Em primeira transmissão após deixar o Brasil, senador anuncia ofensiva judicial contra o presidente reeleito e insiste em suspeitas sem provas. Nos Estados Unidos, integrantes do governo americano indicam que não há planos de reconhecer sua reivindicação de liderança.
Flávio Bolsonaro voltou a falar publicamente nesta sexta-feira (30), três dias depois de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos. Em uma transmissão pelas redes sociais, o senador afirmou que sua saída do país não representa fraqueza e declarou que pretende disputar novamente a Presidência antes de 2030.
O candidato derrotado também anunciou a intenção de apresentar uma ação eleitoral contra Luiz Inácio Lula da Silva, alegando abuso de poder político e econômico durante a campanha.
A manifestação ocorreu em um momento no qual sua estratégia enfrenta resistências dentro do próprio campo conservador e encontra uma resposta cautelosa em Washington.
Segundo integrantes da administração americana, Donald Trump não possui planos atuais de reconhecer Flávio como o legítimo vencedor da eleição brasileira.
A posição estabelece uma diferença importante entre oferecer autorização para a permanência do senador nos Estados Unidos e apoiar sua contestação ao resultado das urnas.
Uma nova eleição antes de 2030?
Durante a transmissão, Flávio afirmou que pretende voltar a disputar a Presidência antes da próxima eleição regular, prevista para 2030.
A declaração está relacionada à possibilidade de questionar judicialmente o mandato de Lula.
O senador anunciou que pretende apresentar uma ação por suposto abuso de poder político e econômico, mencionando decisões do governo relacionadas ao Bolsa Família durante o período eleitoral.
A apresentação de uma ação, entretanto, não significa que as acusações estejam comprovadas.
Para que uma investigação judicial eleitoral produza consequências sobre um mandato, é necessário demonstrar irregularidades graves, observar o direito de defesa e obter uma decisão das autoridades competentes.
Uma eventual cassação da chapa presidencial poderia abrir uma discussão sobre a realização de novas eleições, conforme as regras constitucionais e eleitorais aplicáveis.
Mas não existe, neste momento, decisão que determine a anulação do resultado ou a realização de outro pleito.
Flávio insiste em questionar os números
O senador voltou a levantar suspeitas sobre a totalização dos votos.
Afirmou considerar matematicamente impossível o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral, sem apresentar evidências capazes de demonstrar fraude.
Os dados oficiais mostram que Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A diferença foi de 4.430.191 votos.
O resultado foi proclamado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro.
A Justiça Eleitoral também disponibilizou informações detalhadas sobre a evolução da totalização, permitindo consultar os resultados por estado, município e outras divisões territoriais.
Até agora, não foram apresentados elementos que demonstrem alteração fraudulenta desses números.
Trump mantém distância da reivindicação
Nos Estados Unidos, a posição do governo Trump apresenta uma particularidade.
A administração americana participou das providências que permitiram a entrada de Flávio e de sua família no país.
Segundo autoridades familiarizadas com o episódio, o secretário de Estado, Marco Rubio, recomendou que o senador recebesse autorização de entrada, posteriormente aprovada pelo presidente americano.
A família foi admitida por meio de uma autorização migratória temporária de caráter humanitário.
Entretanto, integrantes do governo americano afirmam que Trump não pretende, neste momento, reconhecer a reivindicação de Flávio de ser o verdadeiro líder do Brasil.
Essas informações foram atribuídas a autoridades que falaram sob condição de anonimato. Não representam um comunicado formal da Casa Branca.
O próprio Trump questionou publicamente a condução da eleição brasileira, mas também afirmou que não havia apoiado oficialmente nenhum dos candidatos.
Além disso, declarou manter uma boa relação pessoal com Lula.
A postura indica que Washington procura preservar espaço para o diálogo diplomático, apesar da proximidade política de integrantes do governo americano com a família Bolsonaro.
A viagem continua sob investigação
Flávio afirmou que decidiu deixar o Brasil depois de receber uma intimação da Polícia Federal para entregar seus passaportes.
A determinação havia sido expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, no âmbito de investigações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro.
O senador nega irregularidades e afirma ser vítima de perseguição judicial.
Na transmissão, não apresentou esclarecimentos completos sobre a organização da viagem.
Sua saída ocorreu pela fronteira com a Argentina, seguida de um voo particular com escala no Equador e destino a Miami.
O episódio também provocou tensão diplomática com Buenos Aires.
Segundo integrantes do governo brasileiro, o Itamaraty chamou a representante diplomática argentina em Brasília para tratar das circunstâncias da passagem do senador pelo país.
O governo argentino contestou a informação de que tivesse recebido um pedido formal de explicações.
Uma disputa com consequências políticas
Flávio recebeu quase 60 milhões de votos e conserva uma base eleitoral expressiva.
Entretanto, sua estratégia de contestação não recebeu apoio institucional da direção nacional do PL.
Valdemar Costa Neto criticou a carta divulgada pelo senador, enquanto Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, reconheceu não possuir provas de fraude.
O governador Tarcísio de Freitas também defendeu o reconhecimento do resultado e a reorganização da oposição.
A situação cria duas frentes distintas para Flávio.
Na esfera jurídica, precisará demonstrar as irregularidades que afirma terem ocorrido.
Na esfera política, terá de administrar divergências com aliados que pretendem concentrar seus esforços na próxima legislatura.
A autorização para permanecer nos Estados Unidos não resolve nenhuma dessas questões.
E a cautela demonstrada por integrantes do governo Trump indica que o apoio americano à presença de Flávio no país não se traduz, necessariamente, em respaldo à sua reivindicação eleitoral.
A disputa presidencial terminou com um vencedor proclamado. Flávio pretende reabrir a discussão, mas ainda não apresentou os elementos necessários para modificar esse resultado.