A direita conquistou uma maioria inédita na Casa responsável por processar ministros do Supremo. Ainda faltam votos para um afastamento, mas a eleição mudou o equilíbrio de forças, colocou a Presidência do Senado no centro da disputa e transformou uma ameaça política recorrente em uma possibilidade que Brasília passou a levar a sério.
Durante anos, pedir impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal virou quase um ritual dentro de parte da direita brasileira.
Protocolava-se o pedido, fazia-se discurso, cobrava-se o presidente do Senado e, normalmente, a história terminava ali.
A eleição de domingo mudou essa equação.
O PL chegará a 2027 com 28 dos 81 senadores, depois de eleger 19 nomes neste domingo. Dependendo da metodologia utilizada para classificar os demais partidos, levantamentos apontam aproximadamente 45 senadores alinhados ao campo de oposição bolsonarista ou até 49 parlamentares situados politicamente à direita. É uma maioria suficiente para controlar boa parte da agenda legislativa, mas ainda inferior aos 54 votos exigidos para um impeachment de ministro do STF.
A diferença parece pequena no papel.
Politicamente, não é.
Mas também está muito longe de ser impossível de ser construída.
E é por isso que o resultado de 4 de outubro começou a ser observado com tanta atenção dentro do Supremo.
O primeiro erro é achar que toda a direita votará igual
Ter 49 senadores classificados como de direita não significa possuir 49 votos garantidos para afastar Alexandre de Moraes, Flávio Dino ou qualquer outro ministro.
Senador não é deputado com mandato mais longo. São apenas 81 integrantes, cada um com enorme peso individual, relações próprias com governos estaduais, Judiciário, setores econômicos e interesses regionais. MDB, União Brasil, PP, PSD e Republicanos não funcionam automaticamente como extensões do PL.
Isso ajuda a explicar por que levantamentos diferentes chegam a números diferentes quando tentam medir o tamanho da oposição.
Mas existe um dado político difícil de ignorar: a relação com o Supremo esteve explicitamente dentro da campanha para o Senado em 2026.
Antes mesmo da eleição, levantamento da Folha entre candidatos competitivos encontrou dezenas deles declarando apoio ou admitindo apoiar processos contra integrantes do STF. No dia seguinte à votação, Edson Fachin fez um discurso no qual afirmou que as conjunturas passam, mas o Supremo permanece. A declaração ocorreu justamente quando Brasília ainda calculava quantos dos novos senadores haviam feito campanha defendendo impeachment de ministros.
Portanto, não se trata simplesmente de colocar uma etiqueta ideológica sobre a nova composição.
Existe uma bancada que chega ao Senado tendo transformado o comportamento do Supremo em tema eleitoral.
Isso é novo em dimensão.
Mas existe uma trava chamada 54
Aqui aparece a parte mais importante da história.
A Constituição determina que cabe exclusivamente ao Senado processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. A Lei 1.079 de 1950 define entre esses crimes situações como exercer atividade político-partidária, julgar processo em que o ministro seja legalmente suspeito, agir de maneira incompatível com a honra e o decoro da função ou demonstrar grave negligência no cumprimento dos deveres do cargo.
Só que o procedimento ficou ainda mais difícil depois de uma intervenção do próprio Supremo.
Em dezembro de 2025, Gilmar Mendes concedeu uma decisão cautelar alterando pontos da aplicação da Lei do Impeachment aos ministros do STF. Entre as mudanças, estabeleceu o quórum de dois terços dos senadores para a abertura do processo e afirmou que o conteúdo de decisões judiciais, por si só, não pode servir como fundamento para impeachment.
Dias depois, Gilmar recuou parcialmente em outro ponto da decisão e retirou a exclusividade que havia dado à Procuradoria-Geral da República para apresentar acusações. A exigência relacionada ao quórum, entretanto, permaneceu. O processo ainda aguarda uma definição definitiva do plenário.
Traduzindo para a política: não basta mais encontrar uma maioria simples disposta a começar a conversa.
A conta relevante é 54.
Se considerarmos a classificação que coloca 49 senadores no campo da direita, faltariam cinco.
Cinco senadores.
É justamente essa distância curta que transforma 2027 em algo completamente diferente dos anos anteriores.
Antes dos 54, existe outro personagem: o presidente do Senado
Talvez essa seja a peça mais subestimada desse tabuleiro.
Pedidos contra ministros já chegaram dezenas de vezes ao Senado sem avançar. A própria instituição informa que nunca houve aprovação de impeachment de um ministro do STF. Depois de protocolada, a denúncia passa pela estrutura do Senado e depende do comando político da Casa para ganhar andamento.
Hoje essa cadeira pertence a Davi Alcolumbre.
Ele resistiu à abertura de processos contra ministros e passou a ser criticado por parlamentares que defendem uma postura mais dura contra o Supremo. Só que a eleição de domingo enfraqueceu a posição relativa do atual comando da Casa e fortaleceu o PL justamente no momento em que começa a disputa pela Presidência do Senado em fevereiro de 2027.
Rogério Marinho aparece entre os nomes defendidos pelo PL, enquanto Tereza Cristina também circula nas articulações. Alcolumbre, por sua vez, trabalha para permanecer no comando.
Essa eleição pode ser tão importante para a relação entre Senado e STF quanto o próprio número de parlamentares conservadores eleitos.
Porque uma coisa é possuir senadores favoráveis ao impeachment.
Outra é ter um presidente do Senado disposto a colocar a máquina institucional para funcionar.
E o Supremo percebeu
A resposta curta para a pergunta sobre se os ministros estão atentos é: sim.
Reportagens publicadas desde domingo mostram integrantes do tribunal fazendo exatamente a mesma conta que os senadores.
Um ministro ouvido pelo UOL classificou reservadamente a nova composição como “o pior cenário possível”. Segundo a reportagem, integrantes do STF discutem não somente o risco de impeachment, mas também propostas legislativas capazes de retirar ou reduzir competências atualmente exercidas pela Corte.
O JOTA relata movimento semelhante. Ministros começaram a contabilizar votos, avaliar possíveis rotas de diálogo com parlamentares e discutir como reagir à nova configuração do Congresso. A Folha também informou que uma ala do tribunal considera buscar aproximação com setores menos confrontacionais do PL.
Isso talvez seja tão importante quanto qualquer processo formal.
O equilíbrio entre instituições também funciona pela expectativa do que a outra instituição pode fazer.
Um Supremo diante de um Senado incapaz de produzir 30 votos contra um ministro vive uma realidade.
Um Supremo diante de um Senado no qual uma coalizão pode começar a conversa perto dos 50 vive outra completamente diferente.
Impeachment talvez nem seja a única pressão
Existe ainda uma característica da nova composição que merece atenção.
Os 49 senadores classificados pelo levantamento do Poder360 como pertencentes à direita representam exatamente três quintos do Senado. Esse é o número constitucional necessário para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição na Casa, desde que todos votem juntos e que a proposta seja aprovada em dois turnos. Uma mudança constitucional ainda precisaria também de 308 deputados na Câmara, igualmente em dois turnos.
Isso abre um campo de disputa muito mais amplo que o impeachment.
Competências do Supremo, decisões individuais de ministros, foro por prerrogativa de função, regras para julgamentos e outros temas relacionados ao desenho do Judiciário podem entrar no debate legislativo.
Há limites constitucionais para essas mudanças e qualquer proposta concreta precisaria ser analisada individualmente. Mas politicamente o Senado agora possui força para iniciar e impulsionar discussões que, numa composição diferente, poderiam morrer antes mesmo de ganhar musculatura.
Ou seja, o poder da nova maioria não estará apenas na possibilidade de retirar um ministro.
Também estará na capacidade de obrigar o Supremo a discutir os limites de seu próprio espaço institucional.
Alexandre de Moraes estará no centro dessa disputa
Entre todos os ministros, Alexandre de Moraes é o nome mais frequentemente citado pelos parlamentares que defendem impeachment.
Isso tem relação direta com sua atuação nos processos envolvendo Jair Bolsonaro, os atos de 8 de Janeiro, plataformas digitais e investigações que atingiram integrantes do campo bolsonarista. Nos últimos meses, as controvérsias relacionadas ao caso Banco Master acrescentaram novos elementos ao debate político sobre integrantes da Corte.
Mas existe uma diferença fundamental entre crítica política e crime de responsabilidade.
Para um impeachment prosperar juridicamente, não basta que senadores discordem de decisões de Moraes ou de qualquer outro ministro. Será necessário enquadrar uma conduta nas hipóteses legais aplicáveis e superar as barreiras jurídicas estabelecidas para o processo.
É exatamente nesse ponto que provavelmente estará a grande batalha.
De um lado, senadores tentando demonstrar que determinadas condutas ultrapassaram o exercício jurisdicional.
Do outro, ministros argumentando que o impeachment não pode ser utilizado como instrumento para punir magistrados pelo conteúdo de suas decisões.
Essa fronteira tende a ser muito mais importante do que os discursos feitos durante a campanha.
Então impeachment de ministro pode realmente acontecer?
Hoje, dizer que está garantido seria transformar possibilidade política em fato.
Mas dizer que continua sendo apenas barulho eleitoral também já não descreve corretamente o novo Senado.
Pela primeira vez em muito tempo, existe simultaneamente uma bancada numerosa que fez campanha enfrentando o Supremo, um PL com 28 senadores, uma maioria ideologicamente situada à direita, uma eleição para a Presidência da Casa em disputa e um tribunal que, segundo diferentes relatos de bastidor, começou a calcular seu próprio grau de exposição.
Ainda faltam votos.
Ainda existe um caminho jurídico difícil.
Ainda existe uma Presidência do Senado capaz de facilitar ou bloquear movimentos.
Mas a distância entre pedir um impeachment e conseguir colocar o assunto realmente dentro da engrenagem do Senado diminuiu.
E talvez esse seja o maior recado das urnas para o Supremo.
O Senado que toma posse em fevereiro de 2027 não será apenas mais conservador.
Será uma Casa na qual uma parcela expressiva dos novos integrantes chegou a Brasília prometendo discutir justamente o poder de quem está do outro lado da Praça dos Três Poderes.
O Supremo percebeu.
Agora, os dois lados começarão a descobrir até onde cada um está disposto a ir.