O homem que ajudou a derrubar Dilma declara voto em Lula e chama Flávio Bolsonaro de “precipício”

Política Real
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Ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso e um dos autores do impeachment de Dilma Rousseff, Miguel Reale Júnior diz que não se arrepende de ter enfrentado o PT, mas considera a eleição de Flávio Bolsonaro um risco à democracia. O apoio revela uma divisão que vai além da disputa tradicional entre esquerda e direita.

Há dez anos, Miguel Reale Júnior estava entre os principais responsáveis pela elaboração do pedido de impeachment que retirou Dilma Rousseff da Presidência da República. Ao lado de Hélio Bicudo e Janaina Paschoal, o jurista ajudou a construir os argumentos jurídicos que sustentaram um dos acontecimentos mais traumáticos da história recente do Partido dos Trabalhadores. Agora, em pleno segundo turno presidencial, declara que votará em Lula para impedir a eleição de Flávio Bolsonaro.

A decisão foi confirmada na quinta-feira (8), em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, depois de Reale publicar uma carta intitulada “Cuidado com o precipício”, na qual apresentou uma série de críticas ao candidato do PL. Sua justificativa não envolve aproximação ideológica com o petismo, mas a avaliação de que a continuidade democrática, o funcionamento das instituições e a soberania brasileira estariam em risco sob um novo governo Bolsonaro.

O jurista afirma que Lula representa, neste momento, uma garantia de respeito ao Estado de Direito. Em contrapartida, considera que Flávio poderia reproduzir conflitos institucionais associados ao governo de Jair Bolsonaro, especialmente pela defesa de medidas de anistia relacionadas aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.

Para Reale, a disposição do senador em beneficiar judicialmente os envolvidos na tentativa de ruptura institucional demonstra uma relação problemática com as regras democráticas. Trata-se de uma interpretação política e jurídica contestável, mas que ocupa o centro de sua decisão eleitoral.

A preocupação não se limita ao passado. O ex-ministro também questiona as declarações de Flávio sobre a necessidade de “redemocratizar” o Brasil e promover mudanças na Constituição. Para o jurista, o candidato não apresentou explicações suficientemente consistentes sobre o que pretende transformar nas instituições.

Flávio defende reformas como o fim da reeleição presidencial, mudanças no Judiciário e alterações na legislação penal. Seus aliados sustentam que essas propostas seriam realizadas pelos mecanismos constitucionais e representam uma resposta a problemas existentes no sistema político. Reale, entretanto, considera que o discurso de redemocratização revela desconhecimento sobre o funcionamento das instituições.

Outro ponto de divergência está na política externa. O jurista critica a proximidade da família Bolsonaro com Donald Trump e demonstra preocupação com a defesa de medidas que poderiam ampliar a influência americana em questões internas brasileiras. Entre elas, menciona a possibilidade de organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho receberem classificação de grupos terroristas, algo que, em sua avaliação, poderia abrir espaço para pressões e intervenções estrangeiras.

Também rejeita a adoção de um modelo de segurança pública semelhante ao de El Salvador, associado ao presidente Nayib Bukele, por considerar que o endurecimento da repressão, sem garantias processuais adequadas, poderia provocar graves violações de direitos.

Mas o aspecto politicamente mais interessante dessa declaração talvez esteja na própria biografia de Miguel Reale Júnior.

O jurista não pertence ao campo histórico da esquerda. Foi ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, participou do movimento que levou ao impeachment de Dilma e continua defendendo a decisão tomada em 2016. Ao ser questionado sobre um possível arrependimento, respondeu que não mudaria sua posição e afirmou considerar o afastamento da petista necessário diante da crise econômica e política daquele período.

Reale também participou da elaboração de iniciativas de impeachment contra Fernando Collor e Jair Bolsonaro. Na maneira como interpreta sua trajetória, essas posições não representam mudanças de lado, mas decisões tomadas diante das circunstâncias enfrentadas pelo país em momentos diferentes.

Existe, contudo, um detalhe essencial para compreender o apoio anunciado agora. Miguel Reale Júnior já havia declarado voto em Lula em 2022, depois de inicialmente apoiar Simone Tebet. Naquela ocasião, também justificou sua escolha pelas preocupações com o comportamento de Jair Bolsonaro e pela possibilidade de novos conflitos institucionais.

Portanto, não estamos diante de uma conversão política repentina. O que acontece em 2026 é a reafirmação de uma posição que o jurista já havia assumido quatro anos antes, agora direcionada contra o filho do ex-presidente.

Essa distinção diminui o impacto da notícia como conquista de um eleitor novo para Lula, mas não elimina seu significado político.

Enquanto Flávio Bolsonaro acumula apoios de governadores, partidos e antigos adversários da disputa presidencial, Lula procura ampliar o diálogo com setores que não se identificam tradicionalmente com o PT. Nesse ambiente, a manifestação de um personagem historicamente associado ao impeachment de Dilma possui um valor simbólico evidente, embora não seja possível atribuir a ela qualquer transferência mensurável de votos.

A manifestação de Reale também mostra como a polarização brasileira reúne eleitores por razões bastante diferentes. Há quem escolha Lula pela identificação com suas políticas sociais e econômicas, assim como existem eleitores que o apoiam apesar de suas divergências com o PT. Do outro lado, Flávio reúne apoiadores históricos do bolsonarismo e setores que enxergam em sua candidatura uma alternativa ao desgaste do atual governo.

A diferença é que Reale coloca a discussão institucional acima de suas antigas disputas com os petistas. Para ele, os problemas do governo Lula não justificam assumir os riscos que identifica na candidatura adversária. É uma posição que não apaga as críticas ao PT, tampouco significa concordância com todas as decisões do presidente.

No fundo, sua declaração apresenta uma questão relevante sobre o segundo turno: até que ponto as divergências partidárias tradicionais continuam determinando o voto quando a disputa passa a envolver também interpretações tão diferentes sobre o funcionamento da democracia?

Miguel Reale Júnior ajudou a retirar uma presidente petista do poder, manteve suas críticas ao partido e agora volta a escolher Lula diante de um Bolsonaro. Não considera que exista contradição nessa trajetória.

Para o PT, é um apoio que carrega a memória de uma das maiores derrotas de sua história. Para Reale, é a continuidade de uma posição que sustenta desde 2022. E, para compreender a política brasileira, talvez esse seja o elemento mais revelador: antigos adversários podem continuar discordando profundamente sobre o passado e, ainda assim, encontrar razões para fazer a mesma escolha no presente.

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