Derrotado na eleição presidencial, senador chegou aos Estados Unidos após descumprir ordem de entrega dos passaportes. Governo americano anuncia concessão de vistos, enquanto a Polícia Federal investiga como ele deixou o país.
A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, menos de 48 horas depois de sua derrota na eleição presidencial, transformou uma investigação judicial em um episódio com possíveis consequências diplomáticas. Nesta terça-feira (27), interlocutores ligados ao governo americano confirmaram que o senador chegou aos Estados Unidos, acompanhado da esposa e das duas filhas.
A viagem ocorreu depois de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que havia proibido Flávio de deixar o território brasileiro e ordenado a entrega de seus passaportes à Polícia Federal.
O prazo terminou na manhã de terça-feira sem que os documentos fossem apresentados. A PF comunicou o descumprimento ao Supremo e cancelou os passaportes brasileiros do parlamentar.
A questão agora ultrapassa seu paradeiro. O governo de Donald Trump anunciou que concederá vistos a Flávio e seus familiares, permitindo sua entrada e permanência em território americano, enquanto autoridades brasileiras procuram esclarecer as circunstâncias da viagem.
A saída que ninguém conseguiu explicar
Durante a madrugada, surgiram informações de que Flávio teria atravessado a fronteira brasileira com a Argentina utilizando um documento de identidade.
O destino intermediário seria Puerto Iguazú, de onde embarcaria em uma aeronave particular rumo aos Estados Unidos.
Autoridades argentinas, entretanto, negaram ter encontrado registros de sua entrada no país. Também informaram que uma aeronave mencionada nos relatos havia sido inspecionada sem que fossem identificados documentos relacionando seus passageiros à família Bolsonaro.
A Polícia Federal brasileira não encontrou registro de saída regular do senador pelos controles migratórios.
Posteriormente, pessoas próximas à família e interlocutores do governo americano confirmaram sua chegada aos Estados Unidos. Uma fonte indicou a Flórida como destino.
Até o fechamento desta reportagem, não havia esclarecimento público sobre o percurso efetivamente realizado, os documentos utilizados ou a participação de terceiros na organização da viagem.
A ausência dessas informações impede estabelecer como Flávio deixou o Brasil depois de receber uma ordem judicial que restringia seus deslocamentos internacionais.
A decisão de Moraes
A proibição de viagem foi determinada no âmbito de uma investigação envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz.
A Polícia Federal apura suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a operações financeiras e negócios no setor de apostas.
Ambos negam irregularidades.
Ao determinar a entrega dos documentos, Moraes considerou elementos apresentados pela investigação sobre possível risco de fuga. Entre eles estavam declarações de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, que havia defendido publicamente sua saída do Brasil caso fosse derrotado na eleição.
Na segunda-feira, Flávio criticou a decisão e afirmou que não pretendia abandonar o país.
Disse também que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao quarto mandato de Lula.
Menos de um dia depois, deixou de responder a interlocutores políticos e passou a ser procurado por integrantes de sua própria equipe.
A saída internacional foi confirmada posteriormente por pessoas próximas à família e por fontes americanas.
O envolvimento do governo Trump
A dimensão diplomática do episódio ganhou força quando uma autoridade do Departamento de Estado americano informou que os Estados Unidos concederiam vistos a Flávio e seus familiares.
A decisão significa que Washington está disposto a permitir sua entrada no país.
Não equivale, entretanto, à concessão de asilo político.
Vistos e asilo possuem naturezas jurídicas diferentes. O primeiro permite ingresso e permanência conforme condições específicas. O segundo envolve um procedimento de proteção internacional, com requisitos próprios.
Também não foi demonstrado publicamente que o governo americano tenha participado da retirada de Flávio do território brasileiro.
Aliados da família atribuíram a articulação ao secretário de Estado Marco Rubio, mas essa participação não foi confirmada oficialmente.
A distinção é importante porque a autorização de entrada e a participação em uma operação destinada a contornar uma ordem judicial estrangeira são acontecimentos juridicamente diferentes.
Lula reage e oposição se divide
Durante a comemoração de seu aniversário de 81 anos, Lula classificou a saída de Flávio como vergonhosa.
O presidente afirmou que o senador deveria ter cumprido a determinação judicial e permanecido no país para apresentar sua defesa.
A manifestação contrasta com a posição de Sergio Moro, governador eleito do Paraná, que considerou compreensível a decisão de Flávio diante do que descreveu como ausência de normalidade institucional.
A divergência demonstra como o episódio passou a ser interpretado politicamente por aliados e adversários.
Parlamentares do PT solicitaram a prisão preventiva do senador e a adoção de medidas internacionais para sua localização.
Entretanto, até o fechamento desta reportagem, não havia confirmação de mandado de prisão expedido contra Flávio.
Por isso, embora sua saída tenha ocorrido em desacordo com uma restrição judicial, a condição jurídica de foragido não pode ser confundida automaticamente com a existência de uma ordem de prisão.
Uma nova tensão diplomática
A presença de Flávio nos Estados Unidos poderá acrescentar dificuldades à relação entre Brasília e Washington.
Lula e Trump vinham reconstruindo canais de negociação depois de conflitos comerciais e políticos.
Agora, o governo americano oferece entrada ao principal adversário eleitoral do presidente brasileiro, justamente quando ele enfrenta uma investigação conduzida pelo Supremo.
O episódio também produz consequências para o PL.
Flávio havia anunciado que lideraria a oposição ao novo mandato de Lula. Sua permanência fora do país poderá modificar a maneira como exercerá essa função.
Seu mandato no Senado termina em janeiro de 2027.
A viagem, portanto, ocorre em um momento de transição política e institucional.
A principal questão deixou de ser se Flávio conseguiu chegar aos Estados Unidos. As informações disponíveis apontam que isso ocorreu.
O que ainda precisa ser esclarecido é como ele deixou o Brasil, se houve participação de terceiros no descumprimento da ordem judicial e qual será a resposta das autoridades brasileiras e americanas.
A eleição terminou no domingo. Suas consequências políticas e diplomáticas continuam se desenvolvendo.