Lula chama três marqueteiros para salvar a campanha, mas talvez o problema não esteja na publicidade

Política Real
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Presidente reforça equipe com profissionais das campanhas de João Campos, Haddad e Jerônimo Rodrigues para adotar uma comunicação mais jovem, digital e combativa. Enquanto Flávio acumula apoios políticos, Lula tenta reorganizar uma campanha que ele próprio chamou de a mais desorganizada desde 1989. Mas será que o problema é apenas da equipe?

Lula decidiu chamar reforços para tentar recuperar o terreno perdido no primeiro turno. Três novos marqueteiros foram incorporados à campanha presidencial com a missão de modernizar a comunicação, ampliar a presença digital e adotar um discurso mais combativo contra Flávio Bolsonaro. A decisão acontece depois de uma semana de cobranças internas, críticas à coordenação petista e uma constatação incômoda: o presidente terminou a primeira votação atrás de um adversário que sua própria campanha parecia acreditar que conseguiria derrotar.

Os escolhidos são Rafael Marroquim, que trabalhou com João Campos em Pernambuco; Otávio Antunes, responsável pela comunicação de Fernando Haddad em São Paulo; e Bruno Monteiro, que participou da campanha vitoriosa de Jerônimo Rodrigues na Bahia.

A composição tem uma curiosidade. Dois profissionais chegam de campanhas derrotadas. João Campos perdeu para Raquel Lyra, enquanto Haddad foi derrotado por Tarcísio de Freitas. O terceiro vem da reeleição de Jerônimo, que venceu no primeiro turno com 55,79% dos votos válidos. Evidentemente, o desempenho de um candidato não pode ser atribuído exclusivamente ao seu marqueteiro, mas o histórico dos novos integrantes ajuda a compreender a aposta do PT em experiências regionais bastante diferentes.

A intenção é abandonar uma comunicação considerada excessivamente institucional, centrada nas realizações do governo, e aproximar Lula da linguagem das redes sociais. Vídeos gravados pelo próprio presidente, conteúdos mais espontâneos, mensagens direcionadas aos jovens e ataques mais diretos às propostas de Flávio deverão ganhar espaço. O marqueteiro Raul Rabelo permanece na equipe, agora reforçada por profissionais com experiências distintas.

A mudança não ficou restrita à publicidade. Lula também convocou Camilo Santana para a articulação política, Rui Costa para organizar a agenda e Rafael Fonteles para colaborar com a comunicação, reduzindo na prática a concentração de decisões nas mãos de Edinho Silva, presidente do PT e alvo de críticas pela condução do primeiro turno.

É uma reorganização ampla para quem dispõe de pouco mais de duas semanas até a eleição. Mas existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que descobrir quem produzirá os próximos programas eleitorais: será que a campanha de Lula precisa apenas de uma comunicação diferente ou o próprio presidente precisa mudar sua maneira de disputar a eleição?

Na quarta-feira, diante de parlamentares aliados, Lula afirmou que esta foi a campanha menos organizada de que participou desde 1989. Reconheceu que poderia ter feito mais e admitiu ter estranhado o resultado do primeiro turno, já que acreditava que as entregas de seu governo seriam suficientes para colocá-lo à frente.

A declaração merece atenção porque revela uma dificuldade que não se resolve simplesmente contratando publicitários. Quando um presidente acredita que suas realizações deveriam garantir determinado resultado eleitoral, mas descobre nas urnas que uma parcela expressiva da população pensa de outra maneira, o problema também envolve sua leitura sobre o sentimento do país.

E essa percepção precisa ser enfrentada por quem ocupa o centro da campanha, não apenas pelos profissionais encarregados de comunicá-la.

Há outro contraste curioso. Desde domingo, Flávio Bolsonaro vem transformando o segundo turno em uma sequência de articulações políticas. Recebeu apoios de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, reuniu 14 governadores eleitos e avançou nas negociações com partidos importantes. Cada adesão amplia suas possibilidades de mobilização regional, embora não signifique transferência automática dos votos dessas lideranças.

Lula, enquanto isso, passou os primeiros dias depois da eleição em Brasília, reunido com dirigentes, ministros e assessores. Seu primeiro ato público de campanha no segundo turno está previsto apenas para esta sexta-feira, dia 9, em Ceilândia, no Distrito Federal, seguido de uma viagem ao Rio Grande do Norte.

Não significa que essas reuniões sejam desnecessárias. Uma campanha presidencial exige organização, negociação partidária e planejamento. A questão é que Lula precisa conciliar essas tarefas com a exposição pública de um candidato que procura conquistar votos fora de sua base tradicional.

A primeira pesquisa Datafolha do segundo turno mostrou Flávio com 52% dos votos válidos e Lula com 48%, um empate técnico no limite da margem de erro. O resultado não permite antecipar o desfecho da disputa, mas confirma que o presidente não dispõe de uma vantagem confortável enquanto reorganiza sua equipe.

Existe ainda um desafio particular na tentativa de apresentar Lula com uma linguagem mais jovem. Modernizar a forma de comunicação não significa necessariamente renovar o conteúdo político. Um vídeo vertical, gravado sem grandes recursos e distribuído pelo Instagram, pode aproximar o candidato de públicos que antes não o acompanhavam. Mas dificilmente convencerá alguém insatisfeito com o governo se continuar oferecendo apenas uma versão mais informal dos mesmos argumentos.

Lula também pretende endurecer o confronto, explorando questões como segurança pública, direitos trabalhistas, escala 6×1 e possíveis consequências das propostas econômicas de Flávio. São temas concretos que podem produzir debates importantes, desde que as críticas sejam acompanhadas de informações verificáveis e respostas para os problemas atuais.

Afinal, o eleitor pode reconhecer as realizações de um governo e ainda desejar mudanças. Essa distinção talvez tenha sido subestimada no primeiro turno, quando a campanha petista insistiu na defesa do legado presidencial enquanto Flávio procurava associar sua candidatura à ideia de um novo ciclo político.

A contratação dos três marqueteiros pode melhorar a execução da campanha, corrigir falhas digitais e dar mais clareza ao discurso presidencial. Mas nenhuma dessas mudanças resolve automaticamente as dificuldades políticas que apareceram nas urnas.

Lula conhece campanhas presidenciais como poucos brasileiros. Participa delas desde 1989, acumulou vitórias, derrotas e uma experiência eleitoral que atravessa gerações. Justamente por isso, sua surpresa com o primeiro turno chama atenção.

Ao responsabilizar a desorganização da campanha pelo resultado, o presidente reconhece uma parte do problema. Falta descobrir se também está disposto a examinar as decisões que tomou, as mensagens que priorizou e a distância entre aquilo que seu governo considera ter realizado e aquilo que uma parcela dos brasileiros efetivamente percebe.

A publicidade pode transformar a apresentação de um candidato, mas não substitui sua capacidade de interpretar o momento político. E talvez seja essa a questão mais importante para Lula neste segundo turno: antes de encontrar uma nova maneira de falar com o Brasil, ele precisa demonstrar que compreendeu o que o Brasil lhe disse nas urnas.

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