Um levantamento realizado pelo g1 com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que pelo menos 71 mil eleitores que votaram em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não escolheram Fernando Haddad (PT) para o governo estadual no primeiro turno das eleições, realizado em um domingo (4). A análise abrangeu 66 cidades da região de Ribeirão Preto e Franca.
O fenômeno também ocorreu no campo oposto: o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) registrou 86.888 votos a mais do que Flávio Bolsonaro (PL), o candidato à Presidência que liderou a votação na mesma área geográfica. Ambas as variações foram identificadas em todos os 66 municípios examinados.
Na somatória dessas cidades, Lula alcançou 449.388 votos, enquanto Haddad obteve 377.949. Já Tarcísio contabilizou 862.636 votos, contra 775.748 de Flávio Bolsonaro. Como a votação é secreta e os pleitos são apurados de forma individualizada, não é viável cravar quantos votaram simultaneamente em Lula e em Tarcísio, uma vez que quem não votou em Haddad pode ter escolhido outros nomes, anulado ou votado em branco.
Personalismo e alianças municipais
De acordo com a avaliação do cientista político João Augusto do Carmo, o resultado se relaciona com a força da imagem de cada concorrente e com a atuação dos prefeitos. “O eleitor brasileiro vota em pessoas, em identidades de pessoas e não em identidades de partidos ou ideias”, afirma o especialista.
Carmo apontou que a história política de Lula pesa mais do que a de Haddad junto ao eleitorado. “O Lula ajudou muito mais o Haddad nessa eleição do que o Haddad contribuiu para ampliar os votos ao presidente Lula”, diz. Ele citou ainda o desgaste de Haddad à frente do Ministério da Fazenda e a presença forte da marca da família Bolsonaro como fatores determinantes.
Quanto ao desempenho de Tarcísio de Freitas, o analista explicou que as administrações municipais necessitam de verbas do estado para viabilizar investimentos relevantes, o que leva prefeitos a manterem apoio ao governador em exercício. “Muitos não conhecem o Tarcísio, mas votam porque foram influenciados pelas pessoas da sua cidade que indicaram o Tarcísio como candidato”, avalia.
Comportamento regional e votos em branco e nulos
A maior distância proporcional aconteceu em Jeriquara, localidade onde Lula registrou 41,58% dos votos válidos para presidente e Haddad alcançou 29,72%, indicando que ao menos 32% dos eleitores de Lula não optaram por Haddad. Índices acima de 25% também ocorreram em Colômbia, Ribeirão Corrente, Nuporanga e Santo Antônio da Alegria, ao passo que as menores variações foram medidas em Serra Azul, Franca e Ribeirão Preto.
Os votos em branco e nulos também explicam parte do descolamento apurado. Na disputa estadual, eles totalizaram 173.974 votos (12,2%), enquanto no pleito presidencial representaram 76.496 votos (5,4%) nas 66 cidades.