Do “Luquel” ao gelo: reeleita, Raquel Lyra deixa Lula sem o apoio que ele foi buscar

Política Real
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Depois de se beneficiar da aproximação com o eleitorado lulista para vencer em Pernambuco, governadora recusa os apelos do presidente no segundo turno. A neutralidade, antes conveniente para conquistar votos, agora também permite manter as portas abertas para Flávio Bolsonaro.

A política brasileira tem dessas ironias que dificilmente caberiam em um roteiro de ficção. Durante meses, Raquel Lyra cultivou uma relação de proximidade com Lula, elogiou o presidente, destacou as parcerias com o governo federal e viu crescer em Pernambuco um movimento eleitoral que ganhou até apelido: “Luquel”, a combinação entre Lula para presidente e Raquel para governadora. Agora, poucos dias depois de conquistar a reeleição no primeiro turno, ela deixou o petista sem o apoio que sua campanha foi buscar.

A recusa veio mesmo depois de uma articulação que envolveu nomes importantes do governo. Lula mobilizou os ministros Alexandre Silveira, de Minas e Energia, e José Mucio, da Defesa, além do ex-ministro Rui Costa, para sondar a governadora. O próprio presidente também telefonou para Raquel, conforme ela confirmou em entrevista à Folha de S.Paulo. A resposta pública, entretanto, foi a manutenção da neutralidade.

Raquel venceu a eleição pernambucana com 53,27% dos votos válidos, derrotando João Campos, do PSB, que terminou com 44,82%. O resultado foi especialmente significativo porque ela superou um adversário que tinha o apoio formal de Lula, enfrentou uma disputa apertada nas pesquisas e conseguiu encerrar a eleição sem precisar de segundo turno.

Para compreender o significado político dessa recusa, entretanto, é preciso voltar alguns meses.

Em julho, a candidatura de Raquel já atraía uma parcela expressiva de eleitores e lideranças petistas, apesar de o PT integrar oficialmente a coligação de João Campos. Prefeitos, vereadores e militantes passaram a defender o voto combinado em Lula e Raquel, repetindo uma fórmula que havia surgido ainda em 2022.

A governadora nunca declarou formalmente apoio à candidatura presidencial de Lula, mas tampouco procurou romper com a identificação que parte de seu eleitorado fazia entre os dois. Pelo contrário, multiplicou elogios à parceria administrativa com o presidente e participou de agendas que reforçavam a boa relação entre ambos.

O cálculo tinha fundamento eleitoral. Uma pesquisa Datafolha de setembro mostrou que 32% dos eleitores petistas pernambucanos pretendiam votar em Raquel, enquanto 65% preferiam João Campos. Para uma governadora enfrentando um adversário apoiado diretamente pelo presidente, conquistar praticamente um terço desse eleitorado era um ativo político considerável.

O problema começou quando Lula decidiu participar pessoalmente da campanha de João Campos. Raquel havia defendido que o presidente permanecesse neutro na disputa estadual, mas ele apareceu ao lado do candidato socialista em um ato no Recife, na última semana de setembro. Nos bastidores da governadora, a decisão foi recebida com insatisfação.

Aliados de Raquel também atribuem ao entorno do Planalto participação em movimentos eleitorais favoráveis a João Campos na reta final da campanha. Essa interpretação não foi comprovada, mas ajuda a entender o desgaste político entre os grupos.

E aqui aparece a segunda ironia dessa história. Lula utilizou seu capital político em Pernambuco para ajudar João Campos, viu o aliado ser derrotado e, poucos dias depois, precisou procurar justamente a governadora que havia acabado de vencer seu candidato.

Só que a correlação de forças já era outra.

Antes de 4 de outubro, Raquel disputava sua própria sobrevivência eleitoral e tinha motivos para preservar uma boa relação com um presidente popular entre os pernambucanos. Depois da vitória, com mais quatro anos de governo assegurados, passou a ter condições de negociar seu posicionamento nacional sem a mesma pressão das urnas.

É nesse contexto que a neutralidade assume outro significado. Oficialmente, Raquel sustenta que mantém a coerência de não declarar voto presidencial, postura que também adotou em 2022. E há consistência nessa explicação: ela evitou apoiar formalmente Lula ou Flávio Bolsonaro no primeiro turno e continua sem aderir a nenhum dos dois agora.

Mas neutralidade política também produz consequências práticas. Ao recusar o palanque de Lula, a governadora preserva a liberdade para dialogar com Flávio caso ele seja eleito, possibilidade que ela própria já admitiu publicamente. Isso não significa que tenha aderido ao bolsonarismo ou decidido quem deseja ver na Presidência. Significa que sua posição não ficará comprometida com um único desfecho eleitoral.

O resultado do primeiro turno nacional tornou essa cautela ainda mais relevante. Flávio terminou à frente de Lula, contrariando expectativas anteriores, e a primeira pesquisa Datafolha do segundo turno mostrou uma disputa tecnicamente empatada. Não há evidência de que Raquel tenha escolhido a neutralidade por acreditar na vitória do senador, mas é evidente que o cenário recomenda, do ponto de vista de quem governará um estado, considerar a possibilidade de alternância no Planalto.

Para Lula, a situação tem um custo político que ultrapassa Pernambuco. Sua campanha procura ampliar apoios entre governadores e lideranças de centro, justamente para demonstrar capacidade de diálogo além do eleitorado tradicional do PT. Receber uma negativa de uma governadora com quem manteve uma relação administrativa próxima expõe as dificuldades dessa articulação.

O episódio também revela uma característica antiga da política brasileira: alianças eleitorais e relações de governo nem sempre caminham juntas. Raquel reconhece a importância das parcerias federais para Pernambuco, mas não considera que essa colaboração a obrigue a apoiar Lula nas urnas. O presidente, por sua vez, apoiou João Campos quando precisou escolher um lado na eleição estadual e agora procura reconstruir a ponte com a vencedora.

A questão que permanece não é se Raquel Lyra tem o direito de ficar neutra, porque evidentemente tem. A pergunta politicamente mais interessante é por que o eleitorado lulista foi tão útil para sua reeleição, enquanto o apoio público ao próprio Lula deixou de ser necessário quando ela já estava com o mandato garantido.

Na política, há uma diferença importante entre cultivar proximidade e assumir compromisso. Raquel soube preservar essa distância durante toda a campanha, embora tenha colhido benefícios eleitorais da aproximação.

Lula, que conhece como poucos o funcionamento dessas relações, agora experimenta o outro lado da negociação. Em Pernambuco, onde até recentemente parte do eleitorado celebrava a combinação “Luquel”, o presidente descobriu que uma boa parceria de governo não significa necessariamente ter uma aliada na hora de pedir votos.

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