A diferença entre os dois é de apenas 1,87 ponto percentual. Mas o resultado do primeiro turno produziu efeitos completamente diferentes nas duas campanhas. Flávio Bolsonaro começa a nova disputa com sensação de vitória, crescimento e aliados se aproximando. Lula começa tentando entender por que o resultado que esperava não aconteceu.
O segundo turno da eleição presidencial começa praticamente empatado nos números.
Mas não começa empatado no ambiente político.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, 56,1 milhões de votos. Lula terminou com 45,16%, 53,8 milhões. Uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos em um país com mais de 125 milhões de votos válidos.
Matematicamente, é uma distância perfeitamente reversível.
Politicamente, porém, os dois candidatos acordaram nesta segunda-feira, 5 de outubro, vivendo momentos completamente diferentes.
Flávio entra no segundo turno sentindo que venceu. Lula entra sabendo que precisa virar.
E essa diferença pode influenciar tudo o que acontecerá nas próximas três semanas.
Flávio conseguiu mais do que precisava
Para Flávio Bolsonaro, chegar ao segundo turno já seria um resultado importante.
Chegar em primeiro mudou completamente a dimensão da vitória.
Na reta final da campanha, os principais levantamentos nacionais mostravam Lula numericamente à frente ou os dois candidatos em empate técnico. A possibilidade de Lula vencer já no primeiro turno chegou a ser discutida durante boa parte da campanha.
As urnas entregaram outra fotografia.
Flávio não apenas avançou.
Terminou na frente do presidente da República.
Foi por isso que seu discurso na noite de domingo não teve o tom tradicional de quem simplesmente conquistou uma vaga no segundo turno.
Teve tom de vitória.
Flávio disse estar “muito feliz”, falou em mudança, afirmou que o resultado representaria o “fim da era do PT” e terminou projetando para a nova campanha “energia no máximo, esperança no máximo e certeza da vitória no máximo”.
Pode ser retórica eleitoral.
Mas retórica também produz ambiente político.
E neste momento a campanha de Flávio precisa convencer partidos, lideranças políticas, empresários e principalmente eleitores de que existe uma onda em andamento.
O resultado de domingo ajuda a construir exatamente essa narrativa.
Lula esperava outra eleição
No campo de Lula, aconteceu o contrário.
O próprio presidente admitiu isso.
Ao comentar o resultado, Lula afirmou que estava convencido de que venceria a eleição no primeiro turno. Depois reconheceu que “o resultado muitas vezes é inesperado”.
Essa frase revela muito sobre a diferença entre os dois QGs.
Lula não preparava seu discurso para comemorar uma liderança apertada.
Muito menos para explicar uma segunda colocação.
Sua campanha chegou ao domingo esperando terminar na frente e trabalhando inclusive com a possibilidade de liquidar a disputa imediatamente.
Terminou atrás.
Agora precisa fazer em três semanas uma campanha diferente daquela que imaginava fazer.
Aliados já discutem mudanças na comunicação, maior presença em grandes centros urbanos, reforço da busca pelo eleitor de centro e uma campanha mais agressiva contra Flávio.
É uma reorganização obrigatória.
Enquanto Flávio tenta acelerar, Lula precisa corrigir.
A diferença é pequena. A sensação não é
Esse talvez seja o ponto mais importante para compreender o início do segundo turno.
Se alguém observar apenas os números, verá uma disputa apertadíssima.
47,03% contra 45,16%.
Flávio está longe de ter uma eleição resolvida.
Uma movimentação relativamente pequena do eleitorado pode inverter completamente o resultado.
Mas campanha eleitoral não acontece apenas dentro de uma planilha.
Ela acontece também sobre percepção.
Quem parece estar crescendo?
Quem parece estar perdendo força?
Quem recebe novos apoios?
Quem precisa explicar o resultado?
Quem consegue produzir a impressão de que representa o futuro?
Nas primeiras horas depois das urnas, Flávio possui vantagem justamente nesse terreno.
Ele pode dizer aos partidos que venceu Lula.
Pode dizer aos candidatos derrotados que largou na frente.
Pode apresentar aos governadores e prefeitos um projeto que deixou de ser apenas competitivo e passou a parecer eleitoralmente viável.
Pode dizer ao eleitor que faltou pouco.
Esse último elemento é particularmente poderoso.
Flávio terminou a apenas 2,97 pontos percentuais da maioria absoluta dos votos válidos.
A mensagem política é simples.
Ele não precisa vender uma recuperação. Precisa vender a conclusão de um movimento que já começou.
Lula precisa vender uma virada.
E as urnas ao redor ajudaram Flávio
A sensação de força não veio apenas da eleição presidencial.
A direita terminou o primeiro turno fortalecida também nos estados e no Congresso.
Governadores identificados com o campo conservador conquistaram estados importantes. O PL ampliou sua presença nos governos estaduais. A legenda também saiu das urnas projetada para iniciar a próxima legislatura com a maior bancada do Senado. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito no primeiro turno com mais de 62% dos votos e já colocou sua força política à disposição da campanha presidencial.
Tudo isso produz uma mensagem visual muito poderosa.
Flávio não aparece sozinho comemorando um bom resultado.
Ao redor dele existem vencedores.
E políticos gostam de estar perto de vencedores.
É exatamente por isso que as próximas 48 ou 72 horas são tão importantes na disputa pelos apoios partidários.
Cada adesão conquistada pelo candidato do PL ajuda a ampliar a sensação de movimento.
Uma declaração chama outra.
Um governador influencia prefeitos.
Um partido influencia outro.
O risco para Lula é permitir que uma vantagem eleitoral pequena se transforme numa percepção política muito maior do que ela realmente é.
Lula tem experiência justamente onde Flávio não tem
Isso não significa que a eleição esteja encaminhada.
Existe uma diferença fundamental entre os dois.
Flávio Bolsonaro disputa uma eleição presidencial pela primeira vez.
Lula já passou por praticamente todos os cenários possíveis em uma disputa presidencial.
Já venceu.
Já perdeu.
Já disputou segundo turno.
Já governou.
Já voltou ao poder depois de anos fora da Presidência.
A capacidade de Lula de reorganizar uma campanha depois de um revés não pode ser desprezada.
E o próprio presidente tentou estabelecer essa narrativa ao dizer que o segundo turno representa uma nova eleição, agora com apenas dois candidatos e possibilidade de comparação direta entre os projetos.
Esse é provavelmente o caminho que o PT tentará seguir.
Transformar a eleição novamente em uma escolha binária.
Reduzir a importância psicológica da derrota do primeiro turno.
Aumentar a rejeição a Flávio.
Mobilizar sua estrutura no Nordeste.
Recuperar terreno no Sudeste.
E convencer o eleitor de centro de que o segundo turno começa do zero.
O problema é que eleitoralmente ele começa do zero.
Politicamente, não.
Existe um dado histórico desconfortável para Lula
Desde a redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno presidencial na liderança acabou derrotado no segundo.
Isso não é uma regra eleitoral.
Não existe qualquer impedimento para uma virada.
Mas é um dado que aumenta a pressão sobre a campanha petista.
Lula precisa fazer algo que ainda não aconteceu nas eleições presidenciais brasileiras deste período.
Flávio precisa preservar sua posição.
Essa diferença ajuda a explicar por que os dois entram na segunda etapa da campanha com discursos tão distintos.
Um está atacando.
O outro precisa contra-atacar.
A eleição começa 47 a 45. Mas a energia é outra
Talvez a melhor maneira de compreender o momento seja separar duas coisas.
O placar e a energia.
No placar, a eleição continua completamente aberta.
Uma diferença inferior a dois pontos percentuais diante de um eleitorado superior a 125 milhões de votos válidos não permite tratar ninguém como presidente eleito.
Mas a energia política do início do segundo turno é diferente.
Flávio Bolsonaro recebeu um resultado melhor do que aquele que boa parte do ambiente político esperava. Terminou na liderança, aproximou-se da maioria absoluta, viu aliados vencerem pelo país e começa agora a receber movimentos de aproximação de partidos e governadores.
Lula recebeu um resultado pior do que ele próprio esperava.
O presidente acreditava na vitória no primeiro turno.
Terminou em segundo.
Agora precisa revisar estratégia, reconquistar a iniciativa política e impedir que uma diferença pequena nas urnas se transforme em uma onda maior durante a campanha.
É por isso que o segundo turno começa com uma situação curiosa.
A distância entre Lula e Flávio é pequena.
Mas um entra na campanha com a sensação de que está chegando.
O outro entra sabendo que precisa buscar.