A Polícia Federal (PF) enviou relatórios ao Supremo Tribunal Federal (STF) detalhando uma relação de proximidade pessoal e interlocução política entre o senador e ex-líder do governo Lula, Jaques Wagner (PT-BA), e executivos ligados ao Banco Master. Os documentos, tornados públicos pelo ministro André Mendonça, relator do caso, na quinta-feira (30), indicam que Wagner foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho, em meio a investigações sobre supostas vantagens econômicas.
A investigação da PF sustenta que Jaques Wagner mantinha uma relação de confiança com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio da instituição financeira, conhecido como “Guga”. Esse vínculo teria aproximado o parlamentar de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, e criado canais para tratar de pautas legislativas e operações de interesse do Master. Há indícios de que o senador teria recebido vantagens econômicas de gestores do banco em possível contrapartida à sua atuação parlamentar em temas de interesse da instituição.
Entre as supostas vantagens identificadas pela Polícia Federal, destacam-se as tratativas para a compra de um apartamento de R$ 2,5 milhões para o senador, que teria seguido um esquema similar ao usado na aquisição de imóveis dados como propina ao ex-presidente do BRB (Banco Regional de Brasília), Paulo Henrique Costa. Além disso, a PF apurou o uso de aeronaves, o recebimento de ingressos para shows de alto valor, como o da cantora norte-americana Taylor Swift, e outros presentes. Antes da operação de 18 de junho, o ministro André Mendonça autorizou o acesso a registros telefônicos e o monitoramento da localização do celular de Jaques Wagner por dez dias, sem acesso ao conteúdo das conversas, justificando a urgência da medida por “riscos de vazamento” após um dos alvos solicitar audiência no mesmo dia dos pedidos da PF.
A relação entre Wagner e Augusto Lima é descrita como “longa e duradoura”, com mensagens analisadas pela corporação revelando encontros familiares, viagens e demonstrações de proximidade. Em outubro de 2023, o senador e sua esposa teriam passado um fim de semana na Ilha da Paixão, imóvel sob controle de Augusto, com deslocamento em aeronave ligada ao empresário. Levantamento da PF mostra 74 ligações entre os dois de novembro de 2023 a maio de 2025. A corporação também identificou uma lista de “Lembranças de Fim de Ano”, de dezembro de 2024, com nomes de autoridades como Bruno Reis, Jaques Wagner, Rui Costa, ACM Neto, Antônio de Rueda e Jerônimo Rodrigues, acompanhada de uma lista de vinhos de alto valor. Conversas também indicam que Augusto Lima mantinha Wagner informado sobre negócios do Master, e relatórios descrevem reuniões no gabinete do senador, onde Wagner teria sugerido um local “mais protegido e discreto” para um encontro com Augusto e uma pessoa identificada como “Messias“, supostamente o advogado-geral da União, Jorge Messias, que negou ter participado.
A Polícia Federal afirma que Jaques Wagner manteve um “acompanhamento direto” da chamada “Emenda Master”, formalizada na PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 63/2023, que previa a ampliação do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para R$ 1 milhão por pessoa física. A proposta foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também possui vínculos com o Banco Master, segundo a PF. Os investigadores apontam que Daniel Vorcaro percebia o senador como um “aliado político” no Congresso Nacional para operações de natureza regulatória. As tratativas sobre o apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, que seria destinado a Wagner, teriam continuado mesmo após a prisão de Vorcaro em novembro de 2025, evidenciando a persistência dos supostos vínculos.