A perícia contratada pela produtora Go Up Entertainment informou que mais de R$ 54 milhões — correspondentes a 72% dos R$ 75 milhões orçados para a produção do filme Dark Horse — foram gastos nos Estados Unidos. No Brasil, as despesas somaram R$ 20,92 milhões.
O laudo pericial foi entregue em junho deste ano à Polícia Civil de São Paulo, que conduz inquérito sobre o financiamento da obra cinematográfica. Segundo o documento, 100% do aporte financeiro teve origem no Havengate Development Fund LP, embora o relatório não especifique a identidade dos investidores integrantes do fundo. Os dados foram inicialmente divulgados pelo jornal O Globo e confirmados pela CNN Brasil.
Conforme o relatório, as despesas em território norte-americano envolveram US$ 383,1 mil na etapa de desenvolvimento, US$ 2,66 milhões na pré-produção, US$ 1,97 milhão em filmagens e US$ 1,95 milhão na pós-produção, além de outros custos adicionais.
Análise sobre recursos públicos
A apuração da Polícia Civil também investigou a existência de vínculos entre a verba da produção audiovisual e as iniciativas do Instituto Conhecer Brasil. A organização não governamental, que possui contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de internet Wi-Fi em comunidades, é ligada a Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment.
O perito responsável pelo laudo da produtora, Anisio Castelo Branco, afirmou à CNN Brasil que não foram encontradas movimentações financeiras entre o filme e projetos públicos da entidade.
“Não, a movimentação do filme acontece em conta exclusiva para a finalidade da obra. Não existe nenhum pagamento relacionado a projetos públicos na empresa ou em suas contas bancárias”, declarou Castelo Branco.
No início de junho, a Polícia Federal realizou uma operação referente ao Instituto Conhecer Brasil para apurar a regularidade licitatória, a execução contratual com o município paulistano e eventuais repasses a outras entidades ligadas à empresária. Diante das investigações, relatórios de receitas e despesas foram apresentados pela defesa.
Movimentações e desdobramentos
O inquérito policial apura ainda o rastreamento de aproximadamente R$ 61 milhões que teriam sido destinados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro à produção, averiguando se ocorreram irregularidades financeiras ou relação com o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O caso tramita sob sigilo judicial.
Na última segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido da PF e autorizou o compartilhamento dos dados da operação da Polícia Civil de São Paulo com a corporação federal, envio efetivado na noite de quarta-feira (26).
Em relação aos R$ 20,92 milhões despendidos no Brasil, a perícia registrou que R$ 18,47 milhões (88,29%) foram pagos por meio de transferências via Pix, enquanto R$ 2,34 milhões (11,18%) foram quitados por boleto. O laudo justificou a ausência dos nomes de todos os recebedores finais com base nas diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A estrutura montada no país incluiu uma equipe binacional com 11 atores estrangeiros, mais de 800 figurantes e cerca de 350 profissionais durante dois meses de gravações, cobrindo gastos com elenco, equipe técnica, locação de equipamentos, cenografia, transporte, segurança privada e serviços locais.