A maioria dos norte-americanos considera que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, permite que interesses empresariais interfiram em decisões de governo e reprova os ganhos obtidos por ele e seus familiares no setor de criptomoedas. É o que aponta um levantamento conjunto realizado pelo instituto Ipsos e pela agência de notícias Reuters.
Concluída na segunda-feira (17) após quatro dias de coleta, a pesquisa revelou que 63% dos participantes consideram inadequado que Trump e familiares lucrem com negócios do segmento de ativos digitais. Em contrapartida, 32% avaliaram a atuação como apropriada.
Percepção entre republicanos e democratas
A percepção de interferência atinge inclusive a base partidária do presidente, ainda que de forma mais moderada. Conforme a sondagem, metade dos eleitores republicanos avalia que interesses comerciais influenciam as medidas políticas tomadas por Trump. No eleitorado democrata, essa visão é amplamente majoritária.
No recorte específico sobre rendimentos com criptoativos, três em cada dez republicanos classificaram os ganhos como inadequados, enquanto sete em cada dez disseram considerar a prática adequada.
Negócios digitais e postura do governo
Trump e sua família expandiram investimentos no mercado de criptoativos ao longo do segundo mandato presidencial. No ano passado, empreendimentos vinculados ao grupo familiar, a exemplo da World Liberty Financial e de uma criptomoeda lançada com a marca Trump, movimentaram mais de US$ 1,4 bilhão em receitas, segundo dados divulgados pela Reuters.
Dois meses após iniciar o novo mandato, em março de 2025, o mandatário divulgou o ativo digital em suas redes sociais, qualificando-o como a “melhor de todas”. Simultaneamente, a gestão federal passou a adotar medidas favoráveis ao segmento cripto, após Trump ter articulado apoio e captação de recursos no setor durante o período eleitoral.
Posição da Casa Branca e análise de especialistas
Trump sustenta que está afastado da administração rotineira dos empreendimentos familiares e que seu patrimônio é gerido de forma independente. O governo norte-americano rejeita a ocorrência de conflitos éticos.
Em comunicado oficial, a porta-voz Anna Kelly declarou que as aplicações financeiras do presidente estão sob custódia de instituições autônomas. “Não há conflitos de interesse”, afirmou Kelly, acrescentando que o presidente “age apenas no melhor interesse do público americano”.
Por outro lado, analistas em ética pública apontam que a sobreposição entre interesses particulares e a administração federal é atípica. O ex-advogado-chefe de ética do governo de George W. Bush, Richard Painter, declarou que o cenário atual difere do primeiro mandato de Trump. “Nunca vimos nada parecido antes”, pontuou Painter à Reuters, citando o aumento da complexidade dos negócios familiares.
O tema deve influenciar a disputa política rumo às eleições legislativas de meio de mandato, em novembro, que definirão a maioria no Congresso dos Estados Unidos. Enquanto os democratas exploram os supostos conflitos éticos para criticar a gestão, o governo federal sinaliza a intenção de apurar supostos desvios em administrações estaduais comandadas pela oposição.