Campanha fala em mais de um milhão de participantes, mas não houve contagem independente. Ao lado de Alckmin, governadores, artistas e lideranças estudantis, presidente pediu mobilização dos 33 milhões de eleitores ausentes, defendeu o fim da escala 6×1 e criticou a Justiça Eleitoral. O ato também terminou com ocorrências durante a dispersão.
Lula voltou à Avenida Paulista neste domingo (11) para tentar recuperar algo que sua campanha reconheceu ter faltado no primeiro turno: mobilização popular. Diante de uma multidão reunida nas imediações do Masp, o presidente discursou sobre democracia, juventude, segurança pública e direitos trabalhistas, mas concentrou parte importante de sua mensagem em um público que sequer estava presente: os mais de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas em 4 de outubro.
Batizada de Marcha pela Democracia, a manifestação começou por volta das 11h e reuniu movimentos estudantis, organizações sociais, artistas, partidos de esquerda e até comunidades de fãs de estrelas internacionais como Lady Gaga, Beyoncé, Taylor Swift e BTS. A convocação também recebeu apoio de torcidas organizadas, coletivos culturais e organizações ligadas à comunidade LGBT+.
A presença dos jovens foi uma das características mais marcantes do evento. Em vez de concentrar todos os discursos nas lideranças tradicionais do PT, a organização abriu espaço para estudantes, influenciadores e parlamentares de uma geração mais recente, como Érika Hilton, Sâmia Bomfim e Luna Zarattini. O cantor Jão, o rapper Baco Exu do Blues e o ator Humberto Carrão também participaram da mobilização.
Lula subiu ao carro de som acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos governadores petistas reeleitos no Nordeste: Jerônimo Rodrigues, da Bahia; Elmano de Freitas, do Ceará; e Rafael Fonteles, do Piauí. Fernando Haddad, Marina Silva, Simone Tebet e Guilherme Boulos também estiveram presentes.
Um milhão de pessoas? O número não foi confirmado
A dimensão do evento se tornou uma discussão própria. A campanha de Lula afirmou que mais de um milhão de pessoas participaram da manifestação, mas não apresentou uma metodologia verificável para sustentar a estimativa.
Reportagens registraram sete quarteirões com maior concentração de público, enquanto outros levantamentos descreveram ocupação mais extensa, chegando a doze quarteirões em determinados momentos.
O Poder360 calculou que uma área de aproximadamente 65 mil metros quadrados, correspondente a sete quarteirões, comportaria cerca de 261 mil pessoas com uma densidade de quatro participantes por metro quadrado. Esse número representa a capacidade hipotética do espaço analisado, não uma contagem efetiva de manifestantes.
O Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, que costuma realizar medições independentes com imagens aéreas, não conseguiu trabalhar porque não recebeu autorização para utilizar drones. A restrição foi relacionada aos protocolos de segurança presidencial, embora os pesquisadores tenham questionado a diferença de tratamento entre suas equipes e operadores autorizados a produzir imagens para divulgação.
A Polícia Militar também não divulgou uma estimativa própria. Portanto, o número exato de participantes permanece desconhecido, embora a presença de uma multidão esteja documentada.
Lula admite a dificuldade de falar com os jovens
No discurso, o presidente reconheceu a necessidade de ampliar o diálogo com a juventude e afirmou que as decisões políticas não podem continuar sendo construídas sem a participação das novas gerações.
Lula prometeu uma transformação tecnológica no país, com investimentos em inteligência artificial, indústria digital e educação. Também destacou o crescimento do número de brasileiros com diploma universitário desde seu primeiro mandato.
A manifestação buscou apresentar uma campanha menos dependente das estruturas tradicionais do PT, em sintonia com as mudanças que Lula promoveu na equipe de comunicação depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro.
A presença de artistas e movimentos independentes também demonstrou uma tentativa de conectar a candidatura presidencial a públicos que participam da política por meio da cultura, das redes sociais e de causas específicas, além das organizações partidárias.
Aos 80 anos, Lula pede voto aos brasileiros mais velhos
Um dos momentos centrais aconteceu quando o presidente chamou atenção para a abstenção do primeiro turno, que chegou a 21,08% do eleitorado.
Lula pediu que pessoas acima dos 70 anos, para quem o voto é facultativo, compareçam às urnas no dia 25. Argumentou que a participação política continua importante mesmo para quem já não tem obrigação legal de votar, especialmente pelas consequências das decisões governamentais sobre filhos e netos.
O apelo tem significado eleitoral. Os 33,4 milhões de ausentes representam um contingente numericamente muito superior à diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos que separou Flávio e Lula na primeira votação.
Isso não significa que esses eleitores estejam disponíveis para uma única candidatura. Pesquisas mostram que viagens, problemas de saúde, trabalho e desinteresse político estão entre os motivos da ausência. Ainda assim, a mobilização desse grupo passou a fazer parte das estratégias apresentadas pelas duas campanhas.
A escala 6×1 virou um dos assuntos principais
Antes de subir ao palco, Lula afirmou que a semana será decisiva e destacou a votação da proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1, marcada para quarta-feira (14), no Senado.
O presidente procurou associar o tema à disputa presidencial, cobrando uma posição do PL e criticando movimentos para adiar a votação para depois do segundo turno.
A proposta prevê reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial. Sua aprovação ainda dependerá de votação em dois turnos no Senado.
Lula também criticou o ajuste fiscal defendido por Flávio, argumentando que cortes de despesas poderiam atingir benefícios sociais e aposentadorias. A campanha do senador nega que pretenda extinguir esses programas e afirma que buscará reduzir gastos preservando políticas de atendimento à população.
Alckmin fala em Constituição; Janja exibe o documento no palco
A defesa das instituições democráticas dominou parte das manifestações.
Geraldo Alckmin recorreu à história paulista e citou a Revolução Constitucionalista de 1932 para defender o respeito à Constituição. Janja também levou uma cópia da Carta ao palco e criticou episódios envolvendo a utilização de armas em manifestações políticas.
Boulos discursou contra aquilo que classificou como avanço do fascismo, enquanto artistas e parlamentares defenderam a participação popular nas decisões nacionais.
Lula retomou críticas à condução da pandemia pelo governo Jair Bolsonaro, mencionando a crise sanitária e as declarações do ex-presidente sobre a doença.
Também anunciou que pretende ampliar a participação federal na segurança pública, defendendo mudanças constitucionais e a criação de um ministério específico para a área.
A manifestação também teve uma crise com o TSE
O ato aconteceu no mesmo dia em que Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones.
Lula criticou a decisão durante o evento e questionou publicamente a atuação da Justiça Eleitoral. Algumas horas depois, o corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva restabeleceu provisoriamente o funcionamento do canal, até que a controvérsia seja examinada pelo plenário.
A campanha de Flávio acusa a rede de Janones de difundir informações falsas. O deputado nega irregularidades e considera a tentativa de suspensão uma restrição à mobilização política.
Tumultos marcaram o encerramento
Embora houvesse previsão de caminhada até a região da Praça Roosevelt, a organização encerrou oficialmente a manifestação depois dos discursos e orientou os participantes a retornar aos bairros para realizar atividades de campanha.
A grande concentração de pessoas levou ao fechamento temporário da estação Trianon-Masp e a restrições de acesso em outras estações.
Durante a dispersão, a Polícia Militar relatou tumultos, pichações e depredações em pontos da região. Imagens mostraram pessoas sobre estruturas de acesso ao metrô. O Metrô de São Paulo, entretanto, informou que não possuía registros internos de danos em suas estações até aquele momento.
As divergências sobre a extensão dos incidentes ainda precisam ser esclarecidas.
O que o ato representa para a campanha
Enquanto Lula participava da manifestação, Flávio Bolsonaro reunia Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes, prefeitos e outras lideranças paulistas em um almoço político na capital. O grupo anunciou uma nova mobilização na Avenida Paulista para o próximo domingo (18).
A coincidência das agendas revela estratégias diferentes de organização neste início de segundo turno. Lula dedicou o domingo à mobilização pública de apoiadores, enquanto Flávio concentrou parte de sua atividade nas articulações com lideranças regionais e municipais.
O ato de domingo oferece à campanha petista imagens de participação popular e uma oportunidade de ampliar sua organização territorial. Mas a quantidade de pessoas nas ruas não permite medir, isoladamente, quantos votos poderão ser conquistados ou alterados.
O próximo teste será observar se a presença dos movimentos estudantis, artistas e organizações sociais se traduzirá em atividades contínuas até 25 de outubro, especialmente nas regiões em que a abstenção foi elevada.
Lula deixou a Paulista pedindo que seus apoiadores procurem eleitores fora dos círculos políticos habituais. A manifestação reuniu milhares de pessoas e apresentou uma mobilização que o PT pretende ampliar nacionalmente.
O tamanho exato da multidão ainda não é conhecido. O que poderá ser acompanhado nos próximos dias é se a organização demonstrada neste domingo permanecerá ativa até a votação, quando as duas campanhas dependerão não apenas de seus apoiadores mais engajados, mas também da participação de quem ainda não decidiu comparecer às urnas.