Em primeira transmissão dos Estados Unidos, senador afirma que nem o pai sabia de seus planos, nega ter fugido e promete continuar comandando a oposição. Declarações ocorrem após críticas à sua viagem e à carta que contestou a eleição.
Flávio Bolsonaro apareceu publicamente nesta sexta-feira (30) pela primeira vez desde que chegou aos Estados Unidos. Em uma transmissão ao vivo pelas redes sociais, o senador tentou explicar sua saída do Brasil, afastar suspeitas sobre a participação de familiares e aliados e demonstrar que pretende continuar exercendo influência política mesmo distante do país.
A principal declaração veio quando Flávio assumiu a responsabilidade pessoal pela viagem.
Segundo ele, a decisão foi tomada exclusivamente com sua esposa, Fernanda Bolsonaro, sem conhecimento prévio de outras pessoas.
O senador pediu que seus apoiadores não responsabilizassem aliados pelo episódio e afirmou que avisar outras pessoas poderia comprometer a operação.
A explicação surge em um momento de desconforto dentro do próprio PL, provocado tanto pela viagem quanto pela carta em que Flávio inicialmente se apresentou como o verdadeiro presidente eleito, apesar da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma decisão mantida em segredo
Durante a transmissão, Flávio relatou que esteve com Jair Bolsonaro na segunda-feira (26), um dia depois da eleição.
A visita ocorreu antes de ele receber uma intimação relacionada à determinação do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes e não deixar o território nacional.
Segundo sua versão, a decisão de viajar foi tomada depois desse episódio.
O senador afirmou que não comunicou previamente os planos ao pai nem aos principais integrantes de sua campanha.
O relato é compatível com declarações recentes de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, que afirmou desconhecer a viagem e disse que Jair Bolsonaro também não havia sido informado.
A manifestação procura afastar aliados de eventuais questionamentos sobre a organização da saída.
Entretanto, não esclarece integralmente quem participou dos procedimentos logísticos necessários para o deslocamento internacional.
Flávio atravessou a fronteira com a Argentina e seguiu para Miami em uma aeronave particular, com escala no Equador.
A participação de autoridades estrangeiras na operação continua sendo objeto de questionamentos diplomáticos.
Ele nega ter fugido
Flávio também rejeitou a caracterização de sua saída como fuga.
Na transmissão, afirmou que deixou o país para continuar exercendo sua liberdade de manifestação política.
Segundo o senador, permanecer no Brasil poderia resultar em novas restrições judiciais.
Ele comparou sua situação à de Jair Bolsonaro, que viajou para os Estados Unidos depois da derrota presidencial de 2022.
A justificativa, entretanto, precisa ser distinguida dos fatos jurídicos.
Flávio estava submetido a uma determinação judicial que restringia sua saída do Brasil e exigia a entrega dos passaportes.
Ao deixar o território nacional, descumpriu essa ordem.
O senador é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas financeiras, mas nega irregularidades.
Até o momento, sua saída do país não representa, por si só, uma condenação criminal nem implica automaticamente a existência de uma ordem de prisão.
A carta que dividiu o PL
A transmissão ocorreu depois de uma sequência de manifestações críticas dentro do próprio campo conservador.
Valdemar Costa Neto declarou que não gostou da carta divulgada pelo senador nos Estados Unidos e afirmou que ninguém na direção do PL havia aprovado o documento.
Rogério Marinho, coordenador da campanha presidencial, reconheceu não possuir provas capazes de sustentar acusações de fraude eleitoral.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, defendeu o reconhecimento do resultado e a reorganização da oposição.
A Justiça Eleitoral também reafirmou a legitimidade da votação.
Diante dessas manifestações, a decisão de Flávio de assumir sozinho a responsabilidade pela viagem possui uma dimensão política.
Ela permite separar o comportamento pessoal do senador das posições institucionais de seus aliados.
Isso não significa que as divergências estejam resolvidas.
O plano de comandar a oposição
Flávio afirmou que pretende continuar participando do debate político brasileiro a partir dos Estados Unidos.
Segundo ele, o Congresso Nacional deverá ser o principal espaço de resistência ao próximo governo Lula.
O senador também anunciou apoio a Rogério Marinho para a Presidência do Senado, cuja eleição ocorrerá em fevereiro de 2027.
A declaração demonstra que Flávio pretende conservar protagonismo nas negociações políticas, apesar da distância física e do encerramento próximo de seu mandato parlamentar.
Sua cadeira no Senado ficará vaga em 31 de janeiro.
Como disputou a Presidência da República e não concorreu à reeleição para senador, ele não integrará a próxima legislatura.
Isso não impede sua participação no debate político, mas modifica os instrumentos institucionais de que disporá.
A oposição terá de funcionar sem sua presença
A transmissão também revelou uma tensão entre o discurso de liderança e a situação concreta de Flávio.
Ele afirma que pretende organizar a oposição, mobilizar apoiadores e influenciar decisões do Congresso.
Entretanto, os parlamentares eleitos terão de negociar, votar e responder por suas decisões no exercício de seus mandatos.
O senador conserva uma votação presidencial expressiva e relações com dirigentes partidários.
Esses fatores podem sustentar sua influência política mesmo fora do país.
Mas influência não equivale a comando institucional.
A capacidade de transformar suas orientações em decisões dependerá da disposição dos parlamentares de acompanhá-las.
O que a live esclareceu — e o que permaneceu aberto
A primeira transmissão ofereceu uma versão pessoal da viagem.
Flávio afirmou que decidiu sair com a esposa, sem consultar familiares ou aliados, e pediu que ninguém fosse responsabilizado.
Também reafirmou que pretende continuar atuando politicamente e contestando a eleição.
Entretanto, não apresentou provas das irregularidades eleitorais que voltou a insinuar.
Tampouco esclareceu completamente a participação de autoridades estrangeiras na organização do deslocamento.
Sua manifestação pode reduzir a pressão sobre pessoas próximas, mas não elimina as questões jurídicas e diplomáticas provocadas pela viagem.
O senador escolheu assumir a responsabilidade pela decisão.
Agora, precisará administrar também suas consequências políticas, em um cenário no qual parte de seus antigos aliados já demonstra preferência por seguir adiante e organizar a oposição dentro das instituições brasileiras.