Um relatório da Polícia Federal aponta a hipótese de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli seria o “beneficiário final” ou o “proprietário de fato” do Fundo de Investimento em Participações Arleen. A informação foi revelada pela revista Piauí em reportagem publicada na quinta-feira (10).
Segundo o documento da corporação, o fundo teria recebido ao menos R$ 35 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Posteriormente, por meio de uma operação envolvendo a empresa Egide I, os recursos foram transferidos para uma estrutura registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
O fundo Arleen atuava como sócio do Tayayá, resort ligado a Toffoli e a familiares do ministro em Ribeirão Claro, no Paraná. De acordo com a PF, a estrutura pertencia a Vorcaro e, em fevereiro de 2025, foi transferida para o empresário Alberto Leite, proprietário da empresa FS Security e amigo do ministro. No mês seguinte, Leite registrou a Egide I no exterior e alterou o regulamento do fundo para autorizar aplicações fora do país. Em dezembro, cerca de R$ 34 milhões foram enviados para a offshore na liquidação da carteira.
Ao avaliar as operações, os investigadores destacaram que o conjunto de elementos reunidos sugeria a possibilidade de Toffoli figurar como o beneficiário final do Arleen e mencionou a hipótese do uso de “interpostas pessoas e estruturas no exterior”. Em declaração anterior ao jornal Folha de S.Paulo, Leite afirmou que a compra do fundo foi uma transação imobiliária legal e lucrativa, negando favorecimento ou vínculo societário com o magistrado.
Apuração sobre precatórios e outros vínculos
O documento da PF também investiga se Vorcaro tentou influenciar o posicionamento de Toffoli em processo sobre precatórios da destilaria Alcídia, do grupo Atvos. O Banco Master geria uma carteira no setor sucroalcooleiro superior a R$ 10 bilhões. O julgamento ocorreu em outubro de 2024, ocasião em que o ministro votou a favor da usina. À revista Piauí, o gabinete de Toffoli negou qualquer alteração de posicionamento. A própria PF frisou no texto que os elementos “não sendo no presente momento suficientes para conclusões definitivas”.
O levantamento também apontou ao menos 12 registros de encontros entre Toffoli e o ex-banqueiro, classificados pelos policiais como não estritamente profissionais, além de indicar que a advogada Roberta Rangel, então esposa do magistrado, prestou serviços a Vorcaro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025.
O relatório policial foi submetido ao presidente do Supremo, Edson Fachin. Como Toffoli era relator do caso envolvendo o Banco Master, a PF chegou a pedir a sua suspeição. O ministro, contudo, decidiu deixar a relatoria por iniciativa própria, o que levou ao arquivamento do pedido por perda de objeto. A condução do processo foi redistribuída em fevereiro ao ministro André Mendonça, que retirou parcialmente o sigilo dos autos, mantendo sob reserva o documento arquivado que mencionava Toffoli.