Partido que integra o governo federal anuncia apoio majoritário ao senador do PL, enquanto lideranças do Norte e Nordeste defendem a reeleição presidencial. A divisão expõe a força das alianças regionais e mostra por que a política brasileira não cabe inteiramente na separação entre dois campos ideológicos.
O MDB chegou ao segundo turno presidencial com uma decisão que revela muito sobre a maneira como funciona a política brasileira. Nesta terça-feira (13), o presidente nacional da legenda, Baleia Rossi, anunciou em São Paulo que 17 dos 27 diretórios estaduais apoiam Flávio Bolsonaro. No mesmo dia, outras dez organizações regionais manifestaram preferência pela reeleição de Lula, produzindo uma situação particularmente interessante: um partido com participação no governo federal terá estruturas importantes trabalhando para os dois candidatos.
O anúncio favorável a Flávio aconteceu no comitê político do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com a presença do prefeito Ricardo Nunes e de dirigentes emedebistas. A articulação contou ainda com a participação do governador de Goiás, Daniel Vilela, e de lideranças interessadas em ampliar a atuação conjunta de partidos de centro e direita na campanha presidencial.
O grupo reúne 16 diretórios estaduais e o Distrito Federal, totalizando 17 unidades partidárias. Mas essa maioria não significa adesão uniforme de todos os prefeitos, deputados, senadores ou eleitores vinculados ao MDB.
A outra parte da legenda mantém relações com Lula construídas ao longo de vários anos. O grupo favorável ao presidente concentra lideranças no Norte e Nordeste, incluindo nomes como Helder Barbalho, Eduardo Braga, Marcelo Castro, Veneziano Vital do Rêgo, Renan Filho e Renan Calheiros.
A presença de dirigentes regionais em lados diferentes não constitui uma novidade absoluta. O MDB possui uma tradição de autonomia estadual e alianças construídas conforme as condições políticas de cada região. Em determinadas localidades, compete historicamente contra o PT; em outras, participa de governos ou sustenta coligações com a esquerda.
O resultado é uma organização partidária com estrutura nacional, mas interesses e relações políticas que variam profundamente de um estado para outro.
A situação fica ainda mais peculiar quando observamos a participação do MDB na administração federal. A legenda ocupou ministérios importantes durante o governo Lula e participou de negociações relacionadas à infraestrutura, ao planejamento e à política habitacional. Essas relações administrativas, entretanto, não impediram que uma maioria de seus diretórios optasse por apoiar a candidatura adversária.
Isso ajuda a compreender uma característica do presidencialismo brasileiro. As alianças que sustentam um governo nem sempre são reproduzidas integralmente durante uma eleição. Partidos podem colaborar em determinadas políticas públicas, apoiar projetos no Congresso e, ao mesmo tempo, manter candidaturas ou preferências eleitorais diferentes.
No caso do MDB, essa flexibilidade também está relacionada ao peso de sua representação municipal. A legenda possui uma rede extensa de prefeitos, vereadores e dirigentes regionais, cuja atuação é relevante para a organização de atividades locais de campanha.
Essa estrutura interessa às duas candidaturas, especialmente depois de um primeiro turno no qual Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. A diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos torna compreensível a atenção dedicada às lideranças capazes de mobilizar apoiadores em diferentes regiões.
Entretanto, é preciso distinguir o anúncio de apoio de uma direção partidária da escolha individual de seus eleitores. Prefeitos e deputados podem organizar encontros, participar de campanhas e defender publicamente uma candidatura, mas não controlam automaticamente os votos de quem os elegeu.
Há também uma questão institucional importante: o apoio anunciado pela maioria dos diretórios não elimina a autonomia política dos grupos que optaram por Lula. A divisão deverá continuar exigindo negociações dentro da legenda, inclusive sobre os posicionamentos de suas bancadas e o relacionamento com o próximo governo.
Para Baleia Rossi, o desafio será administrar uma organização que mantém diferenças públicas em uma das decisões mais importantes do calendário eleitoral. Para os diretórios regionais, a disputa presidencial se soma a interesses estaduais e municipais que não desaparecerão depois da votação.
O episódio permite observar como as alianças nacionais são construídas a partir de realidades locais bastante distintas.
Em São Paulo, Ricardo Nunes participou diretamente da articulação pró-Flávio. No Norte e Nordeste, dirigentes emedebistas defenderam a continuidade da relação com Lula. Essas escolhas refletem trajetórias partidárias, compromissos políticos e estruturas regionais próprias, e não podem ser resumidas a um único motivo.
A divisão também coloca uma questão para a próxima legislatura. Independentemente do presidente eleito, o MDB continuará tendo representação no Congresso e participará de decisões sobre orçamento, reformas constitucionais e composição das comissões parlamentares.
Os acordos feitos durante o segundo turno poderão influenciar essas negociações, mas não determinam antecipadamente como cada parlamentar votará depois da posse.
A decisão anunciada nesta terça-feira mostra, portanto, que a disputa presidencial pode ser nacional, mas seus apoios são construídos em uma realidade política muito mais fragmentada.
Lula e Flávio representam candidaturas diferentes, com programas e alianças próprios. O MDB, por sua vez, continuará sendo uma única legenda institucional, mesmo com seus diretórios trabalhando em direções opostas neste segundo turno.
A eleição terminará em 25 de outubro. A tarefa de reunir esses grupos em torno de decisões partidárias comuns continuará muito depois disso.