O Ministério do Interior da Espanha anunciou nesta sexta-feira (31) que, segundo suas estimativas, cerca de 49 mil migrantes cruzaram para o enclave de Ceuta, no Norte de África, nas últimas 24 horas. A travessia em massa ocorreu por mar e por terra, partindo de Marrocos, e representa um fluxo migratório sem precedentes para o território espanhol.
Ceuta, juntamente com Melilla, é uma das duas únicas cidades autônomas espanholas que fazem fronteira terrestre com o continente africano, abrigando aproximadamente 85 mil pessoas cada. Embora essas cidades registrem periodicamente aumentos nas tentativas de travessia de migrantes em busca de acesso à Europa, a chegada de quase 50 mil pessoas em um único dia foi descrita pela Espanha como a maior crise desde pelo menos 2021. As autoridades espanholas e marroquinas reforçaram a cerca fronteiriça do território espanhol, conseguindo interromper as travessias em massa, mas pelo menos 19 corpos foram encontrados na água.
Em resposta à situação, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, viajou a Ceuta nesta sexta-feira, acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, para avaliar a crise. Nos portões de entrada de Ceuta, as autoridades marroquinas utilizaram caminhões com canhões de água para repelir as pessoas, e os restos carbonizados de um ônibus e sete carros foram observados nas proximidades, indicando confrontos. As autoridades espanholas afirmaram que tentariam expulsar aqueles que entraram ilegalmente o mais rápido possível, apesar de uma recente decisão judicial que impôs novas restrições às regras de “rejeição de fronteira”, que permitem expulsões imediatas.
A travessia em massa para Ceuta gerou divisões na Europa, com a Itália ameaçando suspender o programa de fronteiras abertas internas da União Europeia. O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, sugeriu que um dos fatores que podem ter contribuído para o aumento das tentativas de travessia foi uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, no início do mês, que impede a devolução sumária de migrantes interceptados no mar. No lado marroquino da fronteira, milhares de migrantes invadiram a cidade de Fnideq durante a noite, e grupos continuavam a buscar rotas alternativas, com alguns se preparando para nadar. Um migrante, identificado apenas como Brahim, de 32 anos, relatou ter chegado atrasado de Tânger e encontrado o portão praticamente fechado. A associação da Guarda Civil espanhola, AUGC, criticou a falta de policiais para monitorar a cerca, o que impediu a contenção do fluxo.
A questão da migração é sensível em toda a Europa, onde partidos de direita ganharam força após a crise de 2015. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, declarou que seu país está preparado para intervir com medidas extraordinárias, incluindo a suspensão do Espaço Schengen com a Espanha. O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, criticou a decisão do governo espanhol de conceder cidadania a mais de 500 mil imigrantes irregulares, alegando que isso incentiva o tráfico de pessoas. Em resposta, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, classificou a mensagem de Tajani como “inapropriada” e afirmou que a Espanha esperava “solidariedade e não demagogia partidária” de seu parceiro, anunciando que convocaria o embaixador italiano para protestar.