Depois de passar o primeiro turno evitando declarar apoio público ao candidato brasileiro, Donald Trump mudou o tom. O presidente dos Estados Unidos classificou a liderança de Flávio Bolsonaro como uma “grande vitória” e “impressionante”. Ao mesmo tempo, fez uma ressalva que chama atenção: espera uma disputa muito acirrada contra Lula no dia 25.
Donald Trump finalmente falou sobre Flávio Bolsonaro.
E falou de uma maneira muito diferente da cautela que havia adotado durante os últimos dias da campanha brasileira.
Questionado nesta segunda-feira, 5 de outubro, sobre o resultado do primeiro turno, o presidente dos Estados Unidos classificou o desempenho de Flávio como uma “grande vitória”.
Trump ainda reforçou a avaliação dizendo que, apesar de apertado, o resultado havia sido “impressionante”.
Mas sua declaração teve uma segunda parte igualmente importante.
Para Trump, a eleição brasileira não terminou.
“Acho que será uma eleição muito acirrada. Será muito apertada. Acho que a eleição no Brasil será muito disputada”, afirmou ao ser questionado sobre o segundo turno.
A combinação das duas frases talvez seja mais relevante do que uma simples manifestação de apoio.
Trump comemorou o que Flávio conseguiu no domingo.
Mas não tratou o resultado como uma vitória antecipada sobre Lula.
Primeiro veio o silêncio
A mudança de postura fica mais evidente quando reconstruímos as últimas horas.
Antes da eleição, Trump vinha sendo pressionado a dizer se apoiaria diretamente Flávio Bolsonaro.
Na quinta-feira, afirmou apenas que acompanhava a eleição brasileira “de muito perto”, classificando o Brasil como um país muito importante e a disputa como uma eleição muito importante. Não indicou preferência naquele momento.
No domingo, depois de confirmada a liderança de Flávio, Trump voltou a falar sobre o Brasil.
Mas novamente não falou sobre Flávio.
Sua primeira reação foi destacar a rapidez da apuração brasileira. Trump chamou atenção para o fato de aproximadamente 125 milhões de brasileiros terem votado e o resultado ter sido conhecido ainda no mesmo dia, utilizando a comparação para voltar a criticar o processo de contagem de votos nos Estados Unidos.
Ou seja, durante as primeiras horas posteriores à eleição, o presidente americano comentou o Brasil sem comentar diretamente o candidato que mantém proximidade política com seu governo.
Isso mudou na segunda-feira.
Agora Trump fala em “grande vitória”
A declaração desta segunda é diferente porque, pela primeira vez depois das urnas, Trump entrou diretamente na interpretação política do resultado.
Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula terminou com 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%.
A distância foi de apenas 1,87 ponto percentual. Como nenhum dos dois alcançou a maioria absoluta dos votos válidos, ambos voltam às urnas em 25 de outubro.
É justamente essa combinação que aparece na fala de Trump.
Para ele, ficar na frente de um presidente que disputava a reeleição representou uma grande vitória política para Flávio.
Mas a diferença numérica continua pequena.
Daí o segundo pedaço da declaração.
Grande resultado no primeiro turno. Eleição apertada no segundo.
Trump não disse que Flávio já ganhou
Essa distinção é importante.
A expressão “grande vitória” pode produzir a impressão de que Trump estava falando da eleição presidencial como um todo.
Não estava.
Flávio venceu o primeiro turno em número de votos, mas não foi eleito presidente.
O próprio Trump reconheceu imediatamente que a disputa seguinte deverá ser muito apertada.
Na prática, o presidente americano fez uma leitura semelhante à que os próprios números permitem.
Flávio saiu politicamente fortalecido do domingo.
Mas 47,03% contra 45,16% não representa uma vantagem suficiente para considerar decidido um eleitorado de mais de 125 milhões de votos válidos.
Os dois candidatos entram agora em uma eleição diferente, com apenas dois nomes na urna.
A manifestação importa porque Trump vinha se segurando
Donald Trump não costuma esconder suas preferências políticas internacionais.
Seu governo já fez manifestações explícitas em eleições de outros países da América Latina e mantém relações próximas com governos conservadores da região.
No caso brasileiro, porém, sua atuação durante a reta final do primeiro turno foi mais contida.
Essa cautela tinha um contexto.
A relação entre Washington e Brasília atravessou momentos de forte tensão durante o governo Lula, envolvendo tarifas, sanções, decisões do Supremo Tribunal Federal, críticas ao governo americano e discussões sobre soberania brasileira.
Ao mesmo tempo, qualquer manifestação aberta de um presidente estrangeiro dentro de uma eleição brasileira pode ser utilizada politicamente pelo campo adversário como exemplo de interferência externa.
Trump parecia consciente desse problema.
Agora, com o primeiro turno encerrado, decidiu avançar um passo.
Não pediu explicitamente que brasileiros votassem em Flávio.
Mas deixou claro que recebeu positivamente sua primeira colocação.
A relação entre Trump e Flávio não começou ontem
A declaração também não aparece no vazio.
Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca em maio e se reuniu com Trump durante a campanha.
Os dois campos possuem convergências em assuntos como segurança pública, combate ao crime organizado e uma política externa mais próxima entre Brasil e Estados Unidos.
Também já discutiram um dos temas mais estratégicos da relação bilateral atual: minerais críticos e terras raras brasileiras.
Por isso, o resultado de domingo possui interesse concreto para Washington.
Uma eventual Presidência de Flávio poderia produzir uma relação muito diferente daquela mantida atualmente entre Trump e Lula.
Isso não significa que todos os interesses brasileiros e americanos passariam automaticamente a coincidir.
Comércio, tarifas, agronegócio, indústria e recursos minerais continuam envolvendo disputas econômicas mesmo entre governos politicamente próximos.
Mas a interlocução política seria outra.
Trump também percebeu que não existe espaço para relaxamento
Talvez essa seja a parte mais curiosa de sua fala.
Trump poderia simplesmente ter comemorado.
Preferiu acrescentar uma advertência.
A eleição será apertada.
Essa avaliação encontra respaldo no próprio resultado oficial. Apenas 2,22 milhões de votos separaram Flávio e Lula no primeiro turno.
Além disso, dezenas de milhões de eleitores não compareceram, enquanto quase 8% dos votos válidos foram destinados aos demais candidatos.
Esse eleitorado agora passa a ser disputado novamente.
Portanto, o primeiro turno entregou vantagem política a Flávio, mas não eliminou a competitividade da disputa.
Trump parece ter entendido exatamente essa diferença.
A manifestação americana agora entra na campanha brasileira
Resta saber como as duas campanhas utilizarão a declaração.
Para Flávio, a fala pode reforçar a narrativa internacional de que seu resultado foi visto como uma vitória política importante por governos e lideranças conservadoras.
Javier Milei, na Argentina, e Benjamin Netanyahu, em Israel, já haviam celebrado publicamente seu desempenho. Netanyahu desejou inclusive sucesso a Flávio na etapa final da eleição.
Para Lula, a aproximação entre Trump e Flávio oferece material para retomar um tema explorado durante o primeiro turno: soberania nacional e o grau de influência que o governo americano pretende exercer sobre Brasília.
Como isso será recebido pelo eleitor brasileiro não pode ser determinado apenas pela repercussão internacional.
Mas a política externa acaba de entrar novamente na campanha.
De “estou observando” para “grande vitória”
Em poucos dias, a linguagem de Trump percorreu três etapas.
Antes da votação, disse que acompanhava o Brasil “muito de perto”.
Depois das urnas, elogiou a rapidez da apuração sem mencionar Flávio.
Na segunda-feira, finalmente colocou o nome e o resultado do candidato no centro de sua manifestação.
Chamou o desempenho de “grande vitória”.
Disse que foi “impressionante”.
E imediatamente acrescentou:
o segundo turno será muito disputado.
A fala é ao mesmo tempo celebração e cautela.
Trump deixou claro de que lado está sua simpatia política.
Mas também deixou claro que, olhando para os números brasileiros, ainda enxerga uma eleição em aberto.
E talvez essa seja justamente a principal atualização em relação às primeiras horas depois das urnas.
Washington começou a falar mais claramente sobre Flávio.
Só não começou a tratar Flávio como presidente eleito.