Eduardo já quer o Itamaraty e pode criar a primeira crise de um governo Flávio que ainda nem existe

Política Real
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Com mandado de prisão expedido por Alexandre de Moraes, ex-deputado articula espaço na diplomacia brasileira, ameaça mudanças no Itamaraty e aposta no afastamento de ministros do STF. Enquanto Flávio tenta ampliar alianças e conquistar eleitores de centro, o irmão antecipa disputas que podem complicar sua estratégia.

O primeiro turno terminou há apenas cinco dias, o segundo sequer começou oficialmente nas ruas e Eduardo Bolsonaro já está pensando em como comandar a política externa brasileira. O ex-deputado, que vive nos Estados Unidos desde março de 2025, movimenta-se nos bastidores para assumir o Ministério das Relações Exteriores em um eventual governo do irmão, Flávio Bolsonaro. A articulação acontece justamente quando ele acaba de receber uma ordem de prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A situação possui uma contradição difícil de ignorar. Eduardo pretende assumir o comando da diplomacia de um país ao qual não pode retornar livremente sem enfrentar as consequências de uma condenação criminal. Na quinta-feira (8), Moraes determinou a expedição de seu mandado de prisão e o cancelamento dos passaportes brasileiros, após o trânsito em julgado da sentença de quatro anos e dois meses por coação no curso do processo.

A condenação decorre de sua atuação junto ao governo de Donald Trump para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento de Jair Bolsonaro. O STF concluiu que Eduardo buscou interferir no funcionamento da Justiça por meio de sanções estrangeiras. O ex-deputado rejeita essa interpretação, considera a decisão uma perseguição política e afirma que a legislação americana o protege enquanto permanece nos Estados Unidos.

Mesmo diante desse cenário, a movimentação por um cargo de primeiro escalão não ficou apenas nas conversas familiares. Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, Eduardo já começou a mapear diplomatas do Itamaraty, procurando identificar quem ocupa posições estratégicas e como funciona a estrutura interna do ministério. A interlocutores, teria manifestado interesse em assumir a chancelaria ou, alternativamente, a Embaixada do Brasil em Washington.

Antes mesmo do primeiro turno, ele havia publicado vídeos antecipando mudanças que gostaria de promover. Falou em uma “faxina” no Itamaraty, criticou diplomatas que acusa de terem prejudicado o governo de seu pai e mencionou a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, além da adesão ao Escudo das Américas, iniciativa de segurança promovida por Trump.

Há, entretanto, uma distância considerável entre manter relações próximas com políticos americanos e conduzir a diplomacia de um país com os interesses e a complexidade econômica do Brasil.

Eduardo possui interlocução com setores importantes do governo Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio. Também presidiu a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, experiência que lhe proporcionou contatos internacionais. Seu histórico, porém, inclui conflitos públicos com a China, país que ocupa uma posição central no comércio exterior brasileiro.

Em 2020, suas declarações sobre a pandemia e acusações envolvendo a tecnologia 5G chinesa provocaram reações oficiais da embaixada de Pequim. A representação diplomática chegou a advertir que a postura do então deputado poderia prejudicar as relações bilaterais.

O problema não é simplesmente ideológico. Entre janeiro e agosto de 2026, a China respondeu por aproximadamente 31% das exportações brasileiras, enquanto os Estados Unidos representaram menos de 10%. São mercados que exigem relações estáveis, independentemente das preferências políticas de quem estiver no Palácio do Planalto.

O próprio Flávio parece compreender essa necessidade. Na quinta-feira, diante de governadores aliados, afirmou que pretende adotar uma política externa pragmática, sem escolher entre Estados Unidos e China, priorizando os interesses econômicos brasileiros.

O entorno de Eduardo também sustenta que sua proposta preservaria boas relações comerciais com Pequim e transformaria o Itamaraty em uma estrutura mais voltada à geração de negócios. Mas o histórico de confrontos com autoridades chinesas ajuda a explicar por que sua possível nomeação encontra resistência dentro da própria campanha.

Uma ala mais moderada defende a escolha de profissionais com maior experiência diplomática, como Marcos Troyjo ou Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio. A senadora Tereza Cristina também passou a ser considerada uma alternativa, especialmente pela relação que construiu com o agronegócio e com autoridades chinesas quando comandou o Ministério da Agricultura.

E aqui aparece o problema político mais imediato.

Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula e procura utilizar as primeiras semanas do segundo turno para ampliar sua base. Recebeu apoios de antigos adversários, reuniu governadores, aproximou-se de partidos de centro e tenta construir uma imagem mais pragmática do que aquela associada ao governo de seu pai.

A movimentação de Eduardo introduz uma discussão diferente justamente nesse momento. Em vez de concentrar o debate nas propostas econômicas, na segurança pública ou nas alianças que poderão sustentar um futuro governo, o candidato passa a enfrentar perguntas sobre uma eventual nomeação familiar, conflitos com o STF e o rumo que daria às relações internacionais.

O embate com Alexandre de Moraes acrescenta outra dimensão à história. Depois da ordem de prisão contra Eduardo, Flávio afirmou que a decisão “não vai dar em nada” e voltou a defender o impeachment do ministro, citando o fortalecimento dos partidos aliados no Senado. A eventual destituição, entretanto, exige 54 votos, além do cumprimento de um procedimento constitucional que não depende exclusivamente da vontade de um presidente.

O governo ainda não existe, a eleição permanece competitiva e já se discute quem ocupará o Itamaraty e quais ministros do Supremo poderão ser afastados.

É justamente essa antecipação que merece atenção. A reorganização da direita depois do primeiro turno envolve não apenas a família Bolsonaro, mas também governadores, partidos e setores econômicos com prioridades diferentes. Uma campanha que procura demonstrar capacidade de diálogo terá de administrar essas divergências sem presumir que todas estarão resolvidas por uma eventual vitória eleitoral.

Eduardo tem legitimidade para defender suas propostas e participar do debate público, assim como Flávio tem autonomia para escolher seus ministros caso seja eleito. Mas a diferença entre um compromisso de campanha e a distribuição antecipada de cargos importa, principalmente quando o interessado enfrenta obstáculos judiciais tão relevantes.

O episódio revela uma das questões mais delicadas para Flávio neste segundo turno: como conciliar a expectativa de mudança que procura representar com as demandas políticas e pessoais do núcleo familiar que sustenta sua candidatura?

Ao apresentar-se como alguém capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade, o senador assumiu uma tarefa que exige mais do que conquistar apoios. Terá também de demonstrar como pretende administrar os interesses de seus próprios aliados.

Eduardo já parece disposto a discutir o que faria no poder. O que as urnas ainda não decidiram é se haverá um governo no qual ele possa exercer alguma dessas funções. E colocar essa discussão no centro da campanha antes de 25 de outubro significa antecipar conflitos que poderiam esperar, justamente quando os dois candidatos ainda precisam convencer os brasileiros sobre o futuro que pretendem oferecer ao país.

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