Real Time Big Data mostra governador com 45% contra 44% do ex-prefeito; em março, ACM tinha cinco pontos de vantagem. Movimento começa a lembrar 2022, quando o candidato do União chegou à campanha como franco favorito e terminou derrotado por Jerônimo Rodrigues
Há quatro anos, ACM Neto entrou na eleição da Bahia como favorito quase incontestável. Pesquisas chegaram a projetar vitória no primeiro turno. Jerônimo Rodrigues começou muito atrás, cresceu durante a campanha, ultrapassou o adversário e terminou no Palácio de Ondina.
Em 2026, ainda é cedo para decretar que a história vai se repetir. Mas os números começam a produzir um desconfortável déjà-vu para o ex-prefeito de Salvador.
Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta quarta-feira (9) mostra, pela primeira vez nesta série do instituto, Jerônimo Rodrigues (PT) numericamente à frente de ACM Neto (União Brasil): 45% a 44% no principal cenário estimulado. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, portanto o resultado configura empate técnico. Mas, politicamente, a fotografia interessa menos que o filme.
E o filme mostra uma distância que desapareceu.
De cinco pontos atrás para um ponto à frente
Em março, levantamento do próprio Real Time Big Data colocava ACM Neto com 44%, contra 39% de Jerônimo Rodrigues. Eram cinco pontos de vantagem para o ex-prefeito.
Em agosto, nova rodada do mesmo instituto já mostrava a corrida praticamente empatada: ACM 44%, Jerônimo 42%. Neto permanecia no mesmo patamar, enquanto o governador avançava três pontos.
Agora, em setembro, a ordem se inverte numericamente:
Março
ACM Neto 44%
Jerônimo 39%
Agosto
ACM Neto 44%
Jerônimo 42%
Setembro
Jerônimo 45%
ACM Neto 44%
Não significa que Jerônimo tenha aberto vantagem estatística. Não abriu. Os dois continuam tecnicamente empatados.
Mas significa algo politicamente relevante: ACM Neto permaneceu praticamente estacionado enquanto Jerônimo percorreu o espaço que o separava do adversário.
O governador ganhou seis pontos desde março na série do Real Time. Neto continua exatamente nos 44% que registrava seis meses atrás.
É justamente aí que 2022 volta à memória.
O fantasma de 2022
Na eleição passada, o favoritismo de ACM Neto era muito mais impressionante.
Em agosto de 2022, o Datafolha mostrava o então candidato do União Brasil com 54% das intenções de voto, contra apenas 16% de Jerônimo Rodrigues. A diferença era de inacreditáveis 38 pontos. Naquele momento, a possibilidade de vitória de ACM Neto já no primeiro turno parecia perfeitamente plausível.
Só que setembro chegou.
No dia 14 daquele mês, ACM caiu para 49%, enquanto Jerônimo saltou de 16% para 28%. Poucos dias depois, Neto aparecia com 48% e Jerônimo já estava em 31%.
Na véspera da eleição, o Datafolha ainda dava ACM Neto na frente nos votos válidos, com 51% contra 38%. Mas a trajetória interna do levantamento já mostrava algo importante: nos votos totais, Neto havia recuado de 54% para 46%, enquanto Jerônimo subira de 16% para 34%.
A urna foi ainda mais contundente.
Jerônimo terminou o primeiro turno com 49,33% dos votos válidos, contra 40,88% de ACM Neto. Ou seja: o candidato que poucas semanas antes aparecia muito atrás terminou o primeiro turno quase nove pontos à frente.
No segundo turno, confirmou a vitória: 52,54% contra 47,46%, tornando-se governador da Bahia.
Por isso, quando pesquisas de 2026 começam a mostrar novamente a vantagem de ACM Neto desaparecendo ao longo da campanha, a comparação deixa de ser apenas retórica.
Até o segundo turno virou numericamente
O levantamento desta quarta-feira oferece outro sinal.
Num confronto direto de segundo turno, Jerônimo aparece com 46%, contra 45% de ACM Neto. São 5% de brancos e nulos e 4% que não souberam responder.
Também é empate técnico. Mas, novamente, o petista aparece numericamente à frente.
Em agosto, na rodada anterior do Real Time Big Data, o desenho era o inverso: ACM tinha 45% contra 44% de Jerônimo no segundo turno.
A mudança é pequena matematicamente, mas importante na leitura política: Jerônimo deixou de perseguir ACM e passou a correr lado a lado — com ligeira vantagem nominal tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Até na pesquisa espontânea, quando nenhum nome é apresentado ao eleitor, Jerônimo aparece com 20% contra 19% de ACM Neto. Quase metade do eleitorado, 49%, ainda não sabe ou não respondeu nessa modalidade, o que revela o tamanho do espaço ainda disponível para disputa.
A eleição tem dois eleitorados muito diferentes
Os cortes da pesquisa ajudam a entender onde está a força de cada candidatura.
Entre os homens, ACM Neto aparece na frente: 48% contra 42% de Jerônimo. Entre as mulheres, a situação se inverte com força: Jerônimo marca 48% e ACM, 40%.
A divisão econômica é ainda mais radical.
Entre os eleitores que recebem até dois salários mínimos — faixa que representa a maior parcela da amostra — Jerônimo vence por 49% a 39%.
Conforme a renda sobe, o cenário muda.
Entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos, ACM alcança 51% contra 39% de Jerônimo. Acima de cinco salários mínimos, a diferença se transforma em abismo: 65% para ACM Neto e 29% para Jerônimo.
O mapa eleitoral que emerge é claro: o petista encontra sua principal fortaleza na base popular, enquanto ACM domina os segmentos de renda mais elevada.
E numa Bahia em que 67% dos entrevistados da pesquisa estão na faixa de até dois salários mínimos, essa diferença não é detalhe sociológico. É matemática eleitoral.
Jerônimo tem a máquina — e aprovação acima de 50%
Há ainda outro elemento que diferencia 2026 de 2022.
Desta vez Jerônimo não é o desconhecido apresentado ao eleitor pelo grupo político de Rui Costa e Lula. É governador, candidato à reeleição e dispõe da visibilidade e da capilaridade de quem ocupa o Palácio de Ondina.
Segundo o Real Time Big Data, 53% dos baianos aprovam sua administração, enquanto 45% desaprovam.
A avaliação qualitativa é menos confortável: 30% consideram o governo ótimo ou bom, 41% regular e 28% ruim ou péssimo. Ainda assim, Jerônimo entra na reta decisiva com uma maioria aprovando seu trabalho.
Isso oferece ao governador uma plataforma eleitoral que ele simplesmente não possuía em 2022.
E a rejeição de ACM já é ligeiramente maior
Há também um alerta do outro lado.
ACM Neto registra 45% de rejeição, contra 43% de Jerônimo Rodrigues. Como a pergunta admite múltiplas respostas e a diferença está dentro da margem de erro, não há diferença estatisticamente significativa entre eles. Mas o dado mostra que o ex-prefeito também enfrenta um teto eleitoral elevado.
Para ACM, esse talvez seja o problema central da eleição.
O candidato continua extremamente competitivo. Tem 44% dos votos, domina segmentos importantes do eleitorado e está tecnicamente empatado com o governador. Seria incorreto tratar a pesquisa como sinal de derrota iminente.
O problema está na dinâmica.
ACM Neto parece novamente chegar primeiro ao teto, enquanto seu adversário continua subindo.
Foi exatamente esse roteiro que transformou uma eleição aparentemente resolvida em 2022 numa das maiores reviravoltas daquele pleito.
A diferença é que desta vez o aviso chegou mais cedo
Há, porém, uma diferença fundamental.
Em 2022, ACM Neto começou a campanha com vantagem gigantesca. Talvez justamente por isso a reação adversária tenha sido subestimada durante boa parte do processo.
Em 2026, não existe colchão.
A diferença que era de cinco pontos no Real Time Big Data em março caiu para dois em agosto e agora se transformou em vantagem numérica de um ponto para Jerônimo.
E falta menos de um mês para a eleição.
É cedo para falar em vitória petista. Estatisticamente, a Bahia continua dividida ao meio. 45% a 44% é empate, não sentença.
Mas para ACM Neto, a pesquisa traz uma mensagem incômoda e impossível de ignorar: pela segunda eleição consecutiva, ele entrou na disputa na frente.
E, outra vez, Jerônimo Rodrigues está chegando por trás.
Desta vez, já chegou.