Levantamento da Instituição Fiscal Independente reúne crédito, despesas e renúncias tributárias. Com dívida pública próxima de 83% do PIB, especialistas cobram definição de como o próximo governo financiará seus compromissos.
O próximo presidente da República enfrentará um desafio econômico que já preocupa especialistas e investidores: reorganizar as contas públicas em meio ao crescimento da dívida e à expansão de medidas de estímulo anunciadas durante 2026.
Levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado, aponta que as iniciativas econômicas apresentadas pelo governo federal mobilizam aproximadamente R$ 298,4 bilhões. O valor reúne programas de crédito, despesas públicas, renúncias tributárias e recursos de terceiros.
O número é expressivo, mas exige uma distinção importante: não significa que o governo tenha gasto diretamente R$ 298 bilhões do orçamento.
Segundo o levantamento, R$ 185,7 bilhões correspondem a operações de natureza financeira, principalmente programas de crédito com juros subsidiados. Outros R$ 63,2 bilhões estão associados a despesas primárias, enquanto R$ 30,6 bilhões representam renúncias tributárias e R$ 18,9 bilhões envolvem recursos externos ao orçamento federal.
Essas categorias possuem impactos fiscais diferentes. Uma operação de crédito não equivale integralmente a uma transferência de recursos sem retorno, embora possa envolver subsídios, riscos e custos para o setor público.
A preocupação dos economistas está na combinação entre novos compromissos, despesas já existentes e o espaço limitado para acomodar gastos no próximo orçamento.
O alerta ganhou força depois que o governo anunciou medidas adicionais na reta final da eleição presidencial.
Entre elas estão o perdão de dívidas tributárias de microempreendedores, propostas de transferências de até R$ 5 mil para pequenos negócios, ampliação de benefícios educacionais e a promessa de transporte público gratuito aos fins de semana.
Também foram adotadas medidas temporárias para reduzir o impacto dos preços internacionais dos combustíveis.
O governo argumenta que essas iniciativas buscam proteger a renda das famílias, ampliar o crédito e impedir que a crise energética internacional comprometa o consumo e a atividade econômica.
O problema é que algumas dessas propostas dependem de aprovação legislativa, enquanto outras exigirão recursos futuros ainda não completamente definidos.
Marcus Pestana, diretor da IFI, afirmou que o orçamento federal não dispõe de espaço suficiente para novas políticas públicas sem revisão de receitas, despesas ou prioridades.
Segundo ele, a instituição identificou inicialmente uma diferença de aproximadamente R$ 100 bilhões entre as projeções oficiais e suas estimativas independentes para o orçamento de 2027.
Com novos compromissos anunciados, essa divergência poderia atingir R$ 136 bilhões.
A análise da IFI não significa que exista um déficit confirmado nesse valor. Trata-se de uma diferença entre projeções, utilizada para avaliar os riscos de execução do orçamento.
A situação também precisa ser observada à luz da dívida pública.
Segundo o Banco Central, a dívida bruta brasileira alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto, equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões.
Quando a dívida cresce, o governo precisa considerar o custo de financiá-la, especialmente em um ambiente de juros elevados.
A taxa Selic permanece em 13,75% ao ano. Embora tenha começado a recuar, continua representando um custo importante para a economia.
Uma piora persistente das expectativas fiscais pode pressionar os juros exigidos por investidores para financiar o governo, dificultando a redução do custo do crédito.
Por outro lado, medidas de transferência de renda e estímulo ao consumo podem sustentar a atividade econômica no curto prazo, especialmente entre famílias com menor renda disponível.
É justamente essa combinação de possíveis benefícios imediatos e custos futuros que torna a discussão fiscal relevante.
Na campanha presidencial, Lula defende crescimento econômico e ampliação de oportunidades como caminhos para melhorar as receitas públicas. Flávio Bolsonaro promete reduzir gastos, enxugar estruturas administrativas e realizar ajustes na máquina federal.
As propostas diferem, mas ambas precisarão ser detalhadas e confrontadas com as despesas obrigatórias e as limitações legais do orçamento.
A IFI avalia que o próximo governo terá de realizar algum tipo de ajuste fiscal, independentemente do resultado eleitoral.
O principal desafio será definir quais gastos podem ser financiados de maneira permanente, quais incentivos realmente produzem resultados e quais compromissos precisam ser revistos.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, os eleitores acompanham promessas de novos benefícios. A discussão sobre como pagar por eles, entretanto, será uma das primeiras responsabilidades de quem ocupar o Palácio do Planalto em janeiro de 2027.