Segundo turno começa com corrida por apoios: Flávio avança sobre o Centrão; Lula tenta conter debandada

Política Real
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Candidato do PL inicia a disputa com vantagem nas urnas e movimentos de União-PP, Novo e Republicanos em sua direção. Lula convoca aliados, busca pontes com o centro e tenta transformar a neutralidade de partidos como PSD e MDB em apoios regionais.

O segundo turno presidencial começou menos de 24 horas depois do fechamento das urnas com uma disputa que vai muito além dos votos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Até o fim da manhã desta segunda-feira, 5 de outubro, os dois campos já haviam colocado em marcha uma operação para conquistar partidos, governadores e lideranças que ficaram sem candidato à Presidência.

Flávio entra nessa negociação em posição mais confortável. Terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, 56,1 milhões de votos, contra 45,16% de Lula, 53,8 milhões. A vantagem foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos. O segundo turno será realizado em 25 de outubro.

Mas a batalha das próximas três semanas não será apenas pelos cerca de 9 milhões de votos dados aos demais presidenciáveis. A eleição de domingo também redesenhou o Congresso e os governos estaduais, criando um ambiente político mais favorável ao campo de Flávio.

Flávio tenta transformar vantagem eleitoral em efeito político

O movimento mais concreto desta segunda-feira acontece em Brasília. Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo com mais de 62% dos votos, viajou à capital federal para discutir diretamente com Flávio a estratégia do segundo turno.

Tarcísio pretende participar ativamente da campanha nacional, especialmente no Sudeste, e existe inclusive a possibilidade de integrantes de sua estrutura de marketing e produção digital serem incorporados à campanha presidencial.

São Paulo é apenas uma parte da estrutura que Flávio poderá mobilizar. Entre os 20 governadores eleitos no primeiro turno, dez apoiaram sua candidatura presidencial, enquanto cinco estiveram com Lula. Entre os nomes estão Tarcísio, em São Paulo; Cleitinho, em Minas Gerais; Sergio Moro, no Paraná; e Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul.

O movimento agora chegou ao Centrão.

A cúpula da federação União Brasil-PP sinaliza apoio a Flávio e programou uma reunião em Brasília com suas bancadas. O PP, comandado por Ciro Nogueira, aparece particularmente inclinado à adesão. No União Brasil, Antônio Rueda mantém postura mais cautelosa, enquanto integrantes da sigla discutem também a relação de um eventual governo Flávio com a disputa pela presidência do Senado.

O Novo também deve formalizar apoio a Flávio nos próximos dias. Romeu Zema encerrou o primeiro turno reafirmando que estará “do outro lado” onde estiver o PT.

Outro alvo importante é o Republicanos. O partido marcou reunião para terça ou quarta-feira para reavaliar a neutralidade adotada no primeiro turno. Tarcísio atua internamente para levar oficialmente a legenda ao palanque de Flávio, embora o partido também abrigue Hugo Motta, presidente da Câmara e aliado de Lula na Paraíba.

Lula tenta interromper a onda antes que ela cresça

No Palácio do Planalto, a prioridade é impedir que o resultado de domingo produza uma percepção de eleição definida.

Lula convocou aliados para uma reunião nesta segunda-feira em Brasília, com o objetivo de redesenhar a campanha e organizar a estratégia política para o segundo turno. Dentro do PT, há avaliação de que será necessário modificar a comunicação, ampliar o contraste direto com Flávio e, sobretudo, partir para uma busca mais agressiva por apoios no centro.

Essa articulação havia começado antes mesmo da abertura das urnas.

Emissários de Lula procuraram pessoas próximas a Augusto Cury, enquanto a campanha identificou setores do PSD e do MDB como possíveis pontes para ampliar a coalizão. Governadores e lideranças regionais dessas legendas passaram a ser tratados como prioridade.

O problema é que parte desse plano já encontrou obstáculos.

Cury, terceiro colocado, declarou que não apoiará Lula nem Flávio. Renan Santos, do Missão, adotou postura semelhante e disse que não fará campanha para nenhum dos dois.

O PSD de Ronaldo Caiado também anunciou neutralidade nacional. Gilberto Kassab liberou diretórios estaduais, parlamentares e lideranças para escolherem seus próprios candidatos. Para Lula, essa decisão é melhor do que uma adesão nacional do partido a Flávio, mas transforma a negociação em uma disputa estado por estado.

O MDB, por sua vez, permanece dividido. A ala próxima de Lula perdeu força eleitoral em alguns estados, enquanto setores mais próximos da direita pressionam em direção oposta. A tendência inicial é de que uma eventual posição nacional tenha menos importância do que o comportamento das lideranças regionais.

Neutralidade dos candidatos não significa neutralidade dos eleitores

Esse pode ser o ponto mais importante da disputa.

Cury, Renan e Caiado podem decidir não entregar formalmente seus votos a ninguém. Mas seus eleitores não permanecem congelados.

O último Datafolha antes do primeiro turno já mostrava vantagem de Flávio na disputa por esse eleitorado. Entre os eleitores de Cury, 39% indicavam Flávio no segundo turno e 30% Lula. Entre os de Caiado, a relação era de 44% a 27%. Entre os eleitores de Renan Santos, 51% apontavam Flávio e 19% Lula, embora as amostras desses grupos sejam pequenas e devam ser interpretadas com cautela.

Por isso, o apoio formal de um partido tem agora menos valor eleitoral direto do que no primeiro turno: o tempo de rádio e televisão é dividido igualmente entre os dois finalistas. O que interessa é a estrutura que acompanha o apoio, governadores, prefeitos, parlamentares, militância, máquinas regionais e capacidade de produzir uma narrativa de vitória.

E é justamente nesse terreno que Flávio começa o segundo turno na dianteira.

Sua estratégia parece clara: transformar os 47% obtidos nas urnas em uma mensagem de inevitabilidade e atrair rapidamente o centro e a centro-direita.

A missão de Lula é exatamente a oposta: quebrar essa sensação antes que ela se consolide, preservar os partidos neutros e transformar alianças regionais em uma nova maioria eleitoral.

O primeiro turno terminou domingo.

A disputa pelo segundo começou na manhã seguinte e, antes de voltar para as ruas, começou dentro dos partidos.

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