Nova Quaest mantém empate técnico na liderança, mas divisão entre primeiro e segundo voto revela forças diferentes entre os candidatos e mostra uma eleição ainda longe de estar definida
A disputa pelas duas vagas de São Paulo no Senado entrou definitivamente na zona de imprevisibilidade.
Pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira (8) coloca Marina Silva (Rede) e Guilherme Derrite (PP) empatados numericamente na liderança, com 14% das intenções de votos totais cada. Simone Tebet (PSB) aparece imediatamente atrás, com 12%.
Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os três estão tecnicamente empatados.
Mas olhar apenas para o placar de 14 a 14 a 12 esconde a parte mais interessante da pesquisa.
Como São Paulo escolherá dois senadores em outubro, cada eleitor poderá votar duas vezes para o Senado. E quando a Quaest separa essas escolhas, surge um desenho eleitoral que ajuda a compreender onde estão as forças — e também as fragilidades — dos três líderes.
Derrite tem o voto mais forte — mas Marina e Tebet aparecem melhor na segunda escolha
Quando o eleitor é questionado sobre seu primeiro voto para senador, Guilherme Derrite abre vantagem.
O ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo registra 20%, contra 17% de Marina Silva e 15% de Simone Tebet.
A situação muda quando entra em cena o segundo voto.
Marina lidera essa escolha com 11%. Tebet aparece com 9%. Derrite cai para 7%, mesmo percentual de André do Prado (PL).
É uma diferença importante.
Derrite demonstra, neste momento, possuir uma candidatura mais consolidada como primeira preferência de uma parcela do eleitorado. Marina e Tebet, por outro lado, mostram maior presença entre aqueles que estão compondo uma dupla para o Senado.
E em uma eleição com duas vagas, ser a segunda escolha de milhões de paulistas pode valer exatamente tanto quanto ser a primeira.
Essa é uma característica que torna a disputa pelo Senado em 2026 particularmente complexa para as campanhas.
O eleitor não precisa escolher entre Marina, Tebet ou Derrite da mesma maneira que escolherá entre dois candidatos ao governo. Ele poderá combinar nomes de campos políticos semelhantes — ou até construir uma chapa própria, misturando candidatos de grupos adversários.
Marina e Tebet enfrentam um problema — e também possuem uma oportunidade
Marina Silva e Simone Tebet pertencem ao campo político que apoia a candidatura de Fernando Haddad ao governo paulista e a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Marina chegou a colocar publicamente seu nome à disposição para disputar a segunda vaga ao Senado ao lado de Tebet e reafirmou seu apoio a Lula e Haddad.
Na prática, portanto, existe uma possibilidade estratégica evidente: transformar a disputa individual em uma lógica de voto casado.
O eleitor desse campo político possui dois votos e duas candidatas competitivas.
A pesquisa mostra que essa operação ainda não está completamente consolidada, mas também indica que Marina e Tebet conseguem aparecer com força tanto no primeiro quanto no segundo voto.
Isso pode transformar a campanha das próximas semanas.
Se o eleitorado compreender Marina e Tebet como uma dupla, a competição interna entre as duas pode diminuir e ambas podem passar a disputar, conjuntamente, as duas cadeiras.
O problema é que essa mesma lógica existe do outro lado.
A direita também tem duas candidaturas — mas Derrite abriu distância de André do Prado
Guilherme Derrite e André do Prado estão associados ao campo político do governador Tarcísio de Freitas.
Na propaganda eleitoral, ambos vêm explorando essa proximidade. Derrite também recebeu apoio de Flávio Bolsonaro, enquanto Prado tenta se apresentar como um dos principais aliados políticos do governador paulista.
Só que, até aqui, os dois não possuem o mesmo tamanho eleitoral.
Derrite registra 14% dos votos totais. André do Prado aparece com 7%. Ricardo Salles (Novo), que disputa parte do mesmo eleitorado conservador, tem 3%.
Isso cria um dilema para a direita paulista.
Derrite parece cada vez mais consolidado entre os nomes competitivos, mas a segunda vaga desse campo político ainda não está assegurada.
Se parte do eleitorado de Tarcísio e Flávio Bolsonaro concentrar apenas um voto em Derrite e não utilizar estrategicamente a segunda escolha, Marina e Tebet podem se beneficiar.
Não por acaso, a eleição para o Senado ganhou importância especial no discurso da direita em 2026, especialmente em meio ao aumento das tensões entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
No ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, lideranças desse campo voltaram a enfatizar a necessidade de ampliar a representação no Senado, Casa responsável, entre outras atribuições constitucionais, pelo julgamento de eventuais processos de impeachment contra ministros do STF.
A eleição paulista, portanto, ultrapassa a disputa por duas cadeiras.
Ela faz parte da batalha nacional pelo equilíbrio de forças no próximo Senado.
Comparação com agosto mostra estabilidade — mas líderes avançam
A pesquisa anterior da Quaest, divulgada em 25 de agosto, já apresentava praticamente o mesmo desenho.
Na ocasião, Derrite e Marina tinham 12%, enquanto Simone Tebet aparecia com 11%. André do Prado registrava 7%.
Agora, Marina e Derrite avançaram numericamente para 14%, Tebet chegou a 12% e Prado permaneceu nos 7%.
Não há, portanto, uma ruptura no cenário.
Há uma lenta consolidação do pelotão da frente.
E isso é especialmente relevante porque a campanha entrou na fase em que televisão, redes sociais, apoios políticos e voto útil começam a exercer influência crescente sobre o eleitor menos identificado com os candidatos.
O verdadeiro líder da pesquisa ainda é a indefinição
Existe, porém, um número ainda maior do que os percentuais registrados por Marina, Derrite ou Tebet.
A indecisão.
Segundo o levantamento, 26% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar para o Senado. Outros 19% indicam voto branco, nulo ou nenhuma das opções apresentadas. Na pergunta espontânea — quando os nomes dos candidatos não são apresentados — 88% não conseguem mencionar espontaneamente sua escolha.
É esse dado que impede qualquer leitura definitiva da eleição.
Diferentemente da corrida pelo governo paulista, na qual Tarcísio de Freitas aparece com 42% e Fernando Haddad com 27% no mesmo levantamento, a eleição para o Senado ainda apresenta um eleitorado muito menos cristalizado.
Isso significa que algumas semanas de campanha podem produzir movimentos proporcionalmente muito maiores entre os candidatos a senador.
O desafio de Marina, Derrite e Tebet não será apenas preservar os votos já conquistados.
Será ensinar o eleitor a utilizar o segundo voto.
Uma eleição que pode ser decidida pelo voto esquecido
É justamente aí que pode estar a chave da eleição paulista.
Em disputas com renovação de dois terços do Senado, parte significativa do eleitorado tende a chegar às urnas com uma escolha mais consolidada e outra menos definida.
Derrite parece ter, neste momento, maior capacidade de ocupar essa primeira posição.
Marina demonstra força nas duas escolhas.
Tebet permanece suficientemente próxima para disputar uma das cadeiras e possui espaço para crescer especialmente se conseguir consolidar o voto conjunto com Marina.
André do Prado corre contra o relógio para transformar a força eleitoral de Tarcísio e do campo conservador paulista em votos próprios.
A fotografia atual, portanto, não mostra três candidatos disputando simplesmente duas vagas.
Mostra duas batalhas acontecendo ao mesmo tempo.
Uma pela primeira escolha do eleitor.
Outra, talvez ainda mais decisiva, por aquele segundo voto que milhões de paulistas ainda não decidiram onde colocar.
E é justamente nesse espaço aparentemente secundário que pode estar escondido o nome do próximo senador por São Paulo.
Metodologia
A Quaest entrevistou presencialmente 1.800 eleitores do estado de São Paulo entre os dias 4 e 7 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O levantamento foi contratado pela Globo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo SP-00959/2026.