Relatório da Polícia Militar enviado ao STF revela movimentação de dois médicos na residência do ex-presidente. Documento não esclarece os motivos dos atendimentos, que ocorreram dias após boletim registrar episódios de taquicardia e falta de ar.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu quatro visitas médicas ao longo de terça-feira (13), incluindo uma durante a madrugada, às 2h54. As informações constam de um relatório da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), encaminhado na quinta-feira (15) ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo informações divulgadas pelo Correio da Manhã.
O documento registra a entrada de dois profissionais de saúde na residência onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, em Brasília. O médico Brasil Ramos Caiado foi o primeiro a comparecer ao imóvel, permanecendo no local das 2h54 às 3h24, durante aproximadamente 30 minutos.
Horas depois, às 9h22, outro médico, Alexandre Firmino Paniago, esteve na residência. Sua permanência foi de apenas três minutos, segundo os registros da corporação.
No fim da tarde, Brasil Ramos Caiado retornou ao imóvel às 17h23 e permaneceu até as 20h16, totalizando quase três horas. Durante esse período, Alexandre Firmino Paniago também compareceu à residência, chegando às 19h24 e deixando o local às 20h16.
Ao todo, foram quatro entradas de profissionais em três períodos distintos do dia. O relatório, entretanto, não esclarece o que motivou os atendimentos, quais procedimentos foram realizados ou se houve alguma intercorrência que exigisse a presença dos médicos durante a madrugada.
A ausência dessas informações impede determinar se as visitas fizeram parte do acompanhamento regular do ex-presidente ou se ocorreram em razão de algum sintoma específico.
O registro ganha relevância diante das informações recentes sobre a saúde de Bolsonaro. Em 9 de outubro, um boletim médico encaminhado ao STF revelou que o ex-presidente havia apresentado episódios de taquicardia, caracterizada pela aceleração dos batimentos cardíacos, e dispneia, condição associada à dificuldade para respirar.
Os sintomas ocorreram em 2 de outubro, no início da tarde, e foram descritos como episódios de curta duração, com melhora espontânea. Na avaliação divulgada uma semana depois, a equipe médica informou que não havia registrado novas ocorrências semelhantes durante aquele período.
O boletim, assinado pelo cardiologista Brasil Ramos Caiado, apontava estabilidade cardiorrespiratória, mas reconhecia a persistência de problemas relacionados ao uso de medicamentos.
Entre os efeitos mencionados estavam episódios de sonolência durante o dia e dificuldades crônicas de equilíbrio corporal. Essas condições já haviam aparecido em documentos anteriores encaminhados pelas autoridades responsáveis pelo acompanhamento da prisão domiciliar.
Em junho, por exemplo, um relatório da Polícia Militar revelou que Bolsonaro deixou de receber um advogado porque apresentava sonolência associada aos medicamentos utilizados. O episódio foi registrado pela corporação como parte do acompanhamento de sua rotina.
Documentos anteriores também mostram que os médicos Brasil Ramos Caiado e Alexandre Firmino Paniago já acompanhavam regularmente o ex-presidente. Relatórios divulgados em maio registravam a presença de ambos na residência, além da realização de sessões de fisioterapia e atividades físicas.
Isso significa que a presença dos profissionais, por si só, não representa uma situação excepcional. O que o novo registro acrescenta é a concentração de quatro visitas em um único dia, incluindo o atendimento realizado antes das três horas da manhã.
A condição física de Bolsonaro também foi mencionada recentemente por seu filho Carlos Bolsonaro. Depois de visitar o pai no último sábado (10), Carlos relatou que o ex-presidente estava mais magro, apresentava fragilidade muscular e enfrentava dificuldades de movimentação.
Segundo o filho, a redução da mobilidade durante o período de prisão contribuiu para a perda de massa muscular. O relato foi feito após uma visita autorizada pelo STF e expressa a avaliação pessoal do familiar, não constituindo um diagnóstico médico.
Bolsonaro cumpre pena em prisão domiciliar desde março deste ano, após decisão de Alexandre de Moraes que considerou seu quadro clínico e a necessidade de recuperação de uma broncopneumonia. O ex-presidente foi condenado a 27 anos e três meses de prisão no processo relacionado à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Em julho, Moraes decidiu manter a prisão domiciliar humanitária, considerando a evolução clínica apresentada naquele período e as condições estabelecidas para o cumprimento da pena.
A residência permanece submetida ao acompanhamento das autoridades de segurança, responsáveis por registrar visitas, atendimentos profissionais e outras atividades relacionadas ao cumprimento da decisão judicial.
É nesse contexto que os relatórios da Polícia Militar são encaminhados ao Supremo. Os documentos permitem acompanhar a rotina do ex-presidente e registrar a presença de profissionais autorizados, mas não substituem os boletins elaborados pela equipe médica.
Até o momento, não há informação pública que estabeleça uma relação entre as visitas de 13 de outubro e os episódios de taquicardia e falta de ar registrados no início do mês. Também não foi divulgado um novo diagnóstico relacionado aos atendimentos mencionados no relatório.
A movimentação médica ocorre enquanto Bolsonaro permanece afastado das atividades públicas e políticas. Nesta semana, o ex-presidente voltou a receber a visita de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, depois de autorização concedida por Alexandre de Moraes.
A situação clínica do ex-presidente continua sendo acompanhada no âmbito de sua execução penal, mas o registro de quatro visitas em um dia não permite, isoladamente, concluir que houve agravamento de seu estado de saúde.
O esclarecimento sobre o atendimento realizado às 2h54, assim como sobre o retorno dos médicos no período da tarde e da noite, depende de novas informações da equipe responsável por seu acompanhamento.
Por enquanto, o dado apresentado à Justiça é objetivo: dois médicos estiveram na residência de Bolsonaro em quatro ocasiões durante o mesmo dia, e o relatório da Polícia Militar não informa o motivo dessas visitas.