A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um cenário de isolamento político, com aliados no Partido Liberal (PL) avaliando a possibilidade de uma “candidatura avulsa”. Essa perspectiva surge após a federação União Progressista, composta pelo Partido Progressistas (PP) e União Brasil, comunicar sua decisão de manter neutralidade na disputa pelo Palácio do Planalto. A notícia foi transmitida a Flávio Bolsonaro pelo presidente do PP, Ciro Nogueira, na última quarta-feira, consolidando a percepção de que o senador pode iniciar a corrida eleitoral sem o apoio de alianças nacionais significativas.
Dirigentes do PL classificam a articulação política conduzida por Flávio Bolsonaro e pelo coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), como uma “tragédia”, dada a dificuldade em consolidar apoios. A expectativa de reverter a neutralidade da União Progressista era alta, e a vaga de vice na chapa chegou a ser oferecida à senadora Tereza Cristina (PP-MS). No entanto, a parlamentar recusou o convite, reforçando o quadro de desarticulação e a necessidade de o partido trabalhar com a hipótese de uma campanha sustentada apenas pela sua própria estrutura.
Internamente, integrantes do PL criticam a estratégia adotada por Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho, que teriam concentrado esforços na tática eleitoral em detrimento da interlocução cotidiana com presidentes de partidos e lideranças do Centrão. A avaliação é que a campanha não conseguiu construir uma rede política robusta, capaz de sustentar acordos nacionais desde o início. Um dirigente da legenda, sob condição de anonimato, mencionou a postura de Flávio Bolsonaro durante uma operação da Polícia Federal que teve Ciro Nogueira como alvo no caso Master. Na ocasião, o senador divulgou uma nota que citava a gravidade das acusações e defendia apuração “com rigor e transparência”, elogiando o ministro André Mendonça, sem oferecer uma defesa política mais enfática ao presidente do PP.
A postura de Flávio Bolsonaro foi interpretada por aliados de Ciro Nogueira como um abandono em um momento de fragilidade do dirigente do PP. Essa percepção foi agravada por mensagens divulgadas posteriormente, que mostravam interlocução entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, sobre o financiamento do filme “Dark Horse”. Essa situação reforçou, entre dirigentes da União Progressista, a ideia de que Flávio Bolsonaro adotava um discurso duro publicamente enquanto mantinha outras conversas. A comparação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é inevitável, já que Lula conseguiu agrupar as principais siglas de esquerda, enquanto partidos de centro, como União Progressista e MDB, optaram pela neutralidade, não formalizando apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Interlocutores do senador reconhecem que Luiz Inácio Lula da Silva obteve uma “goleada” na primeira fase da disputa eleitoral, focada na formação de alianças, colocando Flávio Bolsonaro em desvantagem. Apesar desse cenário, o parlamentar deve contar com aproximadamente 30% do tempo de propaganda eleitoral, um benefício assegurado pela filiação ao PL, que possui a maior bancada no Congresso Nacional. Contudo, a busca por apoios segue desafiadora, com o Republicanos também se mostrando cada vez mais distante de uma aliança nacional, mesmo com o PL defendendo a indicação da ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, para a vice. A filiação de Daniella Marques ao Republicanos, sem o conhecimento prévio do presidente da sigla, Marcos Pereira, e a subsequente necessidade de recorrer à Justiça, é vista como uma tentativa do PL de pressionar por uma coligação. O Podemos, que manteve conversas com diversas legendas, também tende à neutralidade, consolidando o panorama de uma campanha mais isolada para Flávio Bolsonaro.