Governo reeleito prioriza PEC da Segurança Pública e definição das contas de 2027. Disputa envolve autonomia dos estados, recursos federais e até R$ 57,5 bilhões em emendas parlamentares.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva não encerrou as negociações entre o governo e o Congresso. Pelo contrário: abriu uma corrida legislativa que deverá se intensificar até dezembro.
O Executivo pretende avançar em duas prioridades consideradas fundamentais para o próximo mandato: a proposta de emenda à Constituição que reorganiza a segurança pública e a aprovação do Orçamento federal de 2027.
O calendário é relevante porque os parlamentares eleitos neste mês tomarão posse em fevereiro, modificando a composição das duas Casas.
Até lá, o governo continuará negociando com deputados e senadores da atual legislatura.
A tarefa envolve interesses partidários, divergências sobre competências constitucionais e decisões que afetarão diretamente a distribuição dos recursos públicos.
A segurança pública volta ao centro
A PEC da Segurança Pública, apresentada pelo Executivo em 2025, pretende ampliar a coordenação entre União, estados e municípios.
A proposta já passou pela Câmara e foi analisada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Entretanto, ainda precisa ser votada pelo plenário da Casa.
O texto inclui o Sistema Único de Segurança Pública na Constituição e estabelece mecanismos de integração entre instituições responsáveis pelo enfrentamento da criminalidade.
Também prevê mudanças nas competências de órgãos federais e na organização das forças municipais de segurança.
Outro ponto importante envolve os recursos financeiros.
A proposta estabelece regras para proteger fundos destinados à segurança pública contra determinados bloqueios e remanejamentos.
A intenção é oferecer maior previsibilidade ao financiamento de políticas nacionais.
O desafio dos governadores
A implementação das mudanças dependerá da relação entre o governo federal e os estados.
Atualmente, os governadores comandam as polícias militares e civis, responsáveis por grande parte das atividades de policiamento e investigação.
Qualquer ampliação das atribuições federais precisa considerar essa distribuição constitucional de responsabilidades.
O governo argumenta que a integração poderá melhorar o combate às organizações criminosas, facilitar o compartilhamento de informações e ampliar a coordenação das investigações.
Governadores e parlamentares, entretanto, discutem os limites dessa atuação e os mecanismos de financiamento.
Também existem divergências sobre a maneira como as mudanças serão implementadas.
A aprovação de uma emenda constitucional não garante, isoladamente, a redução da criminalidade.
Será necessário estabelecer programas, metas verificáveis, estruturas administrativas e mecanismos de acompanhamento.
O Ministério da Segurança Pública
Lula voltou a defender durante a campanha a criação de um ministério específico para a segurança pública.
O presidente condiciona a iniciativa ao fortalecimento das atribuições federais previsto na PEC.
A criação da pasta exigirá decisões sobre estrutura administrativa, competências e orçamento.
Também dependerá da definição de como suas funções se relacionarão com o Ministério da Justiça e com os órgãos atualmente responsáveis pela área.
O governo pretende avançar nessas discussões antes do início do próximo mandato.
Entretanto, ainda não existe garantia de aprovação da PEC até dezembro.
Alterações realizadas pelo Senado também poderão exigir nova análise da Câmara, conforme o conteúdo aprovado.
O Orçamento está atrasado
A segunda prioridade envolve o planejamento das despesas federais para 2027.
A proposta orçamentária apresentada pelo governo prevê despesas totais de aproximadamente R$ 7,45 trilhões.
Desse valor, uma parcela expressiva corresponde a despesas financeiras e obrigações já estabelecidas.
O limite de despesas primárias submetidas ao arcabouço fiscal foi fixado em aproximadamente R$ 2,58 trilhões.
O projeto prevê recursos para saúde, educação, investimentos e programas sociais.
Entretanto, o processo legislativo ainda está em fase inicial.
Até esta quarta-feira, a proposta de Orçamento não havia passado pelas etapas de apresentação de emendas, análise dos relatórios setoriais e votação final.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias também permanecia pendente de aprovação.
O atraso aumenta a pressão sobre o calendário legislativo.
A disputa pelos R$ 57,5 bilhões
As emendas parlamentares poderão alcançar aproximadamente R$ 57,5 bilhões no Orçamento de 2027.
O valor representa mais de um quarto das despesas federais não obrigatórias destinadas a custeio e investimentos.
Desse total, R$ 44,8 bilhões já estão reservados na proposta do Executivo para emendas individuais e de bancadas estaduais.
Outros R$ 12,7 bilhões poderão ser destinados às emendas de comissões, dependendo das decisões do Congresso.
Essa última parcela ainda precisará encontrar espaço no orçamento.
As emendas permitem que parlamentares indiquem recursos para diferentes localidades, frequentemente destinados à saúde e à infraestrutura.
Entretanto, sua distribuição também envolve disputas políticas e exigências de transparência.
O desafio será conciliar as prioridades do Executivo, as indicações parlamentares e os limites fiscais.
A negociação começa antes de 2027
O governo também deverá discutir indicações para agências reguladoras e outros cargos sujeitos à aprovação do Senado.
Essas escolhas poderão integrar as negociações institucionais dos próximos meses.
Lula encontrará um Congresso com representação expressiva de partidos conservadores e de centro.
A composição parlamentar não impede acordos, mas exige negociações específicas sobre cada proposta.
O resultado presidencial definiu a continuidade do governo. Não definiu automaticamente sua maioria legislativa.
Até dezembro, as decisões sobre segurança pública e orçamento mostrarão como Executivo e Congresso pretendem administrar essa diferença.
Mais do que uma disputa entre governo e oposição, estará em discussão a capacidade das instituições de transformar prioridades políticas em programas financiados e executáveis.