A 27 dias da eleição presidencial, os dois candidatos que lideram as pesquisas chegam ao Dia da Independência tentando dar significados opostos à palavra “liberdade”. Flávio Bolsonaro aposta no confronto com Alexandre de Moraes e na ideia de “resgatar” o país; Lula transforma soberania nacional, riquezas estratégicas e resistência à interferência estrangeira em eixo de sua campanha. No meio dessa disputa está Donald Trump — próximo da família Bolsonaro, mas também interlocutor do governo brasileiro.
Por Política Real News
O Brasil chega ao 7 de Setembro de 2026 com uma disputa que vai muito além de quem será capaz de colocar mais verde e amarelo nas ruas.
A menos de um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro chegam ao Dia da Independência ocupando posições bastante superiores às dos demais candidatos. O TSE já validou formalmente as chapas dos dois — Lula com Geraldo Alckmin e Flávio com Alfredo Gaspar.
As pesquisas confirmam que, neste momento, é entre eles que se concentra a principal disputa pelo Planalto. O Datafolha realizado em 1º e 2 de setembro registra Lula com 38% e Flávio com 33%; Augusto Cury aparece distante, com 8%. Em uma eventual segunda rodada, o mesmo instituto aponta 46% para Lula e 44% para Flávio. Já a Quaest registra 37% a 30% no primeiro turno e um virtual empate de 42% a 41% no segundo.
É nesse cenário que o 7 de Setembro deixa de ser apenas uma celebração histórica e se transforma em uma disputa sobre o próprio conceito de independência.
Para Flávio Bolsonaro, o inimigo está principalmente dentro das instituições brasileiras e tem nome: Alexandre de Moraes.
Para Lula, a ameaça vem sobretudo de fora: pressões de potências estrangeiras sobre decisões políticas, comerciais e sobre as riquezas estratégicas do Brasil.
São duas campanhas tentando vestir o mesmo símbolo nacional com significados completamente diferentes.
Flávio transforma Moraes no símbolo daquilo que promete combater
A estratégia de Flávio Bolsonaro para este 7 de Setembro estava desenhada antes mesmo da explosão da nova crise no Supremo.
A direita preparava a manifestação na avenida Paulista sob temas como liberdade, independência, críticas ao governo Lula e a ideia de “resgate da nação”. A convocação utilizava inclusive a expressão “agora ou nunca”.
Então veio o Banco Master.
A abertura de informações reunidas pela Polícia Federal sobre Daniel Vorcaro colocou Alexandre de Moraes novamente no centro do noticiário — desta vez não pelas investigações contra o bolsonarismo, mas por questionamentos dirigidos ao próprio ministro.
O relatório tornado público reúne mensagens enviadas por Vorcaro, referências a encontros com Moraes e documentos relativos ao contrato de aproximadamente R$ 131 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. A investigação também identificou metadados indicando alterações feitas por Moraes em uma minuta do contrato.
Há, contudo, uma diferença fundamental entre os fatos conhecidos e algumas conclusões políticas construídas sobre eles: parte significativa do material contém mensagens enviadas por Vorcaro sem que eventuais respostas tenham sido recuperadas, e os documentos divulgados até agora não demonstram que todos os pedidos feitos pelo banqueiro tenham sido atendidos. Não existe, portanto, condenação ou comprovação definitiva dos crimes sugeridos por adversários do ministro.
Politicamente, isso pouco importa para o bolsonarismo neste momento.
A campanha percebeu imediatamente a oportunidade.
O mote da manifestação foi atualizado para “Fora, Lula; fora, Moraes”, e auxiliares de Flávio passaram a tratar o ato da Paulista como possibilidade de produzir uma demonstração de força capaz de alterar a dinâmica da corrida presidencial.
Na véspera do feriado, Flávio chegou a pressionar publicamente a ministra Cármen Lúcia para que vote pela abertura de investigação contra Moraes, afirmando que ela deveria preocupar-se com sua própria biografia.
É uma transformação importante na campanha.
Até recentemente, o candidato tentava deixar o enfrentamento mais agressivo com ministros do Supremo para aliados e candidatos ao Senado. Agora, Moraes volta a ocupar um lugar central na narrativa presidencial.
Há, entretanto, uma tentativa deliberada de separar o ministro da instituição.
Flávio procura sustentar que sua ofensiva é contra o comportamento de indivíduos, e não contra o STF enquanto Poder da República. Essa cautela não é acidental. O candidato sabe que precisa mobilizar o eleitor bolsonarista sem reproduzir integralmente a imagem de confronto institucional que marcou os anos finais do governo de seu pai.
O discurso é, portanto, calibrado.
A ala mais radical fala em derrubar Moraes. Flávio tenta falar em responsabilizá-lo.
Mas a mensagem política destinada à base é inequívoca: ele se apresenta como o homem capaz de encerrar uma época de perseguição, conter aquilo que seus apoiadores chamam de excessos do Judiciário e “resgatar” o Brasil.
O problema de Flávio tem o mesmo sobrenome: Vorcaro
A oportunidade oferecida pelo caso Master também carrega um problema evidente para a campanha de Flávio.
O banqueiro utilizado para atingir Moraes é exatamente o mesmo Daniel Vorcaro que aparece no maior episódio de desgaste recente do próprio candidato.
Flávio admitiu ter pedido recursos ao então dono do Banco Master para financiar Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. Vorcaro transferiu dezenas de milhões de reais para o projeto, e as informações conhecidas posteriormente indicaram que os repasses chegaram a aproximadamente US$ 12,3 milhões.
Isso cria uma situação quase perfeita para ilustrar a complexidade política do escândalo Master.
Vorcaro é simultaneamente munição e vulnerabilidade para o candidato do PL.
Quanto mais Flávio argumenta que relações de autoridades com o banqueiro precisam ser investigadas, mais abre espaço para que adversários exijam transparência sobre sua própria relação com ele.
A aposta da campanha é que a força emocional do confronto com Moraes seja maior do que essa contradição.
Até agora, há sinais de que o cálculo pode funcionar junto à base. Um levantamento da Datrix divulgado neste fim de semana mostrou Flávio alcançando em agosto seu melhor desempenho digital entre os presidenciáveis monitorados, mesmo sob o impacto das revelações envolvendo o financiamento do filme.
Lula escolhe outro inimigo: a dependência externa
Se Flávio olha para Brasília quando fala em independência, Lula olha para Washington.
No pronunciamento transmitido na noite de 6 de setembro, o presidente praticamente transformou “soberania” na palavra-chave do 7 de Setembro.
Falou de terras raras, minerais críticos, petróleo, água, produção tecnológica e livre comércio. E resumiu sua mensagem afirmando que o Brasil não será novamente transformado em colônia.
Não é uma escolha retórica isolada.
O Senado acaba de aprovar o novo marco dos minerais críticos, incluindo instrumentos para incentivar o processamento dessas riquezas dentro do país. O Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, materiais essenciais para setores como veículos elétricos, geração de energia, tecnologia e defesa.
E é justamente sobre essas reservas que Estados Unidos, China e outras potências travam uma crescente disputa estratégica.
Lula tenta transformar essa realidade econômica em linguagem eleitoral:
o Brasil não pode simplesmente possuir a matéria-prima; precisa decidir como explorá-la, industrializá-la e com quem negociá-la.
A soberania deixa, então, de ser apenas uma palavra abstrata.
Ela passa a significar petróleo, minerais, indústria, tecnologia e capacidade de dizer não.
Trump ajudou a construir o discurso que Lula utiliza hoje
Existe uma razão adicional para que a mensagem funcione politicamente.
A retórica atual de Lula sobre interferência estrangeira ganhou força depois das ações do governo Donald Trump em 2025.
Naquele ano, a Casa Branca vinculou explicitamente uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros ao tratamento dado a Jair Bolsonaro no processo relacionado à tentativa de golpe. No mesmo período, o governo americano aplicou sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes.
Ou seja: Washington utilizou instrumentos de política externa e comercial enquanto criticava um processo judicial brasileiro envolvendo um aliado político de Trump.
Foi o cenário ideal para Lula construir sua resposta em torno da palavra soberania.
A situação mudou parcialmente depois. Em dezembro de 2025, os Estados Unidos retiraram Moraes da lista de sancionados e começaram a reduzir parte das tensões comerciais, num momento de melhora da relação entre Trump e Lula.
Mas o conflito não desapareceu.
Neste ano, Washington voltou a impor tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, enquanto autoridades dos dois países ainda negociam uma saída para o impasse. Trump e Lula conversaram por telefone em agosto, e equipes dos governos retomaram negociações comerciais no fim do mês.
Portanto, a relação não é de ruptura diplomática.
É de competição, negociação e desconfiança.
Onde Flávio entra na relação com Washington
É justamente neste ponto que aparece talvez a maior contradição simbólica deste 7 de Setembro.
Enquanto Flávio fala em recuperar a independência do país diante de estruturas internas que considera abusivas, sua candidatura construiu uma aproximação explícita com Donald Trump.
Em maio, Flávio foi recebido pelo presidente americano na Casa Branca.
Depois do encontro, afirmou não ter pedido um endosso formal à candidatura — uma distinção importante —, mas disse ter explicado a Trump que, caso fosse eleito, os Estados Unidos teriam no Brasil “um presidente aliado”.
Flávio também prometeu estabelecer, se chegar ao Planalto, parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos justamente na exploração de terras raras e minerais críticos.
Eduardo Bolsonaro foi ainda mais longe.
Nos últimos dias, voltou a afirmar que pediu ao governo americano a retomada das sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes.
E há outro sinal de interesse do trumpismo na eleição brasileira: aliados de Trump encomendaram uma pesquisa sobre a corrida presidencial que seria utilizada para informar interlocutores da Casa Branca e do Departamento de Estado. O levantamento mostrou Lula e Flávio tecnicamente empatados em um eventual segundo turno.
Isso não permite afirmar que o governo dos Estados Unidos esteja oficialmente fazendo campanha por Flávio Bolsonaro.
Trump não formalizou até aqui um endosso eleitoral ao candidato brasileiro; o próprio Flávio afirma que não pediu isso. Além disso, o presidente americano mantém interlocução direta com Lula e negocia com seu governo.
Mas seria igualmente artificial ignorar a convergência.
A família Bolsonaro investiu durante anos na construção de relações com o trumpismo, integrantes desse grupo atuaram em Washington contra Moraes e Flávio apresentou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos a perspectiva de um futuro governo brasileiro politicamente aliado.
Washington, portanto, não pode ser tratado como um simples espectador dessa eleição.
Lula também tenta se afastar de Moraes
Existe ainda uma mudança importante no outro lado dessa equação.
Lula não parece disposto a defender Alexandre de Moraes politicamente no meio da atual crise.
Depois da divulgação do material do caso Master, o presidente conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, e aliados passaram a construir o discurso de que ninguém está acima da lei. A estratégia representa um afastamento da imagem de proximidade que Lula e Moraes tiveram durante boa parte do atual governo.
Essa distância interessa eleitoralmente ao presidente.
Se abraçasse Moraes agora, Lula ofereceria a Flávio exatamente a polarização desejada: de um lado Bolsonaro, do outro Lula e o ministro do Supremo.
Em vez disso, o Planalto tenta colocar a discussão em outro terreno.
O adversário de Lula no 7 de Setembro não é Moraes.
É a tutela estrangeira.
Dois nacionalismos disputando a mesma bandeira
É por isso que o 7 de Setembro de 2026 talvez seja mais revelador do que as próprias manifestações previstas para este domingo.
Não porque determinará sozinho o resultado da eleição.
Mas porque mostra com extraordinária clareza os dois enquadramentos que provavelmente acompanharão Lula e Flávio até outubro.
Flávio Bolsonaro oferece uma narrativa de libertação interna: o Estado teria sido capturado por autoridades sem controle suficiente, e sua missão seria devolver poder ao eleitor, enquadrar o Judiciário e romper o ciclo iniciado com as investigações contra seu pai.
Lula oferece uma narrativa de emancipação externa: o Brasil não deveria aceitar que outra potência condicione suas decisões econômicas, estratégicas ou institucionais, e suas riquezas deveriam ser utilizadas segundo interesses nacionais.
Ambos reivindicam o patriotismo.
Ambos dizem defender a independência.
E ambos carregam contradições.
Flávio precisa explicar como concilia um discurso nacionalista com a busca aberta por uma aliança privilegiada com a Casa Branca — especialmente quando integrantes de seu campo político pedem que Washington sancione autoridades brasileiras.
Lula precisa convencer que sua soberania não é apenas uma ferramenta eleitoral conveniente contra Trump, enquanto seu governo continua negociando normalmente com os Estados Unidos e tenta administrar o desgaste produzido pela proximidade passada com ministros de um STF hoje mergulhado em uma de suas maiores crises recentes.
Até mesmo as ruas serão disputadas.
O governo mobiliza apoiadores para acompanhar o desfile oficial na Esplanada, mas determinou que não haja propaganda partidária ou eleitoral, numa tentativa de evitar problemas com a Justiça Eleitoral. Já o campo bolsonarista concentra sua demonstração de força na Paulista, com Lula e Moraes como alvos.
O paradoxo é perfeito para a eleição brasileira de 2026.
Duzentos e quatro anos depois da separação de Portugal, os candidatos que hoje polarizam a sucessão presidencial não discutem se o Brasil é independente.
Disputam de quem o Brasil precisa se tornar independente outra vez.
Para Flávio Bolsonaro, de Alexandre de Moraes e de um sistema institucional que considera fora de controle.
Para Lula, da capacidade de governos estrangeiros de pressionar decisões brasileiras e disputar as riquezas do país em seus próprios termos.
É essa batalha — muito mais do que o desfile militar ou o tamanho das manifestações — que transforma o 7 de Setembro deste ano no primeiro grande retrato do segundo turno que as pesquisas já começam a desenhar.