Flávio quer escolher o presidente do Senado, mas em fevereiro nem terá direito a voto

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Dos Estados Unidos, senador anuncia apoio a Rogério Marinho e pede mobilização contra Lula. Sem mandato na próxima legislatura, porém, dependerá dos parlamentares que permanecerão em Brasília para transformar sua preferência em realidade.

Flávio Bolsonaro anunciou nesta sexta-feira (30) que pretende indicar Rogério Marinho para a Presidência do Senado Federal. A declaração foi feita durante sua primeira transmissão ao vivo dos Estados Unidos, três dias depois de deixar o Brasil após a derrota na eleição presidencial.

O senador apresentou o Congresso como principal espaço de oposição ao próximo governo Lula e pediu que seus apoiadores pressionem parlamentares para votar em Marinho.

Há, entretanto, uma particularidade que modifica o peso institucional dessa manifestação: Flávio não participará da eleição para a Presidência do Senado.

Seu mandato termina em 31 de janeiro de 2027.

A escolha do novo presidente da Casa ocorrerá no dia seguinte, quando os senadores eleitos e aqueles que ainda possuem mandato se reunirão para definir a Mesa Diretora.

Flávio poderá apoiar, defender e negociar politicamente uma candidatura. Mas não terá cadeira, voto ou qualquer prerrogativa formal para determinar quem comandará o Senado.

A diferença entre indicar politicamente e escolher institucionalmente é o ponto central dessa disputa.

O Senado não funciona por indicação pessoal

A Constituição Federal e o Regimento Interno do Senado estabelecem que a Presidência da Casa é escolhida pelos próprios senadores.

A eleição ocorrerá em 1º de fevereiro de 2027, durante reunião preparatória da nova legislatura.

A votação será secreta, e o candidato precisará conquistar a maioria absoluta dos votos, equivalente a 41 senadores.

Não existe previsão para que um ex-senador, candidato presidencial derrotado ou dirigente político externo ao Parlamento nomeie o presidente da instituição.

Isso não impede que partidos e lideranças apresentem preferências.

É comum que presidentes da República, dirigentes partidários e políticos influentes participem das articulações para a formação das Mesas do Congresso.

Entretanto, essas manifestações não substituem a eleição parlamentar.

A legitimidade institucional do futuro presidente virá dos votos dos senadores, não da vontade de Flávio Bolsonaro ou de qualquer outra liderança.

A cadeira que Flávio decidiu não disputar

Eleito senador pelo Rio de Janeiro em 2018, Flávio iniciou seu mandato em fevereiro de 2019.

Ao optar pela candidatura presidencial em 2026, deixou de concorrer à renovação de sua cadeira.

A derrota para Lula significa que, pela primeira vez desde 2003, ele ficará sem mandato eletivo.

Sua situação é diferente da de Rogério Marinho.

O senador potiguar foi eleito em 2022 e possui mandato até janeiro de 2031.

Portanto, poderá participar da próxima legislatura e disputar a Presidência da Casa, desde que observe as regras regimentais.

Flávio, por sua vez, estará fora da composição parlamentar responsável pela decisão.

A saída para os Estados Unidos não provocou automaticamente a perda antecipada de seu mandato atual.

Mas também não altera o fato de que ele terminará em janeiro.

A política não fica esperando

O anúncio de Flávio também precisa ser analisado à luz das movimentações que já ocorrem em Brasília.

Davi Alcolumbre trabalha para preservar sua posição no comando do Senado.

Tereza Cristina, do PP, também aparece nas discussões sobre uma possível candidatura.

Rogério Marinho, por sua vez, representa uma alternativa ligada ao PL e à oposição conservadora.

São articulações que envolvem diferentes bancadas, interesses regionais e negociações entre partidos.

O apoio de Flávio pode ajudar Marinho a mobilizar parte do eleitorado bolsonarista.

Mas não resolve a principal dificuldade de qualquer candidatura: conquistar 41 votos entre os integrantes do Senado.

O próprio Marinho conhece esse desafio.

Em 2023, disputou a Presidência da Casa contra Rodrigo Pacheco e perdeu por 49 votos a 32.

A experiência demonstra que o apoio de uma liderança política não substitui a construção de uma maioria parlamentar.

A contradição entre ausência e comando

Ao deixar o Brasil, Flávio afirmou que precisava preservar sua capacidade de manifestação política.

Na transmissão desta sexta-feira, voltou a defender essa decisão e disse que pretende continuar influenciando a oposição a partir do exterior.

Essa é uma escolha que ele apresenta como necessária diante de sua situação judicial.

Mas a política institucional possui uma dinâmica própria.

Deputados e senadores continuarão negociando o Orçamento, votando projetos, escolhendo dirigentes e formando alianças.

Essas decisões não poderão ficar suspensas até que Flávio resolva sua situação no exterior.

O PL terá uma bancada numerosa e precisará definir sua atuação no Congresso.

Seus parlamentares poderão considerar as orientações do senador, mas terão responsabilidades próprias perante o partido, os eleitores e as instituições.

O espaço deixado por uma liderança ausente não permanece necessariamente vazio.

Outros dirigentes podem ocupá-lo por meio de articulações, acordos e exercício cotidiano de suas funções.

Rogério Marinho não depende apenas de Flávio

A candidatura de Marinho possui fundamentos políticos que ultrapassam a manifestação do senador.

Ele exerce mandato até 2031, atua como líder da oposição e mantém relações com integrantes de diferentes bancadas.

Também foi coordenador da campanha presidencial de Flávio.

Entretanto, demonstrou independência ao reconhecer que não existem provas de fraude na eleição vencida por Lula.

Essa diferença é relevante porque a eleição para a Presidência do Senado exigirá diálogo com parlamentares que reconheceram o resultado presidencial e pretendem concentrar seus esforços na próxima legislatura.

Marinho poderá buscar apoio entre esses grupos.

Mas sua candidatura dependerá de negociações próprias, e não apenas da mobilização organizada por Flávio.

A autoridade que será testada em fevereiro

Flávio recebeu quase 60 milhões de votos na eleição presidencial.

Esse resultado lhe assegura relevância política e capacidade de mobilização.

Não lhe concede, porém, autoridade constitucional sobre o Senado.

Ao anunciar uma indicação dos Estados Unidos, o senador tenta preservar protagonismo em uma instituição da qual deixará de fazer parte.

A escolha pode produzir efeitos políticos, mas não possui força obrigatória.

O próximo presidente do Senado será eleito pelos parlamentares que assumirão suas cadeiras em fevereiro.

Eles poderão ouvir Flávio, negociar com o PL e considerar o apoio de sua base eleitoral.

Mas a decisão será deles.

O senador escolheu deixar o país e não estará presente como integrante da próxima legislatura.

Isso não elimina sua influência, mas impõe um limite objetivo ao exercício de sua liderança.

Em Brasília, o poder não depende apenas de quem fala mais alto ou reúne mais seguidores. Depende também de quem possui mandato, articula maiorias e conquista votos.

E, quando uma cadeira fica vazia, a política continua.

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