.
Quando perguntados sobre o principal critério para escolher agora, 32% dos eleitores de Caiado dizem que querem o candidato que representa menor risco. Outros 30% dizem que querem impedir que o país continue no caminho atual.
Ou seja, o antipetismo está presente, mas não resolve sozinho a decisão.
Para esse eleitor, segurança sobre o futuro também pesa.
O eleitor de Renan já está praticamente fechado
O grupo de Renan Santos apresenta o ambiente mais duro contra o governo.
Além dos 84% de desaprovação a Lula, 74% enxergam o país no caminho errado.
Mas existe outro dado ainda mais importante: 77% afirmam que sua posição para o segundo turno já está totalmente definida. Apenas 13% aparecem como bastante ou totalmente indefinidos.
Renan decidiu não apoiar formalmente nenhum dos dois candidatos.
Isso talvez importe menos do que parece.
O eleitor dele apresenta sinais de decisão própria já muito cristalizada.
Também é um público profundamente desconfiado da própria disputa. Quando perguntado sobre o sentimento que mais pesa no segundo turno, 36% citam rejeição aos políticos que estão concorrendo.
Portanto, desaprovar Lula não significa automaticamente gostar de Flávio.
Essa distinção será importante até 25 de outubro.
Cury tem o eleitor mais valioso para disputar
Se existe um grupo do estudo onde a campanha ainda pode produzir movimento, é o eleitor de Augusto Cury.
Apenas 22% dizem estar totalmente definidos.
Outros 52% afirmam ter uma posição quase definida, mas admitem mudar. E 26% se consideram bastante ou totalmente indefinidos.
É também o eleitor menos hostil a Lula.
Quarenta e quatro por cento aprovam o atual governo, percentual muito superior ao encontrado entre Renan e Caiado.
E sua motivação é diferente.
Para 36%, o mais importante no segundo turno é escolher o candidato mais preparado para governar. Apenas 15% colocam como prioridade impedir que o país continue no caminho atual.
Cury ainda não declarou apoio a nenhum dos dois candidatos.
Por isso, sua eventual manifestação pode ganhar atenção. Mas a própria pesquisa mostra que seus eleitores são menos ideológicos e menos facilmente transferíveis por uma simples orientação partidária.
Debates, informações novas e a percepção de preparo podem ter peso maior nesse grupo.
E os 33 milhões que não foram votar?
Talvez aqui esteja a maior surpresa.
Depois de um primeiro turno com mais de 33 milhões de ausentes, surgiu imediatamente a tese de que conquistar o abstencionista poderia decidir a eleição.
A Real Time coloca bastante água nessa expectativa.
Entre os entrevistados que se abstiveram, somente 7% dizem que certamente votarão no segundo turno e outros 7% provavelmente irão.
No outro extremo, 38% provavelmente não votarão e 40% afirmam que certamente continuarão fora.
Ou seja, 78% demonstram tendência de nova ausência.
É um grupo insatisfeito, mas também desmobilizado.
Setenta e quatro por cento dizem que o país segue na direção errada e 63% desaprovam o governo.
Mesmo assim, essa insatisfação não está se convertendo automaticamente em vontade de votar.
Esse dado é importante porque mostra que a abstenção pode continuar sendo parte central da eleição, mas talvez menos como um gigantesco reservatório de novos votos e mais como uma disputa para impedir que eleitores já inclinados a determinado candidato fiquem novamente em casa.
Economia aparece por todos os lados
Outro eixo atravessa praticamente todos os grupos: a situação econômica.
Entre eleitores de Caiado, 80% classificam a economia como ruim ou péssima. Entre os de Renan, são 73%.
O problema aparece de maneiras diferentes na vida cotidiana.
Para 35% dos eleitores de Cury, o principal incômodo econômico é a perda do poder de compra. Entre os de Caiado, são 32%. Entre os eleitores de Renan, aluguel e moradia lideram com 36%. Entre os abstencionistas, juros e dívidas aparecem em primeiro lugar, com 31%.
Portanto, a discussão econômica do segundo turno não parece estar concentrada apenas em números de inflação, emprego ou PIB.
Ela está chegando pelo salário, pelo aluguel, pelas parcelas e pela capacidade de pagar as contas.
O que a Real Time realmente está dizendo
Essa não é uma pesquisa que permite afirmar quantos desses eleitores votarão em Lula ou em Flávio.
Ela não fez essa pergunta.
E, como os quatro grupos possuem exatamente 400 entrevistados cada, também seria incorreto pegar a média dos 1.600 e apresentá-la como se representasse proporcionalmente todo o eleitorado brasileiro.
O estudo serve para outra coisa.
Ele mostra o clima dentro dos grupos que estão fora dos dois grandes blocos do primeiro turno.
E esse clima tem três características muito claras.
Existe forte desejo de mudança.
Existe elevada insatisfação com o governo.
E existe uma resistência igualmente forte a transformar essa insatisfação em apoio automático a qualquer candidato.
Para Flávio Bolsonaro, isso significa que o ambiente entre Caiado e Renan parece mais receptivo à oposição, mas a palavra “mudança” não equivale necessariamente a um cheque em branco.
Para Lula, significa que buscar votos fora de sua base exige enfrentar uma percepção negativa sobre o próprio governo, e não apenas convencer o eleitor de que Flávio é uma alternativa pior.
E o eleitor de Cury aparece exatamente no meio dessa disputa.
Menos antipetista que os demais, mais aberto a reconsiderar sua posição e muito mais preocupado com preparo e risco do que com fidelidade partidária.
O primeiro turno mostrou quem chegou na frente. A Real Time começa a mostrar onde estão os votos que ainda podem se mover.
E, numa eleição separada por apenas 1,87 ponto percentual, compreender esses eleitores pode ser tão importante quanto medir Lula e Flávio diretamente.