O primeiro turno não definiu quem será o próximo presidente, mas já movimentou bilhões de reais. A liderança de Flávio Bolsonaro, o desempenho da direita no Congresso e nos estados fizeram investidores recalcularem suas expectativas para a economia brasileira. Bolsa bateu recorde, dólar caiu abaixo de R$ 5 e ativos do país dispararam também em Nova York.
A eleição brasileira ainda não terminou.
Para o mercado financeiro, porém, muita coisa mudou em poucas horas.
A primeira segunda-feira depois das urnas começou com uma reação rara em intensidade. O Ibovespa chegou a subir mais de 9% e alcançou aproximadamente 209,6 mil pontos, estabelecendo uma nova máxima histórica e superando pela primeira vez a barreira dos 200 mil pontos.
Ao mesmo tempo, o dólar, que havia terminado a sexta-feira em R$ 5,2173, despencou. Durante a manhã chegou à região de R$ 4,95, com valorização do real superior a 4%. Foi a primeira vez desde maio que a moeda norte-americana voltou a ser negociada abaixo dos R$ 5.
E não foi apenas a Bolsa.
Os juros futuros brasileiros também caíram violentamente. Contratos de longo prazo recuaram mais de 100 pontos-base em alguns vencimentos. O DI para janeiro de 2035, por exemplo, chegou a cair 126 pontos-base durante a manhã.
Três mercados diferentes deram, portanto, a mesma mensagem.
Ações subiram. O real se fortaleceu. O prêmio cobrado para emprestar dinheiro ao Brasil no futuro diminuiu.
O que as urnas mudaram
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
O resultado ficou diferente da fotografia que parte dos investidores carregava para o fim de semana. Pesquisas eleitorais mostravam uma disputa muito apertada, muitas vezes com Lula numericamente à frente.
Quando as urnas mostraram Flávio na primeira colocação e, ao mesmo tempo, uma presença forte de partidos da direita e da centro-direita no Congresso e nos governos estaduais, os mercados passaram a recalcular seus cenários para 2027.
Esse é o ponto fundamental.
A Bolsa não está dizendo quem será presidente.
Também não existe um “voto do mercado”.
O que existe é preço.
Investidores compram ou vendem ativos de acordo com aquilo que acreditam que pode acontecer com inflação, dívida pública, impostos, gastos, juros, empresas estatais e crescimento econômico.
Nesta segunda-feira, esse cálculo mudou rapidamente.
Por que o mercado reagiu bem a Flávio?
O movimento está relacionado principalmente à política fiscal.
Flávio Bolsonaro tem defendido medidas de contenção das despesas públicas, redução de impostos e uma agenda econômica mais voltada ao setor privado. Parte do mercado passou a considerar maior a possibilidade de uma mudança na condução fiscal a partir de 2027.
Mas existe outro elemento.
O resultado das eleições legislativas importa quase tanto quanto a disputa presidencial.
Um presidente pode prometer reformas econômicas. Para executá-las, precisa do Congresso.
O crescimento das forças de direita no Legislativo e a eleição de governadores alinhados ou próximos desse campo fizeram investidores enxergarem uma composição política potencialmente mais favorável à aprovação de mudanças econômicas.
Isso ajuda a explicar por que a reação foi muito maior do que apenas a diferença de 1,87 ponto percentual entre Flávio e Lula poderia sugerir.
O mercado não reagiu apenas ao placar presidencial.
Reagiu ao conjunto das urnas.
Juros podem ser ainda mais importantes que a Bolsa
O Ibovespa acima dos 200 mil pontos produz uma imagem impressionante.
Mas talvez o movimento economicamente mais importante desta segunda esteja acontecendo em outro lugar.
Nos juros.
Quando as taxas futuras caem, significa que investidores estão exigindo um prêmio menor para carregar compromissos em reais ao longo dos próximos anos.
Isso pode afetar o preço de títulos públicos, financiamentos empresariais, crédito imobiliário e avaliação das empresas.
Não acontece imediatamente.
A queda de um contrato futuro hoje não significa que o financiamento de uma família ficará mais barato amanhã.
Mas uma redução persistente das expectativas de juros pode melhorar as condições financeiras da economia como um todo.
É por isso que empresas dependentes do mercado interno reagiram tão fortemente.
Magazine Luiza chegou a subir mais de 25%. B3, BTG Pactual e outras companhias avançaram mais de 20% durante o pregão.
Empresas de varejo, construção e consumo costumam ser particularmente sensíveis aos juros.
E o dólar abaixo de R$ 5?
A queda do dólar também possui consequências que ultrapassam o mercado financeiro.
Um real mais forte reduz o custo de produtos importados e de diversos componentes utilizados pela indústria brasileira.
Combustíveis, medicamentos, eletrônicos, fertilizantes, máquinas e matérias-primas podem sofrer influência da taxa de câmbio.
Também pode ajudar no controle da inflação.
Por outro lado, empresas exportadoras recebem receitas em dólar e podem sofrer quando convertem esse dinheiro para reais.
Isso ajuda a explicar por que o movimento da Bolsa não foi uniforme.
Enquanto grande parte das empresas domésticas subiu fortemente, a Suzano, grande exportadora de celulose, chegou a cair mais de 8% durante a sessão.
Ou seja, dólar mais baixo não é simplesmente “bom” ou “ruim”.
Existem vencedores e perdedores.
A eleição brasileira chegou a Wall Street
A reação começou antes mesmo da abertura da Bolsa brasileira.
No exterior, investidores já estavam negociando ativos ligados ao Brasil durante a madrugada e o início da manhã.
O EWZ, principal fundo negociado nos Estados Unidos que acompanha ações brasileiras, chegou a avançar cerca de 12% a 14%.
As ADRs, recibos de ações brasileiras negociados diretamente em Nova York, também dispararam.
Petrobras chegou a subir perto de 10%.
Itaú avançou mais de 12%.
Bradesco ganhou aproximadamente 11%.
Nubank registrou alta ao redor de 10%.
Embraer avançou cerca de 6%.
Isso significa que investidores internacionais começaram a reposicionar suas carteiras brasileiras praticamente imediatamente depois da apuração.
O Brasil ficou mais caro em Wall Street antes mesmo de São Paulo abrir os negócios.
Mas o Brasil mexeu com o mercado mundial?
Aqui é importante fazer uma distinção.
A eleição brasileira produziu enorme impacto nos ativos brasileiros negociados pelo mundo. Não provocou, até agora, uma mudança equivalente nos grandes índices globais.
Nesta segunda-feira, Wall Street, Europa e Ásia estavam sendo movimentadas principalmente por questões próprias.
Nos Estados Unidos, investidores acompanhavam juros elevados e as próximas decisões do Federal Reserve.
Na Europa, a situação fiscal e política da França pressionava o euro e os ativos franceses.
O dólar ganhava força contra diversas moedas internacionais.
Esse último ponto torna a valorização do real ainda mais significativa.
Enquanto o dólar avançava cerca de 0,4% diante de uma cesta de moedas internacionais, caía mais de 4% contra o real.
Isso mostra que o movimento brasileiro desta segunda-feira não pode ser explicado apenas pelo cenário externo.
Existe um componente eleitoral muito forte.
Bilhões mudaram de preço em algumas horas
Quando uma empresa sobe 10%, 15% ou 20% na Bolsa, bilhões de reais são acrescentados ao seu valor de mercado.
Quando os juros futuros caem mais de um ponto percentual, títulos e contratos financeiros são reavaliados.
Quando o dólar cai mais de 4%, posições de empresas, bancos, fundos, importadores e exportadores mudam de valor.
Foi isso que aconteceu depois da abertura das urnas.
Não significa que essa riqueza tenha imediatamente entrado na economia real.
Uma alta de 9% no Ibovespa não significa que o PIB brasileiro cresceu 9%.
Mas significa que os investidores estão atribuindo preços diferentes aos riscos e às oportunidades do país.
E isso influencia decisões reais de investimento.
Ainda faltam três semanas
Existe, porém, um limite importante para toda essa reação.
A eleição presidencial ainda não acabou.
Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno no dia 25 de outubro.
Durante as próximas semanas, pesquisas, propostas econômicas, alianças políticas, composição das possíveis equipes de governo e declarações dos candidatos poderão alterar novamente as expectativas.
O mercado que subiu violentamente nesta segunda-feira também pode devolver parte dos ganhos caso o cenário político ou econômico mude.
Além disso, uma coisa é expectativa.
Outra é execução.
Qualquer presidente eleito terá de enfrentar dívida pública elevada, juros ainda altos, pressões sobre gastos, necessidade de crescimento e um ambiente internacional difícil.
É por isso que o movimento desta segunda-feira precisa ser interpretado pelo que realmente representa.
Não é um resultado econômico definitivo.
Não é uma previsão infalível sobre o próximo governo.
É uma gigantesca revisão de expectativas.
O Brasil votou no domingo.
Na segunda-feira, o dinheiro começou a votar nos preços.