Senador defendeu na Globo uma proposta de transporte gratuito que havia ironizado oito dias antes. Também reconheceu ter votado equivocadamente contra a ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual. Episódios colocaram seu histórico político em discussão.
O último debate presidencial provocou duas declarações importantes de Flávio Bolsonaro (PL): o senador afirmou apoiar o transporte público gratuito nos fins de semana, proposta que havia criticado recentemente, e reconheceu que errou ao votar contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras públicas do Rio de Janeiro em 2009.
As manifestações ocorreram nesta sexta-feira (23), durante o confronto com Lula (PT), na TV Globo, e colocaram em evidência a relação entre posições defendidas no passado e compromissos apresentados por candidatos durante uma eleição.
A primeira mudança apareceu quando Lula perguntou se Flávio apoiaria a tarifa zero nos transportes coletivos aos fins de semana.
O senador respondeu que concordava com a iniciativa e afirmou considerar legítimo que trabalhadores tenham acesso gratuito aos ônibus durante seus períodos de descanso.
A resposta contrastou com declarações feitas em 15 de outubro, durante uma transmissão ao vivo com o deputado Nikolas Ferreira. Na ocasião, Flávio ironizou o anúncio de Lula, questionou se o governo conseguiria cumprir a promessa e relacionou a proposta à antiga discussão sobre o preço da picanha.
No debate da Globo, o candidato do PL não repetiu a rejeição. Passou a defender a gratuidade, mas manteve as críticas à política tributária do presidente.
A mudança é relevante porque o governo encaminhou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição para financiar o transporte gratuito aos fins de semana e feriados.
O texto prevê destinar pelo menos 26,8% de determinadas emendas parlamentares obrigatórias ao custeio do benefício, preservadas as regras relativas aos recursos da saúde.
A proposta ainda depende de aprovação no Congresso. Portanto, o apoio declarado por Flávio não significa que a gratuidade esteja assegurada ou que os dois candidatos concordem sobre seu financiamento.
Outro momento significativo ocorreu quando Lula retomou uma votação de 2009 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Naquele ano, Flávio foi o único deputado a votar contra a ampliação de 120 para 180 dias da licença-maternidade de servidoras públicas civis estaduais.
Questionado sobre sua posição, o senador afirmou que acreditava, na época, que o aumento do período de licença poderia dificultar a contratação de mulheres.
Em seguida, reconheceu que sua avaliação estava equivocada.
Flávio disse que a experiência de constituir família e ter duas filhas modificou sua compreensão sobre a importância do tempo de convivência entre mães e filhos.
A declaração constitui uma revisão explícita de um posicionamento anterior. O reconhecimento do erro, entretanto, não altera o registro histórico da votação.
O confronto também teve um momento de tensão pessoal.
Ao criticar a política econômica de Lula, Flávio utilizou a expressão “nove dedos”, em referência à amputação sofrida pelo presidente em um acidente de trabalho na juventude.
Lula reagiu, considerou a fala ofensiva e relacionou o episódio ao respeito devido aos trabalhadores que sofreram acidentes profissionais.
Posteriormente, Flávio pediu desculpas pelo comentário.
Os três episódios possuem características diferentes: uma mudança de posição sobre uma proposta atual, o reconhecimento de um erro legislativo passado e a retratação de um ataque pessoal.
Em comum, mostram que um debate presidencial não serve apenas para conhecer promessas futuras. Também permite confrontar declarações recentes e decisões anteriores com aquilo que os candidatos defendem no presente.
A avaliação da consistência dessas posições dependerá das explicações oferecidas, dos compromissos efetivamente assumidos e, posteriormente, das decisões tomadas no exercício do cargo.
A dois dias da votação, o debate deixou uma questão relevante sobre a trajetória de qualquer candidato: quando uma posição muda, quais razões justificam a mudança e como ela se traduzirá em medidas concretas de governo?