Pequim quer controlar a exportação de 40 tecnologias estratégicas, incluindo inteligência artificial e semicondutores. Movimento amplia a rivalidade com Washington e coloca minerais brasileiros entre os principais interesses das duas potências.
A disputa entre Estados Unidos e China entrou em uma nova fase nesta sexta-feira (16). O governo chinês anunciou uma proposta para restringir ou proibir a exportação de 40 tecnologias estratégicas, envolvendo inteligência artificial, semicondutores, energia solar e biomedicina. A medida representa mais um capítulo da competição entre as duas maiores economias do planeta pelo controle das tecnologias que deverão sustentar a indústria nas próximas décadas.
O anúncio foi feito pelos ministérios do Comércio e da Ciência e Tecnologia da China. Das 40 tecnologias incluídas na proposta, 23 estão diretamente relacionadas à inteligência artificial, abrangendo modelos avançados, agentes capazes de executar tarefas, sistemas de computação de grande escala e tecnologias utilizadas no desenvolvimento de chips.
Pequim justifica a iniciativa como uma medida de segurança nacional, destinada a impedir a transferência de conhecimentos sensíveis e o uso indevido de sistemas que possam comprometer infraestruturas estratégicas.
A proposta ainda não está integralmente em vigor. O governo abriu uma consulta pública até 15 de novembro, embora determinadas exigências provisórias de registro já tenham sido anunciadas.
O detalhe mais importante está no que a China pretende controlar. As restrições não significam que aplicativos chineses de inteligência artificial deixarão automaticamente de funcionar em outros países. O foco está principalmente na transferência de tecnologias, no licenciamento de sistemas e na instalação de determinadas capacidades avançadas fora do território chinês.
Isso permite que empresas como DeepSeek e Alibaba continuem oferecendo serviços internacionais, ao mesmo tempo em que o governo mantém maior fiscalização sobre tecnologias consideradas estratégicas.
A decisão ocorre depois de anos de restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de semicondutores avançados e equipamentos de fabricação de chips para a China. Washington argumenta que essas tecnologias podem ampliar capacidades militares e comprometer sua segurança nacional.
Agora, Pequim procura estabelecer seus próprios limites. O resultado é um mercado internacional cada vez mais dividido por interesses políticos, comerciais e militares.
E é nesse ponto que o Brasil entra na disputa.
O país possui reservas expressivas de minerais críticos e terras raras, elementos fundamentais para a fabricação de equipamentos eletrônicos, motores elétricos, turbinas eólicas e tecnologias militares. São recursos cada vez mais disputados porque sua disponibilidade influencia a capacidade industrial de países e empresas.
Os Estados Unidos buscam reduzir sua dependência da China no fornecimento e processamento desses materiais. Para isso, passaram a considerar o Brasil um parceiro importante na diversificação das cadeias produtivas.
Em setembro, Brasília e Washington criaram um grupo de trabalho para negociar questões comerciais, incluindo tarifas e acesso a minerais estratégicos brasileiros.
As negociações ocorrem em meio a divergências diplomáticas e comerciais entre os dois governos. O presidente norte-americano Donald Trump adotou medidas tarifárias que atingiram produtos brasileiros e manteve posições críticas em relação ao processo judicial contra Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, a China permanece como um parceiro comercial fundamental do Brasil, especialmente nas exportações de commodities agrícolas e minerais.
Para o governo brasileiro, a questão não se resume a escolher entre Washington e Pequim. O desafio está em negociar com os dois países sem comprometer sua capacidade de desenvolver indústrias próprias.
O Ministério de Minas e Energia iniciou neste ano estudos para uma Estratégia Nacional de Terras Raras. A intenção declarada é ampliar investimentos, desenvolver tecnologias de processamento e agregar valor aos recursos minerais extraídos no território nacional.
Essa distinção é decisiva. Possuir reservas minerais não significa dominar as etapas industriais necessárias para transformá-las em produtos de alto valor tecnológico. A separação, o refino e a fabricação de componentes exigem conhecimento especializado, infraestrutura e investimentos de longo prazo.
A nova proposta chinesa não impõe, por si só, restrições às exportações brasileiras de minerais. Entretanto, evidencia como o acesso às tecnologias necessárias para processar matérias-primas também passou a integrar a disputa geopolítica.
Para o Brasil, isso amplia tanto as oportunidades de atrair investimentos quanto os riscos de dependência externa.
A eleição presidencial de 25 de outubro acrescenta outra variável à equação. Lula defende uma política externa baseada no multilateralismo e na preservação da autonomia brasileira. Flávio Bolsonaro sinaliza maior aproximação diplomática com os Estados Unidos e com o governo Trump.
Independentemente do próximo governo, as negociações sobre tarifas, minerais e investimentos continuarão tendo consequências para a indústria brasileira.
A disputa entre China e Estados Unidos deixou de envolver apenas quem vende mais produtos. Agora, envolve quem desenvolve a tecnologia, quem controla seu acesso e quem possui os recursos necessários para produzi-la.
E o Brasil, com seu patrimônio mineral e seu peso comercial, terá de definir como participar dessa transformação sem permanecer apenas na posição de fornecedor de matérias-primas.