Vinte estados decidiram seus governadores já no primeiro turno. A direita venceu os maiores colégios eleitorais, o PL multiplicou sua presença nos estados e o PT ficou concentrado em três bastiões do Nordeste. O resultado ajuda a responder uma pergunta que voltou ao centro da política brasileira: o país está caminhando para a direita?
O mapa político brasileiro amanheceu diferente nesta segunda-feira, 5 de outubro.
Dos 26 estados e do Distrito Federal, 20 escolheram seus governadores já no primeiro turno, o maior número de definições imediatas desde a redemocratização. Apenas Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins ainda dependem da votação de 25 de outubro.
Mas o dado mais importante não está apenas na quantidade de eleições encerradas.
Está na direção política escolhida pelos eleitores.
Uma análise dos 20 governadores já eleitos mostra um Brasil estadual claramente deslocado para a direita e a centro-direita, ainda que isso não possa ser confundido simplesmente com uma vitória uniforme do bolsonarismo.
O fenômeno é mais amplo.
O mapa dos 20 governadores eleitos
Para esta análise, o Política Real News considera não apenas o partido de cada governador, mas trajetória política, alianças eleitorais, composição das coligações e posicionamento público. A classificação é analítica, portanto não representa uma definição oficial dos partidos.
- Alagoas: JHC (PSDB), centro-direita. Venceu uma disputa polarizada contra Renan Filho e representa uma ala mais conservadora do PSDB. Foi apoiado por Flávio Bolsonaro durante a eleição.
- Amapá: Dr. Furlan (PSD), centro-direita. Apesar de filiado ao PSD, disputou cercado por uma aliança formada também por Novo, Podemos e PL, tendo uma vice do PL.
- Bahia: Jerônimo Rodrigues (PT), esquerda. Reeleito com 55,77%, mantém um dos principais bastiões históricos do PT no país.
- Ceará: Elmano de Freitas (PT), esquerda. Filiado ao PT desde 1989, foi reeleito com 53,19% e preservou o controle petista do estado.
- Goiás: Daniel Vilela (MDB), centro-direita. Herdeiro político da estrutura de Ronaldo Caiado no estado, representa um MDB regional mais próximo do campo conservador do que da esquerda.
- Maranhão: Eduardo Braide (PSD), centro-direita. Chegou ao governo com uma coligação formada por PSD e Novo e uma plataforma política mais distante da esquerda tradicional maranhense.
- Mato Grosso: Otaviano Pivetta (Republicanos), direita. Empresário do agronegócio e aliado do campo conservador, venceu com 60,77%.
- Mato Grosso do Sul: Eduardo Riedel (PP), centro-direita. Produtor rural e representante de uma política liberal na economia e conservadora na composição de alianças, foi reeleito com mais de 67%.
- Minas Gerais: Cleitinho (Republicanos), direita. Conservador nos costumes, crítico do establishment político e aliado de Flávio Bolsonaro, venceu com 55,4%.
- Pará: Dr. Daniel (Podemos), centro-direita. Foi eleito por uma coligação que reuniu Podemos, PL, Novo, DC, PRD e Solidariedade.
- Paraíba: Lucas Ribeiro (PP), centro. Apesar de pertencer a uma legenda geralmente situada na centro-direita, integra um grupo político regional pragmático e manteve aproximação com o governo Lula.
- Paraná: Sergio Moro (PL), direita. Ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, chegou ao governo com 50,1%.
- Pernambuco: Raquel Lyra (PSD), centro-direita. Tem perfil administrativo e moderado, evitou se vincular diretamente à polarização presidencial e foi reeleita com 53,27%.
- Piauí: Rafael Fonteles (PT), esquerda. Foi o governador mais bem votado entre os eleitos no primeiro turno, com 70,9%.
- Rondônia: Marcos Rogério (PL), direita. Nome historicamente ligado ao campo conservador, venceu com 56,86%.
- Roraima: Arthur Henrique (PL), direita. Consolidou o domínio do campo conservador no estado com uma vitória de quase 70%.
- Santa Catarina: Jorginho Mello (PL), direita. Um dos principais aliados do bolsonarismo no Sul, foi reeleito com 69,98%.
- São Paulo: Tarcísio de Freitas (Republicanos), direita. Ex-ministro de Jair Bolsonaro, venceu com 62,65% e consolidou São Paulo como principal centro de poder institucional da direita brasileira.
- Rio Grande do Sul: Luciano Zucco (PL), direita. Militar da reserva e ex-líder da oposição na Câmara, conquistou 58,04%.
- Sergipe: Fábio Mitidieri (PSD), centro. Político de perfil pragmático, tem relações com diferentes campos e não pode ser classificado simplesmente como representante da direita ou da esquerda.
Os números mostram a mudança
Nesse recorte, oito dos 20 governadores podem ser classificados claramente como de direita, sete como de centro-direita, dois como de centro e apenas três como de esquerda.
Ou seja, usando uma classificação política mais ampla, 15 dos 20 governadores já eleitos estão posicionados entre a centro-direita e a direita.
Isso representa 75% dos estados que encerraram a disputa no primeiro turno.
A comparação partidária também chama atenção.
Em 2022, o PL terminou a eleição com apenas dois governadores eleitos. Quatro anos depois, o partido já conquistou cinco governos no primeiro turno, Paraná, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e ainda disputa o segundo turno no Amazonas e no Rio de Janeiro.
O Republicanos, outra legenda situada no campo da direita e centro-direita, já garantiu São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Tarcísio, Cleitinho e Pivetta comandarão três estados que, juntos, possuem enorme peso econômico e eleitoral.
O movimento ocorre também fora das legendas mais identificadas com o bolsonarismo.
JHC, Dr. Furlan, Daniel Vilela, Eduardo Braide, Eduardo Riedel, Dr. Daniel e Raquel Lyra não possuem trajetórias políticas idênticas, mas estão muito mais próximos do centro e da centro-direita do que da esquerda.
É justamente aí que está uma das principais mensagens das urnas.
O avanço da direita brasileira em 2026 é maior do que o crescimento do PL.
O PT resistiu, mas ficou concentrado
A esquerda não desapareceu do mapa.
Muito pelo contrário.
Rafael Fonteles conseguiu no Piauí a maior votação proporcional entre todos os governadores eleitos, com 70,9%. Jerônimo Rodrigues venceu novamente na Bahia e Elmano de Freitas garantiu mais quatro anos de PT no Ceará.
São vitórias importantes e mostram que existe uma base petista extremamente sólida em parte do Nordeste.
O problema para a esquerda aparece quando o mapa é observado fora desses territórios.
Nenhum candidato de esquerda venceu no primeiro turno no Sul, Sudeste, Centro-Oeste ou Norte.
Mesmo dentro do Nordeste, a fotografia deixou de ser homogênea. Alagoas escolheu JHC, Pernambuco reelegeu Raquel Lyra, Maranhão elegeu Eduardo Braide e a Paraíba permaneceu sob uma coalizão mais centrista.
Portanto, existe resistência da esquerda, mas ela está territorialmente mais concentrada.
O Brasil está indo para a direita?
A resposta, considerando o resultado de 2026 até aqui, é sim, mas com uma ressalva importante.
O Brasil não está simplesmente se tornando bolsonarista.
Está se deslocando para um campo político mais amplo de direita, centro-direita e conservadorismo pragmático.
Esse movimento permite que políticos bastante diferentes convivam dentro da mesma tendência. Sergio Moro, Tarcísio de Freitas, Cleitinho, Eduardo Riedel e Raquel Lyra não representam exatamente o mesmo projeto político. Ainda assim, todos estão eleitoralmente mais distantes da esquerda do que dela próximos.
Existe outro indicador que reforça essa leitura.
Nas eleições para o Senado, o PL elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos neste domingo e deverá começar 2027 com 28 das 81 cadeiras, tornando-se a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988. O PT deverá ter nove senadores.
Quando o avanço aparece simultaneamente na Presidência, nos governos estaduais e no Senado, fica difícil tratar o fenômeno como uma soma de acontecimentos locais isolados.
Existe uma mudança real na correlação de forças do eleitorado brasileiro.
Ela ainda não significa que a esquerda tenha perdido sua capacidade de vencer eleições. Lula está no segundo turno presidencial, o PT continua muito forte em estados importantes do Nordeste e sete governos estaduais permanecem em disputa.
Mas o mapa deixado pelo primeiro turno oferece uma fotografia bastante nítida.
A esquerda ainda possui fortalezas. O centro continua decisivo. Mas, neste momento, o território político brasileiro está mais à direita do que estava quatro anos atrás.