Terceiro pregão consecutivo de queda amplia pressão sobre a economia após a eleição. CNI reduz projeção do PIB para 1,6%, enquanto juros elevados, inflação e incertezas fiscais entram no centro das discussões.
A turbulência financeira iniciada depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva continuou nesta quarta-feira (28), ampliando as preocupações sobre as perspectivas econômicas do país.
O Ibovespa encerrou o terceiro pregão consecutivo de perdas com queda de 2,68%, aos 171.006 pontos.
Desde o início da semana, o principal índice da Bolsa brasileira acumula desvalorização de aproximadamente 16,6%.
O dólar apresentou comportamento diferente. Depois da forte valorização registrada na segunda-feira, encerrou esta quarta-feira em leve queda, cotado a R$ 5,34.
No mesmo dia, a Confederação Nacional da Indústria reduziu de 2% para 1,6% sua previsão de crescimento da economia brasileira em 2026.
Os acontecimentos possuem causas distintas, mas revelam um ambiente econômico marcado por juros elevados, desaceleração da atividade e dúvidas sobre a condução fiscal do próximo mandato.
Três dias de pressão
A reação começou na segunda-feira, primeiro pregão depois do segundo turno presidencial.
O dólar subiu 8,21%, enquanto a Bolsa caiu 13,88%.
A intensidade das vendas levou a B3 a interromper temporariamente as negociações.
Na terça-feira, o mercado apresentou sinais de acomodação, mas o Ibovespa voltou a encerrar o dia em queda.
Nesta quarta, as perdas se ampliaram novamente.
A sequência demonstra que o ajuste financeiro não ficou restrito às primeiras horas depois da eleição.
Parte dos investidores continua reavaliando posições diante das perspectivas para a política econômica.
Entretanto, não é possível atribuir toda a movimentação exclusivamente ao resultado eleitoral.
Balanços empresariais, preços internacionais de commodities e decisões de política monetária também influenciam os mercados.
A decisão dos Estados Unidos
O Federal Reserve, banco central americano, manteve nesta quarta-feira sua taxa básica de juros no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano.
A decisão já era amplamente esperada pelos investidores.
Juros elevados nos Estados Unidos podem aumentar a atratividade de aplicações financeiras denominadas em dólar, influenciando os fluxos internacionais de capital.
Para economias emergentes, esse ambiente pode representar pressão adicional sobre o câmbio e sobre as condições de financiamento.
No Brasil, entretanto, o dólar encerrou o dia em queda de 0,19%.
O movimento demonstra que diferentes fatores podem atuar simultaneamente sobre o mercado cambial.
A manutenção dos juros americanos não determina, isoladamente, a direção da moeda brasileira.
A indústria prevê crescimento menor
Enquanto os investidores acompanhavam as oscilações financeiras, a Confederação Nacional da Indústria divulgou novas estimativas para a economia.
A entidade reduziu sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto de 2% para 1,6% em 2026.
A revisão considera principalmente o desempenho mais fraco da indústria de transformação e dos serviços.
Para a indústria como um todo, a projeção passou de crescimento de 2% para 1,3%.
A indústria de transformação deverá apresentar retração de 0,7%, segundo a entidade.
O setor enfrenta dificuldades relacionadas ao custo do crédito, à desaceleração da demanda e à concorrência de produtos importados.
A agropecuária apresenta situação diferente.
Sua projeção de crescimento foi elevada de 1,8% para 2,5%, impulsionada por expectativas mais favoráveis para a produção agrícola.
Os números mostram que a desaceleração econômica não ocorre de maneira uniforme.
Inflação e juros preocupam
A CNI também projeta inflação de 5,15% para 2026.
A estimativa indica persistência de pressões sobre os preços, apesar da desaceleração prevista para parte da atividade econômica.
A entidade espera que a taxa Selic termine o ano em 13,25%.
Juros elevados encarecem financiamentos e podem reduzir investimentos produtivos.
Também influenciam o crédito ao consumidor, especialmente em modalidades de prazo mais longo.
O efeito sobre a população depende das condições específicas de cada operação financeira.
Entretanto, a combinação de crédito caro e crescimento mais lento pode dificultar a expansão do consumo e da produção.
A situação das contas públicas
A entidade industrial estima que a dívida pública bruta alcance 83,7% do PIB ao final de 2026.
Também projeta déficit primário de R$ 54,6 bilhões antes das exclusões permitidas pelas regras fiscais.
Essas estimativas reforçam a importância do debate sobre despesas, arrecadação e sustentabilidade da dívida.
O governo anunciou que pretende apresentar mudanças para ampliar o compromisso com o centro da meta fiscal.
A proposta ainda depende de detalhamento e negociação com o Congresso.
Também permanece indefinida a composição da equipe econômica do próximo mandato.
Essas decisões poderão influenciar as expectativas dos investidores.
O que isso significa para o brasileiro?
A queda da Bolsa não representa uma redução automática da renda dos trabalhadores.
Entretanto, a persistência de instabilidade financeira pode afetar investimentos, crédito e decisões empresariais.
O câmbio influencia preços de importações e insumos utilizados na produção.
Os juros afetam financiamentos e o custo de expansão das empresas.
A desaceleração econômica pode reduzir o ritmo de criação de oportunidades de trabalho, embora os efeitos dependam de cada setor.
Por isso, a discussão não se limita ao comportamento dos investidores.
O governo reeleito terá de administrar simultaneamente compromissos sociais, expectativas de crescimento e restrições fiscais.
A turbulência dos últimos três dias não determina o desempenho dos próximos quatro anos.
Mas evidencia a necessidade de decisões econômicas claras em um momento de desaceleração e elevada sensibilidade dos mercados.