Guerra de cassações: campanhas levam eleição ao TSE e disputam até os limites do que um governo pode prometer

Política Real
Colunista
5 leitura mínima

Partido Novo pede cassação de Lula e Alckmin por medidas sociais anunciadas em ano eleitoral. Campanha petista prepara ação contra Flávio Bolsonaro por suposta interferência da Meta, enquanto o PL já moveu processos contra a chapa adversária.

A cinco dias do segundo turno presidencial, a disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou uma dimensão que vai além das urnas. Enquanto os candidatos percorrem o país em busca de votos, partidos e advogados eleitorais se movimentam no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com ações que podem produzir consequências jurídicas depois do encerramento da votação.

Nesta terça-feira (20), o Partido Novo pediu a cassação da chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin (PSB), além da declaração de inelegibilidade dos dois por oito anos. A legenda acusa o governo federal de utilizar programas sociais, benefícios econômicos e decisões administrativas para favorecer a candidatura do presidente.

O argumento principal está na concentração de medidas anunciadas ao longo do ano eleitoral.

Segundo levantamento apresentado pelo Novo, o governo adotou 35 iniciativas consideradas de apelo popular entre janeiro e 16 de outubro. Desse total, 12 ocorreram durante o período oficial de campanha, iniciado em agosto.

Entre os exemplos estão o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, a antecipação de pagamentos do programa e medidas de incentivo econômico para trabalhadores e pequenos empresários.

A legenda calcula um impacto fiscal de aproximadamente R$ 73 bilhões e sustenta que a quantidade e o momento das decisões configuram abuso de poder político.

O governo apresenta justificativas diferentes. Segundo o Ministério do Planejamento, o reajuste do Bolsa Família corresponde à inflação acumulada pelo INPC desde a definição anterior dos valores. Já a antecipação de pagamentos foi relacionada à necessidade de proteger famílias vulneráveis diante de eventos climáticos.

A existência de benefícios em ano eleitoral não constitui, automaticamente, uma irregularidade. A legislação estabelece restrições à utilização da estrutura pública para favorecer candidaturas, mas também prevê condições para a continuidade de programas sociais e ações governamentais.

A discussão jurídica dependerá da origem dos recursos, da natureza de cada medida, de sua previsão legal e de eventuais evidências de utilização eleitoral indevida.

Enquanto isso, a campanha de Lula também passou a discutir a cassação da chapa adversária.

Os advogados do presidente prepararam uma ação de investigação judicial eleitoral contra Flávio Bolsonaro, baseada em alegações de favorecimento por mecanismos de inteligência artificial e distribuição de conteúdos da Meta, controladora do Instagram, Facebook e WhatsApp.

A campanha petista sustenta que problemas na entrega de publicações, diferenças na recomendação de perfis e restrições a anúncios prejudicaram Lula e favoreceram o candidato do PL.

A Meta nega interferência deliberada e afirma que seus sistemas são aplicados de maneira equivalente às candidaturas.

O campo bolsonarista também recorreu à Justiça Eleitoral. A equipe jurídica de Flávio já havia apresentado sete ações de investigação contra a chapa de Lula, envolvendo questionamentos sobre a participação de estruturas públicas, sindicatos, movimentos sociais e perfis digitais na campanha.

O resultado é uma disputa jurídica simultânea à disputa eleitoral.

Há, entretanto, uma distinção fundamental: protocolar uma ação não significa comprovar uma acusação. Pedidos de cassação precisam ser examinados pela Justiça Eleitoral, com apresentação de provas, direito de defesa e análise dos requisitos legais.

Os processos também não significam que a votação de domingo esteja suspensa ou que qualquer uma das candidaturas tenha sido automaticamente punida.

A movimentação revela um problema institucional mais amplo. Campanhas presidenciais passaram a disputar judicialmente não apenas publicações irregulares, mas também a utilização de políticas públicas, a atuação de plataformas digitais e os limites entre atividade governamental e propaganda eleitoral.

A eleição será decidida nas urnas em 25 de outubro. Mas parte das controvérsias sobre a legalidade das estratégias utilizadas poderá continuar nos tribunais mesmo depois da apuração dos votos.

Compartilhe este artigo