Hugo Motta articula reforma eleitoral com partidos de centro e pretende votar mudanças ainda em 2026. Proposta prevê voto distrital misto e novas regras para propaganda digital, mas seus efeitos dependerão do modelo aprovado.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, anunciou nesta quarta-feira (28) que pretende levar à votação, ainda em 2026, uma proposta capaz de modificar profundamente a maneira como os brasileiros escolhem seus representantes no Congresso, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais.
A iniciativa prevê a adoção do voto distrital misto, sistema que combina a escolha de candidatos vinculados a regiões geográficas com a votação em partidos.
O anúncio ocorreu depois de uma reunião com dirigentes de legendas de centro e centro-direita, entre elas União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e a federação PSDB-Cidadania.
Motta também anunciou a criação de um grupo de trabalho para discutir novas regras de propaganda eleitoral nas plataformas digitais.
A articulação acontece três dias depois do segundo turno presidencial e em um momento de reorganização das forças políticas no Congresso.
Como funciona o voto distrital misto
Atualmente, deputados federais, estaduais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional.
O eleitor pode votar em um candidato ou em uma legenda, mas a distribuição das cadeiras depende da votação obtida pelos partidos e federações, além das regras aplicáveis aos candidatos.
No sistema distrital misto, o eleitor participa de duas dimensões da representação política.
Uma delas envolve a escolha de um representante vinculado a determinada região geográfica.
A outra considera o desempenho dos partidos, permitindo uma distribuição proporcional de cadeiras conforme o modelo adotado.
A proposta busca combinar representação territorial e representação partidária.
Seus defensores argumentam que esse formato pode aproximar parlamentares dos eleitores e facilitar a identificação de quem representa determinada comunidade.
Entretanto, os resultados dependem diretamente das regras utilizadas para definir os distritos e distribuir as cadeiras.
Sem conhecer o texto definitivo, ainda não é possível determinar como funcionaria a compensação proporcional nem quais seriam os efeitos sobre partidos pequenos e médios.
Por que discutir a mudança agora?
A eleição de 2026 produziu uma nova composição parlamentar.
O PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados federais, enquanto diferentes partidos de centro conservarão representação importante.
A proposta de reforma surge antes da posse dos novos parlamentares, prevista para fevereiro de 2027.
Esse calendário possui relevância institucional.
A atual legislatura será responsável por discutir uma alteração que poderá modificar as condições de competição das próximas eleições.
Motta afirmou que pretende buscar entendimento com todas as legendas, incluindo PT, PL e Novo.
A proposta deverá ser apresentada por meio de uma emenda constitucional.
Para ser aprovada, precisará obter três quintos dos votos dos deputados e senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.
Portanto, o anúncio não significa que a mudança esteja aprovada ou que exista consenso parlamentar.
A transição até 2034
Segundo o presidente da Câmara, a implementação integral do voto distrital misto está sendo discutida para 2034.
As eleições de 2030 poderiam utilizar um modelo de transição.
O objetivo declarado é permitir adaptação gradual às novas regras.
A definição desse período será importante porque alterações no sistema eleitoral afetam o planejamento partidário, a distribuição de candidaturas e a organização das campanhas.
Também será necessário estabelecer como os distritos serão delimitados.
Esse é um dos pontos mais sensíveis de qualquer sistema baseado em representação territorial.
Dependendo dos critérios adotados, a divisão geográfica pode influenciar a competitividade dos partidos e a representação de diferentes grupos sociais.
Por isso, mecanismos transparentes de delimitação e revisão dos distritos serão essenciais para avaliar a proposta.
As redes sociais entram na discussão
A segunda frente anunciada por Motta envolve a propaganda eleitoral digital.
O presidente da Câmara afirmou que pretende estabelecer critérios mais claros para o funcionamento das campanhas nas plataformas.
A proposta será discutida por um grupo de trabalho com representantes dos partidos.
Entre os assuntos que poderão integrar o debate estão a transparência dos anúncios, a igualdade de condições entre candidatos e os critérios utilizados pelas empresas para distribuir conteúdos políticos.
Motta declarou que não pretende restringir a liberdade de expressão, mas estabelecer regras conhecidas e aplicáveis às diferentes candidaturas.
A discussão ocorre depois de uma eleição marcada por controvérsias sobre impulsionamento, alcance de publicações e funcionamento de algoritmos.
Entretanto, o conteúdo específico da futura proposta ainda não foi apresentado.
Não é possível afirmar quais obrigações serão impostas às plataformas ou quais mecanismos de fiscalização serão adotados.
A reforma pode mudar a representação política
A discussão sobre o voto distrital misto envolve escolhas institucionais relevantes.
Um sistema que aproxima representantes de territórios pode facilitar a identificação de responsabilidades políticas.
Por outro lado, sua implementação precisa considerar o risco de concentração regional de poder e a representação de grupos que possuem apoio distribuído por diferentes localidades.
A dimensão proporcional do modelo pode reduzir parte dessas distorções, dependendo de sua formulação.
O mesmo cuidado será necessário na regulamentação digital.
Regras transparentes podem melhorar a fiscalização eleitoral, mas precisam preservar direitos fundamentais e evitar restrições desproporcionais ao debate público.
A Câmara iniciou uma discussão que ultrapassa os interesses dos partidos atualmente representados no Congresso.
O resultado poderá modificar a maneira como milhões de brasileiros votam e são representados.
Antes disso, porém, será necessário conhecer o texto, avaliar seus efeitos e verificar se existe apoio parlamentar suficiente para transformar a proposta em mudança constitucional.