PF indica produção de documentos falsos pelo Banco Master em vendas ao BRB

Redação
Colunista
4 leitura mínima
Créditos/Reprodução Internet

Documentos divulgados nesta sexta-feira (11) apontam que funcionários do Banco Master atuaram na elaboração de documentos considerados falsificados pela Polícia Federal (PF). O material teria sido utilizado para fundamentar operações de cessão de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB).

A liberação dos autos ocorreu por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que retirou o sigilo das investigações.

Entre as provas obtidas na Operação Compliance Zero, está um relatório intitulado “Investigações internas – Banco Master”, localizado no acervo digital entregue pelo liquidante da instituição. O arquivo descreve um fluxo interno estruturado que abrangia desde a coleta de dados cadastrais até a emissão, assinatura e envio de papéis forjados, envolvendo diretores, gerentes e setores de tecnologia e operações.

Segundo a corporação, as apurações indicam fraude bilionária em carteiras atribuídas originariamente à empresa Tirreno. Os investigadores afirmam que os créditos não possuíam o lastro informado e que os registros comprobatórios foram fabricados posteriormente.

Geração em massa e manipulação

A apuração da PF relata que informações de clientes do programa CredCesta foram aproveitadas na emissão em lote de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), termos de consentimento e procurações. Em um dos episódios, o gerente Allan da Silva Machado utilizou planilhas e a ferramenta de mala direta do Word para gerar 2.700 procurações, arquivadas na pasta digital “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. A PF aponta que parte desses arquivos integrou uma amostragem de 1.785 contratos remetida ao BRB.

Mensagens anexadas aos autos também indicam tentativas de ocultar detalhes de comprovantes bancários. Em diálogo com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen, da tesouraria, o gerente pediu a supressão de dados de identificação:

“Este aparece o número de contrato… Não quero o número de contrato nem o histórico”, escreveu Allan. “Então não tem o que fazer. Um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes”, respondeu Romy. “Tem que dar um jeito”, declarou o gerente. “Pois é”, finalizou a funcionária.

O laudo pericial registrou o episódio como “provável emissão de comprovantes de transação manipulados”.

Supressão de datas e auditoria

Em outra frente, funcionários trataram da eliminação de datas e horários dos termos de autorização dos clientes para impedir a verificação temporal. Em mensagem enviada a Moacir Lourenço da Silva Junior, da equipe de tecnologia, o gerente Allan orientou: “Precisamos excluir a data.” Em uma das ocorrências, um contrato com data formal de 21 de janeiro de 2025 recebeu assinatura eletrônica apenas em 20 de junho do mesmo ano.

As divergências geraram questionamentos da auditoria independente Deloitte. Ao ser cobrado, o coordenador de controles Fabrizio Pereira Alencar consultou o diretor Alberto Felix de Oliveira Neto. Conforme a investigação, o diretor instruiu o subordinado a justificar as falhas como técnicas: “Esse tem que falar que foi erro operacional na seleção”.

Conclusão por gestão fraudulenta

A perícia examinou R$ 47,78 bilhões em negociações entre as duas instituições financeiras, dos quais R$ 31,74 bilhões corresponderam a aquisições de créditos do Master pelo BRB. O laudo apontou pagamentos liberados antes de relatórios técnicos, fracionamento de compras para evitar alçadas superiores e continuidade das operações mesmo diante de advertências financeiras.

Com base nas práticas reiteradas, a perícia concluiu pela existência de gestão fraudulenta no BRB. O relatório assinala que “a utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória […] configura, sob a perspectiva técnico-pericial, padrão compatível com gestão fraudulenta, e não apenas com gestão temerária”.

Compartilhe este artigo