Primeira eleição desde o início da guerra em Gaza registra participação histórica, mas não define quem governará o país. Disputa envolve segurança, religião e democracia, enquanto seus desdobramentos podem atingir o petróleo, a agricultura e as relações diplomáticas do Brasil.
Israel encerrou nesta terça-feira (27) uma das eleições mais importantes de sua história recente sem uma resposta definitiva sobre quem comandará o país. As primeiras pesquisas de boca de urna apontaram perda de força da coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, mas também revelaram que a oposição não dispõe de uma maioria parlamentar consolidada para substituí-lo.
A votação ocorreu sob o impacto dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, da guerra na Faixa de Gaza e dos confrontos regionais envolvendo Irã e Líbano. Mais de 77% dos eleitores compareceram às urnas, em uma participação que não era registrada havia décadas.
O resultado preliminar revela um país profundamente dividido. E suas consequências poderão ultrapassar o Oriente Médio, alcançando inclusive a economia brasileira.
Netanyahu perdeu a eleição?
Ainda não é possível afirmar.
Israel possui um sistema parlamentarista. Diferentemente do Brasil, os cidadãos não elegem diretamente o primeiro-ministro. Votam em partidos que disputam as 120 cadeiras do Parlamento, conhecido como Knesset.
Para formar uma coalizão majoritária, um líder precisa reunir pelo menos 61 deputados.
As primeiras projeções das principais emissoras israelenses atribuíram aproximadamente 50 cadeiras ao bloco de Netanyahu, entre 51 e 53 aos partidos de oposição liderados por Gadi Eisenkot e até 18 aos partidos árabes.
Outras projeções apresentaram números diferentes, mas também apontaram dificuldades para a formação de uma maioria.
O Likud, partido de Netanyahu, apareceu como a maior legenda individual. Isso, porém, não garante que seu líder continue governando.
O presidente Isaac Herzog deverá consultar os partidos após a apuração e escolher o parlamentar com melhores condições de formar um governo.
Se as negociações fracassarem, Israel poderá enfrentar uma nova eleição.
Uma sociedade marcada pela guerra
A disputa eleitoral aconteceu em um ambiente de desgaste social e profundas divergências sobre o futuro do país.
Netanyahu defendeu sua experiência na segurança nacional e a necessidade de manter uma política militar firme contra Hamas, Hezbollah e Irã.
Seus adversários concentraram críticas na condução das guerras, nas falhas de segurança que permitiram os ataques de outubro de 2023 e nas tentativas de modificar o equilíbrio entre governo e Judiciário.
Outro tema mobilizou o eleitorado: o serviço militar obrigatório.
Em Israel, grande parte da população judaica está sujeita ao recrutamento, enquanto homens ultraortodoxos historicamente receberam isenções. Depois de anos de operações militares e sucessivas convocações de reservistas, essa diferença passou a provocar maior contestação.
A oposição defende mudanças nas regras de recrutamento. Já partidos religiosos aliados de Netanyahu resistem à ampliação das obrigações militares para suas comunidades.
O crescimento eleitoral das legendas árabes acrescenta outra dimensão ao impasse. Seus representantes podem exercer influência decisiva na formação do governo, embora parte da oposição judaica rejeite uma coalizão formal com eles.
O que pode mudar no Oriente Médio?
Uma eventual substituição de Netanyahu não significaria necessariamente uma mudança completa na política de segurança israelense.
Seu principal adversário, Gadi Eisenkot, foi chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e também defende uma atuação firme diante das ameaças regionais.
As diferenças aparecem especialmente na condução política dos conflitos, na relação com as instituições democráticas e nas possibilidades de negociação diplomática.
Para os palestinos, as consequências poderão ser particularmente importantes.
Decisões sobre acesso à ajuda humanitária, reconstrução de Gaza, presença militar e expansão dos assentamentos na Cisjordânia dependerão das posições assumidas pelo próximo governo.
Entretanto, nenhuma dessas mudanças está garantida pelo resultado preliminar.
A continuidade dos conflitos também dependerá de atores externos, especialmente Estados Unidos, Irã e países árabes.
Como a eleição pode afetar o Brasil?
Embora separados por milhares de quilômetros, Brasil e Israel possuem relações econômicas que podem ser afetadas por mudanças políticas e militares na região.
Um dos principais vínculos está no agronegócio.
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente US$ 238,8 milhões em carnes para Israel. As vendas totais do agronegócio brasileiro ao país alcançaram US$ 480,1 milhões.
Na direção contrária, o Brasil importou cerca de US$ 499 milhões em fertilizantes israelenses e US$ 101,8 milhões em defensivos agrícolas.
Uma deterioração da segurança regional poderia dificultar transportes, elevar custos logísticos ou afetar o fornecimento desses produtos.
Para o produtor brasileiro, fertilizantes mais caros representam pressão sobre os custos de produção. Dependendo da intensidade e da duração dos aumentos, parte desse impacto pode chegar aos preços dos alimentos.
Existe também o petróleo.
Israel não está entre os maiores produtores mundiais, mas conflitos envolvendo o Irã e rotas marítimas estratégicas do Oriente Médio podem influenciar o mercado internacional de energia.
Se uma escalada militar provocar aumentos persistentes nas cotações internacionais, combustíveis e fretes poderão ficar mais caros no Brasil.
Esse efeito, entretanto, não é automático. Depende das condições de oferta e demanda, do câmbio e das políticas de preços praticadas no mercado brasileiro.
O desafio diplomático brasileiro
A eleição também será acompanhada pelo governo Lula, que mantém divergências públicas com Netanyahu sobre a condução da guerra em Gaza.
Uma mudança de governo poderia abrir espaço para a retomada de determinados canais diplomáticos, mas não garantiria uma aproximação imediata.
A política externa israelense continuará condicionada por questões de segurança, relações com Washington e posicionamentos sobre o futuro dos territórios palestinos.
Para o Brasil, o desafio será conciliar seus interesses comerciais, sua defesa de soluções diplomáticas para o conflito e suas relações com os diferentes países da região.
A eleição israelense, portanto, não diz respeito apenas à permanência de um primeiro-ministro.
Ela envolve o futuro das instituições do país, a relação entre religião e Estado, a segurança regional e as perspectivas para milhões de israelenses e palestinos.
O comparecimento histórico demonstrou a importância atribuída pelos eleitores a essas decisões. Mas o Parlamento projetado pelas pesquisas de boca de urna ainda não apresenta uma solução política evidente.
Os próximos dias serão decisivos para conhecer a distribuição definitiva das cadeiras. Depois disso, começarão as negociações que determinarão quem governará Israel.
Para os brasileiros, o principal ponto de atenção será menos o nome do próximo primeiro-ministro e mais a capacidade do novo governo de reduzir ou ampliar as tensões em uma região que influencia o comércio, a energia e a economia mundial.