Áudios revelados pela Veja apontam supostos pagamentos ao entorno petista para facilitar o acesso do Banco Master a fundos de pensão. A PGR rejeitou a delação por falta de provas, enquanto documentos já revelaram repasses milionários para um filme sobre Jair Bolsonaro. A 16 dias do segundo turno, o escândalo volta a alcançar os dois lados da disputa presidencial.
Daniel Vorcaro voltou ao centro da eleição presidencial nesta sexta-feira (9), desta vez com acusações que atingem o entorno de Lula. Uma reportagem da revista Veja revelou áudios e documentos nos quais o ex-controlador do Banco Master afirma ter destinado aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao financiamento de um documentário sobre o presidente, além de valores adicionais ao Instituto Lula, comandado por Paulo Okamotto. Os pagamentos, segundo ele, fariam parte de um acordo para facilitar negócios bilionários com fundos de pensão de funcionários de empresas estatais.
A revelação chega em um momento particularmente sensível. Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro e vinha utilizando as relações do adversário com Vorcaro como argumento político. Agora, o mesmo banqueiro apresenta acusações contra figuras próximas ao PT, ampliando um escândalo que já havia demonstrado sua capacidade de atravessar partidos e alcançar diferentes centros de poder.
Segundo Vorcaro, a história começou na Bahia, quando seu então sócio e executivo do Master, Augusto Lima, procurou interlocutores do PT para abrir caminho até os fundos de pensão. O senador Jaques Wagner teria participado da aproximação com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro petista, que passou a integrar as negociações.
O acordo descrito pelo banqueiro teria duas etapas. A primeira envolveria aproximadamente R$ 30 milhões em espécie destinados ao documentário Lula, dirigido por Oliver Stone e Rob Wilson, além de pagamentos ao Instituto Lula. A segunda seria uma comissão de 10% sobre os recursos que o banco conseguisse captar junto às entidades previdenciárias.
A dimensão dessa negociação impressiona. Vorcaro esperava movimentar cerca de R$ 9 bilhões para o Master, enquanto as supostas comissões poderiam alcançar R$ 1 bilhão. Trata-se de uma projeção apresentada em seu relato, não de valores comprovadamente movimentados nessas operações.
O alvo eram instituições como Previ, dos funcionários do Banco do Brasil; Petros, da Petrobras; Postalis, dos Correios; e fundos relacionados à Caixa. Essas entidades administram recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e benefícios de trabalhadores que contribuíram durante décadas para assegurar sua renda futura. Por isso, a possibilidade de investimentos de risco envolvendo esse patrimônio é uma questão que ultrapassa qualquer disputa partidária.
Os relatos de Vorcaro também alcançam Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, e seu secretário-executivo, Olavo Noleto. Mensagens obtidas pela investigação mostram contatos do banqueiro com um operador identificado como Júlio, que teria facilitado reuniões com dirigentes dos fundos.
Em 29 de abril de 2024, o Master passou a constar, segundo a reportagem, da relação de instituições habilitadas para determinadas operações previdenciárias. Na mesma data, Júlio teria cobrado R$ 500 mil de Vorcaro. A coincidência temporal exige esclarecimento, mas não basta para demonstrar que a inclusão administrativa ocorreu mediante pagamento ilícito.
As conversas revelam ainda a insistência do banqueiro em obter investimentos. Em julho de 2024, porém, reportagens sobre uma tentativa de aplicação de R$ 500 milhões da Caixa em letras financeiras do Master provocaram repercussão negativa. Segundo Vorcaro, dirigentes de fundos decidiram recuar após a exposição pública do caso. As operações bilionárias pretendidas não se concretizaram.
O banqueiro afirma, entretanto, que conseguiu realizar negócios com fundos municipais e que esses contatos teriam produzido outros R$ 6 milhões em pagamentos ilícitos. Essa acusação também depende de comprovação independente.
Há uma diferença fundamental entre as mensagens que registram reuniões e negociações e a afirmação de que pagamentos ilegais foram efetivamente realizados. Foi justamente essa insuficiência de elementos que levou a Procuradoria-Geral da República a não aceitar o material apresentado em junho, durante a segunda tentativa de colaboração premiada de Vorcaro.
A Polícia Federal também informou que não encontrou elementos mínimos suficientes para dar credibilidade à proposta. Vorcaro já teve duas tentativas de delação frustradas e, segundo a Veja, trabalha em uma terceira. Sua defesa afirma possuir registros de mensagens, retiradas de dinheiro, deslocamentos de operadores e outros documentos que poderiam sustentar o relato, mas essas provas não foram demonstradas publicamente de maneira conclusiva.
O contexto importa. Vorcaro está preso e procura negociar sua situação judicial. Isso não significa que suas declarações sejam necessariamente falsas, mas torna indispensável verificar cada acusação por elementos independentes de sua palavra.
Existe ainda uma contradição envolvendo o documentário. Em maio, Oliver Stone e os responsáveis pelo filme negaram categoricamente ter recebido financiamento de Vorcaro. Lula também afirmou que jamais pediu ou recebeu vantagens financeiras do banqueiro, nem autorizou terceiros a recebê-las em seu nome. Padilha e Noleto negaram envolvimento.
O grupo jurídico Prerrogativas, próximo ao governo, anunciou que solicitará investigação sobre informações de que Vorcaro teria sido incentivado a apresentar acusações contra Lula em troca de possíveis benefícios judiciais. Essa suspeita, assim como as acusações do banqueiro, ainda precisa ser comprovada.
Mas a história tem outro filme, e é impossível compreender a dimensão política do episódio sem falar dele.
Em maio, o Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro participou de negociações com Vorcaro para financiar Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O valor total negociado teria chegado a US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época. Desse montante, a investigação jornalística identificou ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, em pagamentos documentados entre fevereiro e maio de 2025.
Planilhas, mensagens e comprovantes bancários apresentados pelo Intercept indicam transferências e cobranças relacionadas ao projeto. Flávio aparece nas conversas tratando diretamente com Vorcaro sobre os recursos. Ele sustenta que se tratava de financiamento privado e nega irregularidades.
Em um dos áudios agora divulgados pela Veja, o próprio Vorcaro procura diferenciar os dois episódios. Afirma que os recursos destinados ao filme sobre Lula teriam sido pagos irregularmente, enquanto os valores relacionados ao projeto sobre Bolsonaro seriam um patrocínio convencional.
Essa distinção feita pelo banqueiro não encerra a discussão. Patrocínios privados podem ser legítimos, mas a natureza jurídica dos pagamentos, seus destinatários e eventuais contrapartidas precisam ser examinados. Também não se pode tratar como provas equivalentes uma acusação de entrega de dinheiro em espécie ainda não demonstrada e transferências que uma investigação jornalística afirma ter documentado.
O efeito político das revelações é imediato. Lula, que vinha cobrando esclarecimentos sobre as relações entre o Master e a família Bolsonaro, agora precisa responder a acusações envolvendo pessoas de seu próprio círculo. Flávio, por sua vez, continua diante de questionamentos sobre o dinheiro destinado à produção cinematográfica ligada ao pai.
O escândalo expõe uma característica especialmente preocupante das relações entre dinheiro e poder no Brasil: a facilidade com que grandes interesses financeiros conseguem transitar entre diferentes grupos políticos, independentemente de suas posições ideológicas.
A questão mais importante não é saber qual candidatura conseguirá utilizar melhor as revelações de Vorcaro nos próximos 16 dias. É descobrir se os investigadores serão capazes de rastrear o dinheiro, identificar seus destinatários e esclarecer quais negócios foram efetivamente realizados, quais ficaram apenas na intenção e quais envolveram ilegalidades.
Até agora, a acusação dos R$ 30 milhões permanece sem comprovação independente suficiente. Os repasses associados a Dark Horse possuem documentação divulgada, mas sua regularidade e finalidade continuam sujeitas à investigação.
Com o Banco Master liquidado e seu antigo controlador tentando negociar uma delação, o caso está longe de terminar. Sua história já mostrou que o banqueiro construiu relações muito além de uma única corrente política.
E talvez essa seja a questão que mais merece atenção: não apenas a proximidade de Vorcaro com determinados políticos, mas o que cada um fez, ou deixou que fosse feito, quando os interesses do banqueiro encontraram as portas do poder.